crescei e multiplicai

crescei e multiplicai

Marcelo Rubens Paiva

23 de novembro de 2010 | 13h28

Não existe prazo de validade.

Ninguém sabe ao certo quando começa e por quê.

Pode vir acompanhado de um grande trauma ou uma decepção irrevogável.

O imbróglio simplesmente aparece e desespera alguns casais.

Não há lei que o impeça.

Foram alertados na cerimônia religiosa.

Sede fecundos, prolíficos, crescei, multiplicai e enchei a Terra.

“Que o marido cumpra seu dever em relação à mulher, e igualmente a mulher em relação ao marido. A mulher não dispõe do seu corpo, mas sim o marido. Igualmente o marido não dispõe do seu corpo, mas sim a mulher. Não se recusem um ao outro. Coríntios sete”, alertou o padre.

No entanto, para alguns casais, surge uma indisposição noturna: os corpos não estão dispostos, um recusa o outro.

Se a exceção vira rotina, a crise se instala.

Os primeiros informados são os amigos mais próximos. Com um questionamento aparentemente banal, entre o prato e a sobremesa:

“Qual a frequência para um casamento saudável?”

Depois do café, ao pedir a conta, vem o desabafo que coloca pingos nos is:

“Nós não transamos mais.”

Os amigos sempre partem para a defesa da transparência:

“Vocês já conversaram sobre isso?”

Sim, já conversaram, se perguntaram, procuraram explicações, deram até um Google, em busca da cura, estatísticas e palavras de especialistas tarimbados em revistas online.

Já conversaram sobre isso antes de dormir, depois de acordar, durante o café da manhã, o jantar, no Natal, Carnaval, Páscoa, férias.

E já tentaram fantasias óbvias, como a de se pegarem em espaços públicos e espaços alternativos- debaixo do chuveiro, na escada de emergência, dentro do carro.

Já compraram apetrechos de todos os formatos em sexy-shops.

Já se escravizaram, algemando o outro na cama.

Já se lambuzaram de mel, de sorvete.

Tentaram outras posições.

Chegaram a assistir a vídeos pornôs, com o pacto de imitarem tudo aquilo que era exibido na tela.

Ambos queriam solucionar o entrave. Queriam um casamento com sexo constante. Se amavam mais do que tudo. Não entendia por que de repente não conseguiam se concentrar. Ou por que riam, quando deviam sentir prazer.

Pensaram até em procurar o padre que os casou. Mas como um homem celibatário, que segue as palavras de Deus, daria dicas que apimentassem a relação?

Seguiram o conselho número dois dos amigos: terapia de casal.

Ele não levou a sério quando se viu, na primeira sessão, ao lado da mulher, diante de um cara numa mesa de escritório com sotaque argentino.

Pois enquanto ela falava sem parar da relação pai e filha, ele só pensava em perguntar se realmente o psicanalista acreditava que Maradona era melhor do que Pelé.

Chegou a desconfiar que o profissional ria internamente das queixas do casal, e se dizia:

“Incompetente. Se fosse jo, com esta guapa…”

Não voltaram para a segunda sessão, a que começaria a ser paga.

Casa de swing, aconselhou um amigo mais rodado. Demoraram semanas para ir. Ouviram experiências alheias. De casamentos que melhoraram e outros que acabaram depois de uma visita.

Se perguntaram como deveriam se comportar. Se seriam apenas espectadores da proposta inusitada ou se mergulhariam fundo e visitariam todos os ambientes. Juntos ou separados? E o ciúmes?

Foram.

Vestiram roupão. Esperaram na sala principal. Observaram casais mais atirados e os contidos, como eles.

Conversaram com um gerente de banco casado com uma operadora de telemarketing, piloto e copilota de avião, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogas e um síndico. O síndico do condomínio deles, que agarrou todas as mulheres, bebeu cinco uísques e os intimidou.

