cuide de vc

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Marcelo Rubens Paiva

06 de agosto de 2009 | 12h26

Assusta um pouco a exposição de Sophie Calle no SESC POMPÉIA, CUIDE DE VOCÊ.

Você já deve ter ouvido falar dela: a mina recebeu uma dispensa por email, do marido escritor, que termina com “cuide de você”, e mostrou para 110 mulheres analisar linha por linha. Deu numa exposição.

Foi uma das obras mais faladas da Bienal de Veneza de 2007, já esteve na França, no Canadá e em Nova York.

São textos, fotos e vídeos de mulheres que analisam e interpretaram o fora dado pelo escritor Grégoire Bouillier, que deve ter se chocado com a reação explosiva da dispensada, mas não proibiu a sua divulgação.

Eu teria proibido. Qual é? Acabou, gata. Acabou porque acabou. Tudo acaba. Fique bem. Podemos ser amigos? Não estava rolando. A gente tentou. Foi bom enquanto durou. Precisa sair por aí mostrando a todos os argumentos do meu rompimento? Puxa, gata…

E mais, a tradução ideal para o português deveria ser “se cuida”, ou “te cuida”, não “cuide de você”, ninguém aqui no Brasil rompe assim, ma chéri.

Há entre as analistas as mais variadas profissões. Uma juíza fala do rompimento de um contrato. Uma revisora aponta os erros de sintaxe do email. Um grafólogo o chama de egocêntrico. Uma psiquiatra diz que a dispensada não precisa de antidepressivos, apenas conviver por um tempo com a tristeza.

Participam as atrizes Jeanne Moreau, Victoria Abril e Maria de Medeiros; a compositora Laurie Anderson; a DJ Miss Kittin.

Ouvi uma mulher, na exposição, ao ler o email, exclamar: “Que cara babaca!” É, rola uma identificação feminina. Aliás, as mulheres só se unem nesse momento: apontar e dedar o canalha entre nós.

OK, pode-se salientar que a exposição mostra o rompimento definitivo entre público e privado e expõe intimidades próprias e alheias para revelar vulnerabilidades. Mas, caramba, não sabe perder, nega? Relaxa. Aprenda a lidar com a rejeição. Fique na sua. Saiba que, nessas horas, a melhor tática é a do infalível SUMIDÃO.

Levou o pé? SOME. O outro lado pira…

Ah, se cuida! Faça como a maioria dos artistas: exorcise através da ficção, nega.

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Teatro, quando é bom, é das maiores experiências que existem.

Falo da peça em cartaz no TEATRO IMPRENSA, com os atores de “Agreste”, Joca Andreazza e Paulo Marcello: ANATOMIA FROZEN.

Escrito pela inglesa Bryony Lavery, o texto explora as histórias de um assassino cometido por um pedófilo, do encontro com a mãe de uma de suas vítimas e de uma psiquiatra. O diretor Márcio Aurélio tirou a cronologia do texto e recriou a obra.

É poético, bem interpretado, sob uma trilha deslumbrante. Disseca em detalhes a mente de um psicótico. Aparentemente um ser comum que hiberna um pacote de maldades surpreendente, como a violência contra crianças.

A peça foi escrita originalmente para ser feita por vários atores. No entanto, aqui, eles dobram os papéis. É um costume nosso saudável. Americanos e ingleses não costumam dobrar papéis. O resultado é uma aula de interpretação.

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E amanhã estreia a peça nova dos PARLAPATÕES, texto de DARIO FO: O PAPA E A BRUXA. Vou ver meus parceiros em cena com certeza. O local não poderia ser outro: ESPAÇO PARLAPATÕES.

O Papa está no Vaticano com dor de coluna, que o faz caminhar todo torto e com pânico de receber milhares de crianças terceiro-mundistas na Praça São Pedro. Cardeais de sua assessoria o pressionam para que atenda jornalistas que o aguardam para uma coletiva de imprensa.

Diante de um ritmo acelerado de fatos e decisões recebe seu médico que o auxiliará cientificamente na sua dor e em sua confusão mental. Porém o médico não dá conta da tarefa, mas uma Freira que o acompanha mostra-se poderosa em soluções. O Papa percebe que a Freira tem poderes muito mais que científicos.

Depois de uma série de peripécias, o Papa constata que a Freira viveu na África e se tornou uma Curandeira. Assustado, ele expulsa a Freira, do Vaticano. Pouco tempo depois, a crise de dor aumenta de maneira incontrolável e o Papa, à paisana, resolve procurar a Freira/Bruxa para resolver seu problema e a partir daí se questiona sobre as ações do Vaticano e da Igreja Católica.

Risada garantida. Humor refinado de DARIO FO, que, como todo italiano, ou ama ou odeia a Igreja.

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Hoje a minha banda favorita, EDDIE, toca RAMONES no STUDIO SP. Ao ritmo pernambucano. Tô nessa! Apesar do NÁUTICO ter dado uma trolhada no TIMÃO ontem.

E sem fumar! Hoje começa a proibição em São Paulo. Bem, vou chegar em casa cheirosinho…

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Me perguntam sobre o fim da minha desavença com o site SUMBARINO.COM [leia post abaixo].

Foi simples. Vieram pegar o monitor pifado, que devolvi. Fui a uma loja FAST de um shopping da elite. Ao entrar, o vendedor logo avisou: “Se você encontrou um preço melhor pela internet, a gente cobre.” Um hábito americano antigo [eles chamam de “match”] que saudavelmente se instalou no Brasil.

Nem precisava. O monitor do cara já estava cem reais mais barato que o do SUMBARINO. Mesmo assim, ele me fez um desconto e me deu 3 anos de garantia. E aí? Comprar pela net? Pense bem…

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Achei uma foto que ilustra o texto publicado 2 posts abaixo.

Eu, esse loirinho, lendo revistinhas em BÚZIOS, com as irmãs LÚCIA, a da esquerda, e ELIZA, sentada. Criaturinhas lindas e inocentes. À deriva…

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