Da pá virada

Marcelo Rubens Paiva

07 de maio de 2012 | 11h49

Primeiro, descobrimos como ALEX ATALA é pop.

Sua galinhada atraiu bem mais do que o esperado no Minhocão e simbolizou o sucesso [ou desorganização] da Virada Cultural deste fds.

Segundo… Como o novo brasileiro tem fome voraz pelo consumido pelas “zelites”!

Não só nos aeroportos e roteiros turísticos.

Um prato simples até atrai uma multidão, gera filas e confusão.

São Paulo fica diferente na Virada.

Parece atacada por zumbis com sede de cultura.

Todos ganham.

O jeito é, por que não, passar uma madrugada acordado e zelar pelo celular [a colunista Nina Lemos teve o seu roubado 5 minutos após pisar na Virada].

E noia mesmo é área VIP na região da cracolândia.

Noias foram outro destaque da Virada.

Achei ótima ideia parte da Virada ser no território deles.

Forçar o contato entre a população e aqueles que só conhece por fotos nos jornais.

Quem não tem o hábito te ir ao Centro viu que eles existem aos montes e são cidadãos respeitáveis, que merecem atenção.

O tempo ajudou e a lua cheia brindou como a cereja do bolo [a maior lua em 18 anos].

E conheci o novo Sesc Bom Retiro, na verdade no bairro de Campos Elísios, charmoso de doer, que pode ser o começo da renovação da região com tanta história.

Em cuja lanchonete se paga R$ 1 pelo pão de queijo, R$ 3 pela sopa, R$ 3,50 pelo sunday.

E em cujo teatro você pode ver peça baseada no roteiro nunca filmado de Fellini, A VIAGEM DE G MASTORNA.

Cony escreveu na ILUSTRADA desta sexta:

Fellini, que fazia caricaturas para uma revista, sonhava filmar uma história de Dino Buzzati, com o estranhíssimo título de “A Viagem de Giuseppe Mastorna”. Foi processado pelo produtor, Dino De Laurentiis, porque nunca rodou uma única cena.

Isso não impediu que Fellini fizesse outros filmes, inclusive “Oito e Meio”, que conta exatamente o drama do artista que persegue uma grande obra, começa a embromar o produtor e exige locações absurdas, como uma praça medieval com um Boeing no meio, e algumas instalações que parecem rampas de foguetes espaciais. Ele não acredita que a produção consiga o absurdo, mas o produtor arranja dinheiro e leva o diretor para ver o cenário e dar uma entrevista à imprensa internacional.

O diretor desmaia ao ver o que foi feito, tem de dar alguma explicação aos jornalistas. “Eu paguei um dinheirão a todos eles, diga qualquer coisa sobre o filme, invente!”. O produtor está furioso. Uma repórter alemã grita para os jornalistas: “Ele não tem nada a dizer!”.

“Oito e Meio” é em parte o que restou de “Giuseppe Mastorna”: um filme sobre um filme que jamais seria feito. Na última entrevista que deu, Fellini confessa que todos os seus filmes são pedaços do projeto inacabado, projeto que ele perseguiu por toda a vida sem conseguir realizar.

Filme que virou lenda [ou maldição].

E hoje, no ESTADÃO, matéria assinada por FLÁVIA GUERRA:

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,peca-teatral-se-inspira-em-roteiro-inedito-do-diretor-de-cinema-federico-fellini,869722,0.htm

 

Peça teatral se inspira em roteiro inédito do diretor de cinema Federico Fellini

Marcelo Rubens Paiva adaptou texto que começou a ser filmado nos anos 60, mas não foi concluído

07 de maio de 2012 | 10h 21
Flavia Guerra – O Estado de S.Paulo

 

Cena da peça 'Il Viaggio' - José de Holanda/Divulgação
José de Holanda/Divulgação
Cena da peça ‘Il Viaggio’

“A única preocupação permitida ao homem é de não se preocupar” , diz a aeromoça ao violoncelista Giuseppe Mastorna em cena da peça Il Viaggio. E tudo que o tal violoncelista faz em cena, e na vida, é burlar seu próprio direito, preocupando-se quase à exaustão com seu destino.