Foram embora, quando um sushiman elogiou as pernas de mulher dele e passou a analisá-las, como se fossem uma tira de salmão cru.

Riram muito na saída. Concordaram que casa de swing é mais broxante do que obra de vizinho. Chegaram em casa, e cada um dormiu no seu canto da cama, como de costume.

Decidiram relaxar. Se amavam. Não se importavam com as consequências daquele celibato que, esperavam, torciam, seria temporário. Decidiram aproveitar o tempo de sobra e frequentar cinemas de arte, exposições de vanguarda e peças de teatro em locais não convencionais.

Jogaram sinuca, dançaram dança de salão, comeram sanduíche grego, se embebedaram, se perderam em estradas de terra, participaram de cultos africanos, se benzeram e nunca foram tão felizes, apesar da falta de sexo.

Falavam sobre isso com tranquilidade. Há no mundo de hoje uma pressão forte para uma vida sexual intensa e, por isso, vazia, concluíram. O hedonismo tira o charme de um casamento, se justificavam, o da cumplicidade sem tamanho.

E viajaram para fora. Israel, Egito, Madagascar, Tailândia. Visitaram safaris, casas de massagem, exibições de técnicas de pompoarismo, daquelas em que expelem dardos e furam balões.

Em Las Vegas, depois de ganharem uns trocos num cassino, entraram numa casa de peep show. O cardápio oferecido: show com aeromoça, enfermeira, colegial, sadomasoquista, dona de casa. Escolheram o último.

Foram encaminhados a uma saleta escura. Enfiaram uma nota de 50 dólares na máquina. Abriu-se a cortina. O cenário, do outro lado do espelho falso, era uma cozinha simples.

Apareceu Susan, uma loirinha que parecia figurante de Bay Watch. Que, animadinha, começou a cozinhar e a rebolar. A tirar a roupa e se esfregar em colheres de pau, pepinos e cenouras, se lambuzar com azeite e vinagre. Até parar.

Estranhou o silêncio dos pagantes.

Olhou pela fresta do espelho.

E viu um casal se amando loucamente.

Como se não se encostassem há anos.

Como se o mundo fosse acabar em segundos.

Foi Susan quem assistiu e se excitou, sem pagar.

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Polêmica papal.

Depois negada.

Comentou em entrevista que está liberado o uso de camisinha para casos de prostituição.

A Igreja não quer que se multipliquem filhos-da-p%t$

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No princípio, Deus criou o céu e a terra, e depois a luz.

Chamou a luz de dia, e as trevas de noite. Meio óbvio, não? Por que chamaria a luz de noite e a escuridão de dia?

No mesmo período, separou a tarde e a manhã.

A pausa para o almoço e a siesta foram criadas por nós.

Depois, segundo as Escrituras, criou um firmamento no meio das águas.

Separou águas de águas, chamou o firmamento de céu, o elemento seco de terra, e o ajuntamento das águas de mares.

Ainda bem que foi no segundo dia, em que estava ainda atento, concentrado, que Ele colocou o céu e os mares em seus devidos lugares. Imagine colocar o céu nos mares, e os mares no céu?

Nos dias seguintes, Ele produziu a relva, as ervas que dão semente e as árvores frutíferas. Criou as estações, os dias e anos. Fez também as estrelas, os cardumes de seres viventes, as aves acima da terra, e os abençoou, ordenando “frutificai e multiplicai-vos”. Garanto que muitos pássaros e peixes apressados já estavam se multiplicando antes de serem criadas as estações.

Deus criou o gado, os animais domésticos, os répteis, os animais selvagens e, exausto, só no sexto dia, criou o homem à sua imagem, e a mulher. A ordem da criação é textual.

Está escrito: lagartixas, cobras e sapos foram criados antes da gente.

Ele nos abençoou e repetiu “frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra”. E ainda ordenou “dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.” Para isso, nos deu a fome.

Valeu, Deus.

