como matar 1 zumbi

como matar 1 zumbi

Marcelo Rubens Paiva

11 de abril de 2012 | 11h50

Bets [JANUARY JONES], ou Betty,  ou Elizabeth, que havia dado um perdidão nos primeiros 2 episódios da quinta temporada de MADMEN [veja post anterior], aparece no terceiro.

Aparece e rouba a cena.

A ex-mulher de Don, loirinha e dona de casa clássica dos anos 60- não trabalha, cuida de 3 filhos, mora no subúrbio-, protagoniza o terceiro episódio.

Birdy, como Don a chama, surpreende.

Os roteiristas como sempre idem.

Uma ideia macabra, marca da série, entra para a trama.

Bets está OBESA! Se empanturra de comida em frente à TV, rouba sobremesa das crianças e não cabe nas roupas.

Depressão =  Tédio

Genial solução para esconder a gravidez da atriz.

Ela engravidou na pré-produção, o que não foi um problema, mas uma oportunidade de focar a depressão das mulheres pré-emancipação.

Que não trabalhavam.

 

 

+++

 

Zumbi lembra “nzambi”, que, na região do Congo, significa deus.

Existem para todos os gostos.

O abobado, fácil de matar.

Os ágeis e fortões.

Os que ganham vida durante a jornada, como no game Left 4 Dead.

Os que se alimentam de cavalos, como no filme Survival of the Dead.

E animais zumbis, como os cachorros da série Resident Evil.

No passado, era apenas uma entidade de crenças afro caribenhas, conhecida como vodu, que intrigou o racionalismo do pensamento ocidental.

Em meados dos anos30, a antropóloga de Harvard, Zorra Neale, começou a difundir o mito haitiano do ser que não tem vontade própria e é controlado por um “bokor”.

 

 

Na mesma época, surgiram “bokors” de sanidade duvidosa, capazes de mobilizar hipnoticamente grandes massas, como Hitler e Mussolini.

Durante a contracultura, a geração LSD circulou por países periféricos devorando cultos sincretistas e tudo quanto é tipo de raiz, flor, cacto, cipó, peiote, para abrir as portas da percepção, em busca da luz divina natural e do barato ritualista.

O sentido da vida não estava nos manuais dos eletrodomésticos da sociedade de consumo pós-guerra. Místicos diziam que, se a Igreja tinha provas semânticas da vida após a morte, os haitianos tinham provas materiais, que circulavam em estado de torpor pelas ruelas pobres e escuras das suas aldeias.

O etnobotânico também de Harvard, Wade Davis, maior autoridade em farmacologia de zumbis, escreveu que duas substâncias específicas injetadas na corrente sanguínea, o “coup de poudre”, toxina encontrada na carne do baiacu, e drogas dissociativas, como a datura, transformam o mais crente num obediente seguidor.

Uma espécie de Goebbels ingerível.

 

 

Zumbi na sua pureza é um morto que foi reanimado e vaga como um sujeito irracional. Tem escaras, ossos aparentes, olhos vazados. Não fala, pois perdeu a língua no processo de decomposição interrompido. Não raciocina; o pouco oxigênio da tumba danificou a massa encefálica.

 

 

Mas simboliza diversos arquétipos. Pode ser escravizado e manipulado como um capitão do mato. Pode simbolizar o trabalhador hipnotizado pelas correntes de uma linha de produção industrial, como os empregados chineses da Foxconn, montadora da Apple, que precisam de redes nas janelas, para não cometerem suicídio.

Numa interpretação da psiquiatria, aspectos psicológicos da “zumbificação” sugerem o início de um estado esquizofrênico.

E até a filosofia criou o conceito “zumbi filosófico”, para definir o ser que não possui consciência plena, mas tem a biologia ou o comportamento de um homem.

Passeatas de zumbis, manifestações estilo flash mob, ou Zombie Walk-  pessoas fantasiadas que saem correndo por ruas, parques e shoppings-, são contabilizadas pelo Guiness.

Hoje, o zumbi concorre com o vampiro, virou um ícone do cinema e da cultura de massas.

Por quê?

Simboliza o medo da violência urbana, já que bêbados, drogados e degenerados saem das tocas em estado catatônico e ocupam as pacatas ruas das cidades, circulando livremente depois que o sol se põe.

As doenças sexualmente transmissíveis também alimentaram a sua popularidade, especialmente entre os teens.

Monstros querem nosso sangue ainda puro e inocente.

“Loosers” que se vestem como mendigos, não com roupas de grife, e que só sobrevivem se conseguirem a transfusão da saúde burguesa bem tratada pela previdência privada.

Numa leitura marxista, simboliza a falência do Estado de bem-estar social, que não é capaz de dar emprego, residência, saúde, gera injustiças sociais, tensões e medo, gera diferentes castas.

Zumbi é o lumpesinato.

 

 

Em 1968, o diretor de cinema George Romero sacou o potencial e a representação contemporânea desse personagem no filme A Volta dos Mortos Vivos.

Mal sabia que sua releitura do mito caribenho daria num dos maiores clássicos do cinema de horror e influenciaria a cultura pop, o cinema fantástico, a literatura e os games.

Filme de baixo orçamento, com poucas locações, gerou polêmica por ser acusado defender o satanismo e ir contra valores religiosos.

Exibidores só aceitavam nas suas salas Night of the Flesh Eaters, o nome original, se os produtores cortassem cenas mais sangrentas e oferecessem um final otimista.

Sim, porque, para completar o fascínio que filmes de zumbis exercem, todos têm o apocalipse como fio condutor, tema inevitável no auge da Guerra Fria e, agora, com o Aquecimento Global, Fim da Camada de Ozônio, Derretimento das Calotas etc.

Na série Resident Evil, com Milla Jovovich– não mais magrinha e pálida de O Quinto Elemento de Luc Besson- alguns zumbis são sarados, ricos, têm bocas que se parecem com a de polvos, vivem num mundo que terminou e, como em Matrix, está mais digital que analógico.

Até nossa Alice Braga os combateu com Will Smith em Eu Sou a Lenda.

E quem não se lembra de Michael “Wacko” Jackson dançando com eles em Thriller?

Também tiraram uma onda dos zumbis, como em Todo Mundo Quase Morto (2004) e Zumbilândia (2009), genial filme que passou em branco aqui no Brasil, considerado a maior bilheteria mundial de filmes de zumbi, estrelado por, ironia, Jesse Eiseberg, o mesmo que protagonizou um ano depois Mark Zuckerberg no filme A Rede Social, fundador do Facebook, acusado de sugar o seu tempo e a sua privacidade.

 

 

Duvido que um cent desse mega sucesso tenha sido enviado como royalties aos feiticeiros do Haiti ou xamãs do Congo.

E é bom que se saiba que, para acabar com um zumbi, caso você trombe com um (matar não é a palavra, pois ele já está morto), é preciso destruir o cérebro ou a coluna vertebral.

Simples.

Basta atirar na cabeça ou separá-la do corpo.

Mas, cuidado.

Tem cabeças decepadas que podem morder.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.