confusa

confusa

Marcelo Rubens Paiva

12 de maio de 2010 | 12h12

women-orgasm

Ulisses era um especialista em mulheres, sabia seduzi-las, não sabia de onde vinha este talento, não parava para pensar, sabia onde elas se escondiam, sabia para quais jogar suas iscas, porque Ulisses gostava de mulheres, queria estar sempre com elas.

Um tipo o intrigava: as que alternam amor e dor.

Com estas, Ulisses se perdia.

Como Débora, casada com um famoso diretor de cinema, diretor que, por sinal, Ulisses admirava e assistia aos filmes.

Ele a conheceu numa tarde num café, conversaram, pediu seu telefone, e ela deu.

Incrível isso, pensou Ulisses, mesmo quando a mulher não pode dar o telefone, ela dá, e, na maioria das vezes, é o número verdadeiro.

Ele ligou, marcou um encontro na sua casa, ela apareceu à tarde, como são os encontros com as casadas, tomaram um suco de manga, e ele atacou.

Correspondeu.

E daí, era casada, nenhum impedimento. Atacou a mulher, não o seu estado civil.

Beijaram-se nesta primeira tarde.

Ela disse algo bonitinho, enquanto se pegavam.

“Estou confusa.”

Ele achou lindo.

Lindo, porque ela disse com a mão no seu pau.

Confusa por quê, porque ele está duro, porque você se confundiu e, ao invés de pegar na minha mão, pegou logo nele?

Confusa?

Dei um beijinho, e você já pega nele?

Confusa nada…

Beijaram-se no segundo encontro, pegaram-se mais, e ela não ficou mais confusa.

Finalmente treparam no terceiro.

Era tímida, tímida demais para a idade, quase 40 anos, uma mulher pronta.

Pronta?

Ela gozou com um urro, como se tivesse levado um murro no fígado:

“Uuuhhh!”.

Ulisses nunca tinha visto alguém gozar daquele jeito.

Mas se lembrou, experiente que era: alguém gozando nunca é igual a outro, nele, há lapsos, retração, o orgasmo é a marca, nele, sua conduta, a verdade, a sombra, os pesadelos.

Um urro? Dor.

Dor por estar traindo o marido e, pior, por ter sido bom.

Dor por descobrir não ser bom com o marido?

Ela nunca traíra antes, disse. E ele acreditou.

Estava indo de vento em popa, urros pra lá e pra cá, como numa partida de tênis.

Até ela fazer algo que nunca deveria ter feito.

Ligou bêbada numa noite.

Disse que ele estava mexendo com ela.

Ele perguntou pelo marido.

“Ele dorme no quarto”, ela disse.

Ulisses pediu para desligar o telefone.

Ela disse: “Não, quero te ver agora, posso ir pra aí!”

Agora, sim, a confusão era repartida.

Claro que ele teve de bloquear aquela paixão nascente.

Claro que ela ligou outras noites, sob outros porres, em segredo, aos sussuros.

Parou quando se encontraram na pré-estréia do filme novo do marido.

Porque Ulisses os viu de longe, foi até eles e o cumprimentou, informando-o que ele, Ulisses, adorava os filmes dele.

O cara foi muito simpático, atencioso e apresentou a esposa.

Cumprimentam-se como desconhecidos, e Ulisses disse pra ela:

“Você deve se orgulhar muito do marido que tem.”

 

+++

 

O ator e nosso amado MARCOS CESANA [A ALMA BOA DE SETSUAN, A FESTA DE ABIGAIU, MALU DE BICICLETA], da melhor risada da cidade, solidário, coração manteiga, está em coma induzido no HOSPITAL SAMARITANO.

Só quando acordar, previsto para amanhã, saberemos das sequelas do aneurisma que teve no fim de semana.

Resta torcer! Muito.

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