da lata

da lata

Marcelo Rubens Paiva

24 de maio de 2012 | 21h18

Muitos se perguntam se um dia a maconha fosse liberada, como seria a venda.

Olha aí uma sugestão:

 

 

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Bela capa. Falou por todos:

 

 

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Líder da gangue, do bando ou do hospício lança biografia:

 

 

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Convitão pro fim de semana.

Peça sobre FELLINI.

 

 

Olha do que se trata, segundo o site http://www.italiaoggi.com.br

 

INSPIRANDO-SE EM UM CONTO DE DINO BUZZATI, O DIRETOR ITALIANO PRETENDIA FAZER “UM FILME SOBRE COISAS MORTAS”, MAS FOI PROCESSADO PELO PRODUTOR DINO DE LAURENTIIS POR NÃO TER CONCLUÍDO O TRABALHO, INICIADO EM 1966

A Viagem de Giuseppe Mastorna”, o filme que Fellini planejou fazer e nunca fez -embora tenha tentado rodá-lo várias vezes, desistindo em seguida-, narraria a vida de um violoncelista após a morte.

No assim chamado mundo do além, Mastorna desembarcava numa cidade que parecia um gigantesco cartão-postal de todas as cidades do mundo, habitado por gente de todas as partes do planeta. Encontrava os pais serenamente leves, livres enfim do papel que lhes cabia.

Reencontrava os brinquedos da infância, que ele costumava destruir; as mulheres amadas, todas mal amadas.

 

Ou seja, depois da morte, era a própria vida que se reapresentava, com desejos e conflitos, remorsos e dúvidas. “Não se trata de um filme sobre a transcendência”, disse Fellini, “mas de um filme sobre coisas mortas, que estão numa zona estagnada. Aquelas que precisam de uma morte verdadeira”.

 

Que “A Viagem de Giuseppe Mastorna”, inspirado em um conto juvenil do escritor Dino Buzzati [1906-1972, autor também de “O Deserto dos Tártaros”], fosse uma história sobre a morte real ou sobre a morte interior, que Fellini não o tenha feito por superstição -como disse Dino de Laurentiis ao levá-lo ao tribunal por perdas e danos- ou porque fosse um filme que não conseguiu fazer -como afirmará o próprio Fellini-, hoje tudo isso pouco importa. Fellini queria um filme sem brilho, essa era a sua intenção. E sem cores. Mandou desenhar e executar milhares de figurinos, todos de cor cinza: diversos matizes de gris, tom sobre tom, do branco ao preto.

 

Mas um filme que não foi feito não existe, e o que hoje resta são poucas e preciosas relíquias. A única cena rodada: o desembarque de Mastorna perdido em meio a uma forte nevasca, muito cinza e barulhenta como um furacão, diante de uma catedral gótica tão alta quanto um arranha-céu. Cena conservada por Fellini do documentário “Block Notes di un Regista” [Anotações de um Diretor], produzido pelos EUA em 1969.

 

O que fica é o fascínio dessa história maldita, recontada em um recente documentário de Maite Carpio (exibido em dezembro último na Casa do Cinema de Roma, quando também foi lançado o livro de Alessandro Casanova sobre todos os filmes incompletos de Fellini [“Scritti e Immaginati”, Escrito e Imaginado, ed. Guaraldi Universitaria]).

 

Resta também o roteiro, definido por Tonino Guerra como “a história de uma melancolia oblíqua, como a perda de um perfume”. Restam os pensamentos do cineasta recolhidos ao longo dos anos por Dario em “Cose Dette da F.F. a proposito del “Viaggio di G. Mastorna'” [Coisa Ditas por F.F. sobre “A Viagem de G. Mastorna”].

A íntegra deste texto foi publicada no jornal “La Repubblica”.

