créditos da vida

créditos da vida

Marcelo Rubens Paiva

18 de junho de 2012 | 19h48

Saí correndo do escritório, chamei o elevador. Baita pressa. Tocou a sineta, e a porta se abriu.

Apesar de distraído, percebi a centímetros do fosso que ele inacreditavelmente não se estava lá. Elogiei a concentração dos anjos da guarda.

Entendi o porquê do aviso aos passageiros (Lei 9.502): “Antes de entrar, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar.”

Às vezes, não se encontra. Seria uma queda fulminante de dez andares, muitas fraturas e minha última vida.

E não tinha alma viva no hall para dividir comigo a peça sem graça do destino e o tamanho susto. Fiquei parado muito tempo repensando na vida. Até começarem a subir os créditos. Em segundo plano, a porta aberta e o escuro daquele fosso.

 

 

Todas as vidas deveriam vir com créditos.

No começo, o elenco de maior importância: pai, mãe, avós, babá, melhores amigos, professores, namoradas, esposas, filhos, empregadores. Direção? Deus para os católicos, Acaso para os agnósticos, Nada para os niilistas, Demo para os desgraçados, corruptos, ditadores e motoristas que não tiram a mão da buzina.

No meu caso, seria direção do Livre Arbítrio e produção ítalo-brasileira- em respeito à dupla cidadania e ao lado materno 100% oriundi.

Mas quem escreveria os créditos?

Se fosse na pós-produção, como o montador saberia qual amigo merecia estar no crédito inicial ou apenas no final, e se a ex-esposa que desgraçou a vida do protagonista, arruinou as finanças e escalpelou a estima merecia letras miúdas no final ou o desprezo total, e nem nos agradecimentos apareceria.

Quem seriam os patrocinadores, nossos empregadores? E os que nos demitiram sem justa causa? Como enumerar as músicas que fizeram parte das nossas vidas. Entram dentistas, barbeiros, médicos, motoristas?

Daria muito trabalho incluir créditos nas nossas vidas.

Melhor continuarmos sem eles, como uma produção barata.

Ou melhor, de baixo orçamento.

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Afinal, para que servem os créditos finais de um filme, para dividir informações importantes, homenagear quem trabalhou na produção ou seguir exigências sindicais?

O que interessa saber do nome do cara que foi assistente do homem da grua da unidade externa da cena de perseguição da Hungria? Quem trabalhou na produção ganhou para aquilo.

Talvez os nomes no letreiro final sirvam para aqueles que trabalharam quase de graça e trocaram o soldo pela visibilidade. Como estagiários.

Gosto de algumas informações. Por exemplo, nomes e autores das músicas. Porém, tais créditos costumam passar muito rápido e não indicam com precisão que, naquela cena, aquela música bacaninha que tocou foi essa aqui, ó.

Gosto também de saber que o dramalhão que se passa na proibidíssima Coreia do Norte foi filmado nos estúdios de Chinatown em San Francisco, que o massacre contra monges tibetanos foram praticados contra figurantes filipinos, que o desembarque das ilhas do Pacífico foi filmado no Caribe, e o assassinato do padre de El Salvador foi encenado em El Paso, Texas.

Mas algo me intriga há anos.

Por que aparecem nomes dos motoristas nos créditos finais? São os motoristas das cenas que dirigem enquanto o que é importante rola no banco traseiro da viatura? Não. Estes estariam em “figurantes” se arrancassem quando ouvissem “siga aquele carro”, e em “atores coadjuvantes” se tivessem fala, mesmo que fosse uma simples “para aonde, senhor?”

Claro que os motoristas que aparecem nos créditos trabalharam na produção. É uma exigência sindical? De qual sindicato, Central Única dos Motoristas de Produções de Audiovisual? Há um racha, a Central Geral dos Condutores de Produções de Vídeo e Cinema? Uma é mais à esquerda? Outra apoia o governo e seu líder é Deputado Estadual candidato à Câmara Federal?

No mais, que informação precisa é esta? Os nomes que aparecem são Tonhão, Aderbal, Pelezão, Alemão, Romarinho, Silveira. Sempre tem um Silveira. Certamente é o mais velho do grupo. Nunca tem nome e sobrenome. Ou é o primeiro, ou o último, ou o apelido.

O que o Tonhão fez? Levou a estrela do hotel para o set? E se a mesma acordou atrasada, a van da produção saiu antes, e ela teve de pegar um táxi, anotou o nome do motorista para colocar nos créditos? “Senhor, como gostaria de aparecer? Silveira e Alemão já temos.”

No mais, se é uma homenagem, como Silveira, Romarinho ou Tonhão podem se gabar ao lado de uma paquera, que leva para ver o filme para que colaborou efusivamente, cuja ausência daria outro tratamento, pior, à produção final, e que tais prêmios não seriam nem indicados? Como provar que Galego que aparece nos créditos é ele, e não outro motora loirão e alto, que também faz frila pra galera do cinema? “Gato, na próxima manda pôr o seu PIS/Pasep, assim eu acredito”, ouviria.

O que nos adiantam nomes de tantos profissionais úteis, como boys, motoras, auxiliares, contadores, se não aparecem seus contatos?

Bem, treinadores de animais, tudo bem.

Nem todos precisam de um.

Mas babás… Andam tão em falta no mercado, que poderiam vir os telefones de algumas nos créditos finais, mesmo que nenhuma tenha trabalhado na produção.

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Desde a primeira vez que foi ao cinema, Antônia, filha de 5 anos de um amigo, se levanta da poltrona quando os créditos finais sobem, desce os degraus da sala ainda escura e vai dançar.

Ninguém a ensinou.

Deve pensar que para isso serve a música final, a meia-luz, as letrinhas que não compreende subindo.

Música + escuro + espaço livre = pista de dança.

Ela se aprimora. Sente quando a narrativa chega a uma conclusão, o final está próximo, e a Peripécia leva à Revelação (Aristóteles). Ela se levanta da poltrona e espera o the end, que para ela é um começo. Enquanto o público se encaminha para as portas de saída, ela já está debaixo da tela dançando.

Curiosamente, com o tempo, outras crianças passaram a imitá-la. E, como num cinema popular indiano de Bollywood, sentem-se livres para se expressar corporalmente.

Deveríamos todos imitar Antônia. Dançar no final no espaço entre a tela e as poltronas. Poderiam entrar garçons servindo drinques.

Pelo preço que pagamos pelo ingresso, estacionamento e pipoca…

 

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