Como faturar no comunismo

Como faturar no comunismo

Marcelo Rubens Paiva

25 Abril 2018 | 10h03

 

É sim um paradoxo, mas tem gente esperta que soube faturar uma grana preta em regimes comunistas.

Tanto no economicamente híbrido, o chinês, como durante a derrocada da União Soviética.

A prova está em dois documentários disponíveis no streaming.

Um é assustador, The China Hustle, da Magnolia. O outro, cômico, Operação Odessa, da Showtime.

Ambos subiram para o Netflix.

O porta-voz do capitalismo, a revista Forbes, afirma que The China Hustle é o filme mais importante de 2018.

Tendo a concordar.

A produção dirigida e produzida por indicados ao Oscar, abre com falas presidenciais desde Nixon elogiando a parceria com a China, até Trump, passando por Obama.

“O que é o capitalismo, um sistema econômico ou um aparato para podermos usar para ganhar mais e tirar mais dos outros? Recompensa aqueles que trabalham duro e também aqueles que estejam dispostos a tirar vantagens dos outros”, assim começa.

O doc sugere que a economia da China é uma farsa.

Que não existem provas dos números do crescimento astronômico invejável.

Que a economia de livre mercado americana pouco pode fazer para regular a associação com a economia chinesa.

E que o mundo capitalista pode entrar em colapso, se forem revelados os reais valores das empresas e indústrias chinesas, que vendem papeis nas bolsas americanas.

Como a Alibaba, gigante de e-commerce, que lançou ações nos EUA e o CEO é paparicado pelo próprio Trump.

The China Hustle explica o golpe do século: empresas chinesas de valor superdimensionado compram empresas americanas falidas, que têm registros em Wall St., numa operação legal chamada fusão reversa.

Advogados com agências de avaliações e bancos de investimento duvidosos lançam na bolsa papeis dessas empresas aos ávidos potenciais investidores americanos, que querem embarcar na onda chinesa, decepcionados e desconfiados com a economia americana, depois da crise de 2008.

Empresas que não valem nada na China vendem ações e passam a valer milhões nos EUA.

Empresas que se dizem grandes mineradoras de prata, fabricantes de papel, fertilizantes, chegam na bolsa se dizendo gigantes, mas são minúsculas.

Os balanços são fraudados, a burocracia chinesa impede acesso a dados: transparência zero.

Quem tenta checar, é preso. Nada de jornalismo investigativo.

Investigadores americanos disfarçados revelam a fraude.

Ações que valiam 9 passam a valer 0,1, levando para o ralo fundos de pensão (até o dos funcionários do New York Times está ameaçado).

Não é apenas um doc, uma reportagem, mas um alerta mundial.

Até aonde vai a fraude?

 

https://www.youtube.com/watch?v=BtTBJAHvvDI

 

Agora junte um mafioso russo, com um cubano exilado com conexões com o narcotráfico e um gigolô com uma boate em Miami, fazendo negócios numa URSS em começo de colapso, no fim do regime, em que se vende de tudo, fábricas, helicópteros, tanques de guerra, caças.

Compraram motos para colombianos a preço de nada.

E helicópteros para os carteis.

É o doc Operação Odessa, história que parece feita por Martin Scorsese, mas real, em que três malandros quase compraram um submarino da gloriosa marinha russa, para venderem aos traficantes da Colômbia, para levarem drogas aos EUA.

Claro que um deles, o cubano, embolsou uma quantia considerável no golpe.

Foragido, acaba encontrado pelos produtores.

Além de cômico, o documentário sem querer acaba revelando, e é aqui que está o interessante, os bastidores da falência do regime comunista soviético.

O desânimo que contaminou especialmente os militares, que se sentiram traídos.

E o que rolou lá durante a transição, em que quem pôde comprar a indústria do País, levou a preço de batata.