Con-cei-çãããão…

Con-cei-çãããão…

Marcelo Rubens Paiva

18 de junho de 2010 | 12h23

eu e vovo cecy

Não sei por que a minha avó Cecy Paiva, carioca da Rua Alice, queria me transformar num artista.

Tinha 27 netos, mas me escolheu.

No começo, investiu na minha carreira me ensinando a imitar Roberto Carlos. Na adolescência, pagava aulas de violão clássico do Conservatório Magda Tagliaferro.

Me acompanhou em alguns ensaios como ator do grupo de teatro do Paulistano. Nas estreias, sentava-se na primeira fila. Só me elogiava, deslumbrada.

Ela não sabia exatamente o que queria: eu poderia ser um ator shakespeariano, um violonista clássico, um escultor arredio, um pianista insano.

Até estrear em 1975 a novela Bravo!, da Globo, protagonizada pelo galã Carlos Alberto. Ele fazia o maestro Clóvis de Lorenzo. Bastou.

Ela fez campanha para que eu virasse maestro.

Me matriculei na Faparte, Faculdade Paulista de Arte, e entrei para a sua orquestra, cujas músicas, dodecafônicas, com livre emprego de semitons, inspiravam-se provavelmente nas oficinas mecânicas e serralherias do bairro.

Faltei na minha primeira apresentação (no Masp).

Porque eu não pertencia à vanguarda.

Eu tinha um sonho secreto.

Eu tinha jeito mesmo para cantor de boleros. E os meus vizinhos sabiam disso. Desde os 4 anos de idade, eu cantava pela janela com uma voz majestosa e grave:

“Con-cei-çããããão, eu me lembro muito bem, vivia no morro a sonhar, com coisas que o morro não tem. Foi en-tããããão, que lá em cima apareceu, alguém que lhe disse a sorrir, que, descendo à cidade, ela iria subir. Se su-biiiiiiiiu, ninguém sabe, ninguém viu, pois hoje o seu nome mudou, e estranhos caminhos pisou. Só eu seeeeei, que tentando a subida, desceu, e agora daria um milhão, para ser outra vez, Con-cei-çããããão!”

O mega hit de Cauby era o meu preferido.

O escritório de contabilidade vizinho aplaudia.

Me lembro desse culto à imagem e idolatria que, desde cedo, intuí, arruinavam a vida de um artista, se levados a sério.

A verdade é que a empregada de casa se chamava Conceição.

Eu a homenageava cantando todas as manhãs.

Porque a voz saía mais rouca às manhãs.

Porque eu anunciava que desceria em breve para o café.

E porque achava incrível minha empregada ter uma música em sua homenagem. Me perguntava se Conceição era a significação da trajetória de um artista, como Cauby, que de origem pobre faz sucesso e muda de nome. O terrível é constatar que, passa a vida, ela daria um milhão para ser outra vez o que foi, Conceição, o que quase me fez desistir da carreira artística e me levou à nauseante constatação: a vida não tem sentido, já que nunca se deixa de ser o que foi, mesmo subindo ou descendo, como nos ditados de Heraclito, o rio que sobe, o rio que desce… (“o ser é tão pouco como o não-ser; o devir é e também não é”).

E que o que se almeja, apesar de todas as tentativas e tentações, é voltar à origem.

Minha carreira empacava.

No teste para o coral do colégio, me selecionaram soprano.

Minha voz, eu pensava, era grave.

Tornava-se aguda com a idade, a pior notícia para futuro cantor de boleros.

Sem desanimar, mudei o repertório. Larguei Conceição, depois Ronda (Paulo Vanzolini) e Eu Não Sou Cachorro Não (Waldick Soriano), deixei o cabelo crescer, traí meu gosto pessoal, me vendi pro sistema e modismos e comecei a cantar Caetano, Gil, Luis Melodia e Raul Seixas: “Às vezes você me pergunta, por que é que eu sou tão calado. Não falo de amor quase nada, nem fico sorrindo ao teu lado…” 

Se fosse em torno da fogueira, eu tocaria Maria, Maria, de Milton Nascimento. Para não voltar a ser Conceição.

Cecy Paiva morreu em 1993. Deu tempo para ver que, nem maestro, nem ator, nem cantor: virei escritor.

No inventário, encontraram uma caixa com recortes de revistas e jornais.

Ela guardava tudo o que saía na imprensa a respeito do neto escritor.

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