 

A OBRA-PRIMA FANTASMA

 

PARCEIROS EM SUCESSOS COMO “A DOCE VIDA” E “OITO E MEIO”, FELLINI E MASTROIANNI JÁ SE ESTRANHAVAM NAS FILMAGENS DE “A VIAGEM DE GIUSEPPE MASTORNA”, QUE SE TORNARIA UMA OBSESSÃO PARA O CINEASTA

 

NATALIA ASPESI

 

As 48 fotografias de Tazio Secchiaroli, exibidas em Roma, documentam melancolicamente que o filme em fase de filmagem estava destinado a não nascer nunca. Mais ainda: naquela altura, ele já estava morto e enterrado, e Fellini, em 1969, estava apenas desencavando seus restos para o documentário “Block Notes di un Regista” [Anotações de um Diretor], encomendado por uma TV norte-americana.

 

Percebe-se nele um ar de cansaço, de encenação, e é óbvio que ninguém mais ali acreditava no projeto: Mastroianni se olha no espelho, sonolento, e se irrita quando lhe metem na cabeça o habitual chapéu felliniano; perdido na fumaça do cigarro, como para disfarçar-se, quase não olha o mestre, que por sua vez parece inquieto, concentrado nos gestos típicos de diretor, que observa através da câmera apertando um olho, enquanto o ator ajusta o paletó. Apenas o violoncelo, com toda sua corpulência, tem um aspecto concreto, apesar de deslocado e melancólico: um objeto que sabe que nunca será protagonista de nada.

 

A aventura inútil de “A Viagem de Giuseppe Mastorna” tinha começado em 1966, quando Marcello Mastroianni estava com 42 anos e Federico Fellini com 46 -ambos venerados, estrelas de um cinema italiano que havia conquistado o mundo. Juntos, diretor e ator haviam criado “A Doce Vida” [1960] e “Oito e Meio” [1963], obras-primas que já faziam parte da história do cinema.

 

Sonhos, litígios e doenças

 

Agora, para aqueles testes sem objetivo, eles se reencontravam e se estranhavam, incapazes de se entenderem, e tentavam representar, juntos, um filme inexistente, que Fellini já havia descartado depois de episódios de fúria, sonhos infaustos, litígios e seqüestros judiciais, doenças misteriosas.

 

Um filme que jamais foi rodado, como se o cineasta temesse sua realização e o percebesse como uma profecia maléfica, uma nêmesis aterradora, um espantalho a ser mantido à distância.

 

Um filme que nunca morreu, que se tornou uma lenda, sobre o qual o próprio diretor dava a cada vez, e a quem lhe perguntasse, uma versão diferente, imaginando-o para sempre como uma meta suspensa no futuro, que cedo ou tarde seria alcançada, a “obra-prima fantasma” que teria imortalizado sua arte.

 

Há um caráter amável e esquivo, conciliador e irredutível, do grande autor em seu longo adiamento, inclusive nessa sessão de fotos que ele sabia inúteis, um pretexto para libertar-se da armadilha criativa em que se deixara cair sem se dar conta.

 

A vida breve e o coma infinito de Giuseppe Mastorna são muito bem relatados por Tullio Kezich no livro “Fellini, uma Biografia” [lançado no Brasil pela ed. L&PM]. A idéia surgiu muito antes, em 1938, quando Fellini ainda morava em Rimini e tinha seus 18 anos; foi então que ele leu no semanário “Omnibus” um conto de Dino Buzzati em que um garoto de 12 anos morre e se vê diante de uma odisséia no mundo do além, para depois voltar à terra, após ter compreendido o segredo da vida.

 

Essa história ficou na sombra de seus pensamentos durante quase 30 anos, como um refúgio à realidade do trabalho e do sucesso crescente.

 

Depois algo se rompe, e ele filma “Julieta dos Espíritos” [1965], seu primeiro longa-metragem em cores, experiência que o deixa insatisfeito, notando a decepção do público. Foi na primavera de 1965, ao passar por Milão, que lhe veio a vontade de conhecer Buzzati, autor daquele conto inesquecível: faz a proposta de escreverem juntos o roteiro, e juntos freqüentaram magos videntes, conversaram por mais de um ano, tudo inutilmente.

 

O violoncelista Giuseppe Mastorna continua sendo uma figura nebulosa, plantada numa praça desconhecida, silenciosa e sombria, diante de uma catedral gótica.