Tivemos então que ir à luta, colocar a mão na massa e inventar o fogo, a roda, o arado, a vara de pescar, o anzol, o fogão, a panela, o azeite, o caldo de carne e de frango, a mistura, o catchup, o prato, os talheres e a etiqueta.

Deus nos fez com muita pressa e em uma jornada de trabalho.

Sem contar que nos projetou só no final do turno de seis dias. Há muitas partes do corpo e da alma do ser criado à Sua semelhança que aparentam ter defeitos de fabricação e mereciam um design mais elaborado.

Para que sisos, amídalas, vesícula, divertículo, hemorróidas, pêlos nas orelhas e cera de ouvido? Para que caspas, gases, pedras nos rins, joanetes, calos, unhas encravadas? E de onde ele tirou a idéia para criar estrias, culotes, celulite, rugas e flacidez, só para afligir as mulheres? E a miopia? E o estigmatismo?

As montadoras de carros fazem com freqüência campanhas para chamar clientes para corrigir defeitos de fabricação de seus veículos e substituir componentes que podem causar danos ao produto, os recalls: eficiente peça de propaganda e marketing da indústria automobilística, que evita processos de órgãos de defesa do consumidor ou de um grupo grande de compradores.

Só neste ano, no Brasil, mais de 800 mil proprietários de veículos foram convocados pelos fabricantes para consertos; o triplo de todo o ano passado. Uma das explicações é o incrível aumento de produção automobilística, causado pela demanda e crédito fácil.

O recall divino está mais que na hora, já que a humanidade chega a impasses que resultam em dúvidas niilista, como se Ele está vivo ou morto, e a demanda agregada é enorme.

Poderia nos fazer com brânquias e barbatanas, para nadarmos com mais facilidade, e com chifres, para colocarmos casacos, guarda-chuvas, cabides e bilhetes- garçons poderiam enfiar as comandas e as contas em nossos chifres, e as mulheres, as bolsas.

Poderia nos fazer com joelhos retráteis, para evitar contusões nas peladas. Com visão noturna, para economizarmos energia. E poderia afinar para sempre as sobrancelhas femininas, aumentar os lábios e criar válvulas que aumentassem e diminuíssem seus seios.

Poderíamos vir com códigos de barras-  não precisaríamos carregar tantos documentos.

Deus poderia imitar a indústria automobilística, que tem como norma trocar gratuitamente as peças que ameaçam a segurança e o conforto do condutor.

Poderia instalar airbags em nossas pélvis e culotes, para evitar trombadas. Capacetes acoplados, para não quebrarmos a cabeça. Pára-choques reforçados, em caso mde atropelamentos. E luzes de alerta, como a que inventou para os vaga-lumes.

Dados indicam que as montadoras fabricam apenas 25% das peças, e que o resto vem de terceiros. Reduziram os custos, o que resultou em perda de qualidade.

Não há informações de que Ele tenha terceirizado os serviços da linha de montagem humana. Sabemos que Ele nos fez na solidão de Seu atelier. Também não há informações de que órgãos de defesa do consumidor se mobilizam para entrar com uma ação coletiva de perdas e danos contra o Senhor dos Céus.

No entanto, a prova de que nascemos com defeito de fabricação é que atravessamos milênios sem encontrar respostas para perguntas tão triviais como “de onde viemos?”, “para onde vamos”, “por quê?” e “existe vida após a morte?”.

Deus poderia trabalhar melhor o nosso órgão mais rebelde, o cérebro, deixá-lo já programado para agir com calma em situações de conflito, com noções de ética, inglês, francês, boa educação no trânsito e piadas de salão. Poderia eliminar a TPM, a menopausa e a dor de cabeça.

Não é justo um recall?

Ele poderia nos explicar com mais clareza a contradição entre crescei e multiplicai e a sua fórmula, a relação a dois. Tem dado certo.

Mas como é difícil mantê-lo sem discussões, provam as estatísticas. Ou foi o Diabo que inventou os argumentos?

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