Destino esse que já começa desviado na primeira cena, quando o avião que o levava para um concerto em Firenze é forçado a fazer um pouso de emergência em uma cidade desconhecida. Pode ser uma cidade real, pode ser um sonho, pode ser a morte. E assim começa a viagem de Mastorna por esse universo de sonho e pesadelo, em que vida e morte confundem as certezas dele, que queria ser um grande compositor, mas tornou-se cidadão comum. 

Livre adaptação do roteiro inédito de Federico Fellini, Il Viaggio di G. Mastorna, concebido por Helena Cerello e dirigido por Pedro Granato, o espetáculo estreou sábado no Sesc Bom Retiro em plena Virada Cultural. Em clima onírico, transporta a plateia ao universo felliniano. “A referência a Fellini é claríssima. Fomos fieis à essência do roteiro, que ele começou a filmar nos anos 60 com Marcello Mastroianni, mas nunca concluiu”, explica Marcelo Rubens Paiva. 

Convidado pela atriz e produtora Helena Cerello a adaptar o texto para o teatro, Rubens Paiva conta que, apesar de ter incluído várias cenas, situações e diálogos, manteve a estrutura principal proposta pelo diretor italiano. “Priorizamos a jornada do músico que desejava ser grande compositor, e se distanciou desse ideal com o passar dos anos.”

Mastorna transformou-se num sujeito comum. Ou quase. Em sua vontade de ser ‘normal’, o músico se torna ridículo. E frustrado. Pois ao realizar sua viagem interna, descobre memórias que o fazem rever a vida e questionar se o universo caótico em que se encontra é a tão almejada vida eterna. 

Para criar o universo de sonhos, pesadelos e de comicidade – humor nonsense, e circense, bem ao gosto de Fellini-, o diretor Granato e equipe optaram por soluções criativas. O desafio de levar ao palco a história inicialmente pensada para o cinema fez com que elementos cênicos como um avião vire portaria de um hotel, uma cama, uma casa… “Não tivemos de abrir mão das ideias do texto para dar a ele uma linguagem teatral. Assumimos que o avião se desmembra. A partir desse cenário, vão se construindo os espaços citados no roteiro”, explica Granato. “Do desastre em diante, tudo se cria para aguçar a imaginação.” 

Imaginação foi o que Rubens Paiva e Helena tiveram ao trabalhar o texto. “Há pouca indicação de cenas no roteiro. Interessante é observar que as explicações são poucas e muito frouxas. Talvez por isso ele nunca tenha filmado. Isso torna o processo mais complexo, mas deixa livre para criar também”, comenta o dramaturgo. 

Vale lembrar que o texto original foi traduzido por Helena, que descobriu a história na Itália. Isso porque Fellini transformou o roteiro em um livro. “Justamente por ter sido pensado para o cinema, tinha muitos diálogos e até story board. Já tínhamos escrito a peça quando descobrimos uma carta de Fellini ao produtor Dino de Laurentiis, com indicações de filmagem. Isso mudou nossa concepção da história. Então, frases dessa carta foram incluídas na peça”, conta. 

Além das soluções cênicas, de frases e diálogos, Granato, Helena e Rubens Paiva deram à peça um caráter político. “Há cenas inteiramente novas. Mas destaco esses detalhes, como o discurso do papa, o autoritarismo…” .

Destaque também para o elenco acertado. Esio Magalhães (Mastorna), Bete Dorgam, Paula Flaiban, Paulo Federal, Ed Moraes encarnam as figuras fellinianas com verdade e graça. São esses clowns, ora engraçados, ora líricos, e outras vezes melancólicos, que de fato conduzem Mastorna ao seu destino final.

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