 

À medida que o roteiro avança na história como se entrasse num sonho, o produtor Dino de Laurentiis, que pouco antes havia fundado a “Dinocittà”, vai investindo milhões no filme, todo entusiasmado com sua primeira parceria com Fellini, sem se preocupar com que o diretor lhe prometesse vagamente uma história que será “uma experiência inefável, mística, o sentimento do todo”. Escolhem-se figurantes, preparam-se locações, desenham-se cenários e figurinos, busca-se um ator principal que alivie o crescente mau humor do cineasta.

 

Fellini já está cansado de Mastroianni, e, além disso, o ator estava comprometido com uma peça; Giorgio Strehler gostaria de fazer o papel; Laurence Olivier não se interessa; Steve McQueen impõe condições; quem sabe Paul Newman?

 

Isso leva mais de um ano, e nesse meio-tempo morre Ernst Bernhard, o analista de Fellini, o que o deixa desconsolado. Então ele escreve: “Caro Dino, estou me sentindo exausto e sem ânimo; nessas condições, não posso realizar o filme”.

 

Fora de si, o napolitano De Laurentiis processa o diretor, declarando um prejuízo enorme, sem contar que, com esse “comportamento irresponsável”, 70 pessoas ficaram sem trabalho.

 

Na casa de Federico em Fregene, agentes apreendem quadros e objetos, enquanto o cineasta se entrincheira em casa, recusando-se a dar declarações. Poucos meses depois, os dois se reconciliam em um passeio pela Villa Borghese [em Roma], acompanhados pelos respectivos advogados. “Mastorna” será feito, e finalmente é firmado um contrato com Ugo Tognazzi [1922-90], eufórico, enquanto Fellini o considera muito terreno, ou seja, pouco neurótico para o seu “Mastorna”.

 

Maldição

 

Em abril de 1967, o filme já se tornou um pesadelo: certa noite, sozinho em casa, Fellini passa muito mal e desmaia. Por sorte é socorrido a tempo: a maldição de Mastorna abateu-se sobre ele sob o misterioso diagnóstico de síndrome de Sanarelli-Schwarzmann. De Laurentiis consegue vender por quase metade de seu prejuízo o material filmado de “Mastorna” a um advogado napolitano, Alberto Grimaldi, que já havia produzido dois faroestes com Sergio Leone. Também ele será desiludido por Fellini, que se recusa a fazer o filme, recomprando-o depois, em prestações, em 1971.

 

Mas a vida inexistente do pobre violoncelista sem rosto ainda não terminou: em 1992, o cineasta o cede a Milo Manara, para que o transforme em HQ.

 

Por que Fellini nunca realizou esse filme? Muito se disse sobre o assunto, e ele mesmo falou de sonhos premonitórios que o teriam feito abandonar o projeto. Talvez, mas ninguém jamais levantou a hipótese de que o grande diretor tivesse simplesmente intuído que o filme nunca chegaria a ser a obra-prima digna de suas ambições e de sua fama.

 

Numa das tantas entrevistas que generosamente concedia a jornalistas que o adoravam, Fellini disse: “Como a carcaça de um navio afundado, “Mastorna” alimentou todos os meus filmes seguintes”.

 

A íntegra deste texto foi publicada no jornal “La Repubblica”.

Traduções de Maurício Santana Dias.

 

(© Folha de S. Paulo)

 

Diretor chegou a consultar médium

 

O último longa de Fellini, “A Voz da Lua” [1990], foi baseado no livro “Il Poema dei Lunatici”, de Ermanno Cavazzoni, que deu palestra na USP, em outubro de 2005, falando de seus livros e relatando as peripécias que envolveram “A Viagem de Giuseppe Mastorna”. Segundo ele, antes de começar a rodar esse filme, Fellini teria consultado um famoso médium da época, o qual vaticinou que, se ele fosse concluído, o diretor morreria. Diante do sombrio prognóstico, o cineasta teria preferido deixar o projeto de lado.

 

 

Cavazzoni também esclareceu que o nome do protagonista, “Mastorna”, é uma corruptela da frase italiana “Ma si torna?”: “Mas se volta [do além]?”. Parece que Fellini estava tentando retornar a esse longa quando morreu, em 1993. (MSD)

 

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