Como eu ia dizendo

Como eu ia dizendo

Marcelo Rubens Paiva

09 de dezembro de 2009 | 16h04

Todos da classe teatral estão um pouco engasgados pela forma como o noticiário, especialmente as TVs, tratou o tiroteio dentro dos PARLAPATÕES e fez uma associaçao rasa entre a obra do BORTOLOTTO e a violência.

Muitas das suas peças falam de amor.

Todas as suas músicas falam de uma mesma coisa: a dificuldade de manter relações amorosas.

Compará-lo a PLINO MARCOS é interessante, mas não preciso.

A não ser por algumas coincidências na vida pessoal: enquanto Plinio morava numa kiti do Copan, Marião mora numa kiti na vizinha Avanhandava; enquanto Plinio rangava de graça no Gigetto, Marião tem cadeira cativa no Planeta’s, ao lado; ambos aparentam ser durões, agressivos, mas são as pessoas mais doces e sensíveis, e absolutamente fiéis aos amigos; ambos não abrem mão de seus princípios e torcem os olhos para a veia comercial do teatro.

Aliás, pouco antes de morrer, nessa foto abaixo, PLINIO nos abraçou e disse, para uma plateia que lotava o SESC POMPÉIA: “São meus herdeiros…”

Sim, todos nós somos seus herdeiros. E somos mesmos. Como somos herdeiros de Machado, Nelson e tantos outros.

OK, as TVs não são obrigadas a conhecer o teatro do Marião, seus repórteres pouco estudam, pouco saem, fazem pautas variadas, falam para um público que tem um repertório cultural baixo, querem audiência, sensacionalismo.

Não são?

Não sei nem se esses telejornais têm editorias de cultura. Ou consultores.

E é um paradoxo, pois na cadeia profissional são os mais bem pagos. Provavelmente, pagam-se por suas vozes e rostinhos bonitos, seus penteados caprichados e a pele bem hidratada.

Por sorte, aparecem os talentos para didaticamente contextualizar a obra do meu amigo. E Beth Néspoli acordou hoje cedo e escreveu este texto brilhante abaixo mesmo sem ter sido pautada. Movida pelo sentimento de justiça.

Valeu Beth.


Mario Bortolotto e violência: uma falsa associação

Título do blog ‘Atire no dramaturgo’ é homenagem ao livro ‘Atire no Pianista’, de David Goodis

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo

A inquietação mais intensa diz respeito ao equívoco envolvendo o nome do blog de Bortolotto, intitulado Atire no Dramaturgo. Muitos se preocuparam em esclarecer a origem desse batismo, homenagem ao livro Atire no Pianista, do David Goodis. Trata-se de um romance policial que, por sua vez, remete ao cartaz NÃO ATIRE NO PIANISTA que podia ser lido nos saloons do Velho Oeste.

Outra fonte de equívoco talvez tenha vindo das imagens publicadas no blog de Bortolotto da peça Brutal, em cartaz no Espaço dos Parlapatões na madrugada do assalto. Sobretudo uma imagem, respingada de sangue, da atriz Maria Manoella. Mulher do ilustrador Carcarah, que também foi baleado, ela enfatiza: “a peça é um manifesto contra a violência.”

Ainda assim, o tom de Brutal é quase exceção na vasta obra desse dramaturgo. Os personagens de Bortolotto costumam portar mais copos do que armas; há mais outsiders do que bandidos. Editadas, são 19 peças, em três livros de coletâneas. Quem se der o trabalho de ler verá que mesmo os bandidos, em sua maioria, como no velho oeste, orgulham-se de um código de honra no qual não cabe o ataque covarde.

Há quem compare Bortolotto ao Plínio Marcos, mas se há algo em comum, é apenas a compaixão pelo ser humano desgarrado. E só. São universos diferentes. Os personagens de Plínio Marcos lutam para se integrar. Gostariam de ter família, casa e carro, mas têm um impedimento de origem: a pobreza extrema. Por isso são trágicos, nascem marcados por um destino imutável. Querô, filho de uma prostituta que se matara tomando querosene e é criado num bordel, não pode conquistar nada na vida. Seu meio ambiente e seus recursos não permitem, ainda que ele tente.

Já os protagonistas de Bortolotto tornam-se marginais – no sentido de estar à margem, na periferia do sistema econômico – por conta de sua escala de valores. Eles recusam a ideia da conquista de um carro 4×4, roupas de grife, casa na praia e celular último modelo como sinônimo de sucesso. São marginais porque preferem a liberdade de não produzir em série numa esteira industrial, coisa antiga, ou de “serem produzidos em série”, expressão talvez mais pertinente ao jovem trabalhador na atual sociedade de consumo digital. Uma dramaturgia assim nada tem a ver com o estímulo à violência, pelo contrário. Hoje em dia mata-se e morre-se por um “vai passando o celular” como disse o assaltante que atirou em Bortolotto, no testemunho de seu amigo Carcarah, também baleado. E Bortolotto, que não dá a mínima por um celular, reagiu, provavelmente pelos amigos.

Fiel ao que prega, ele não tem muitos bens materiais, apenas uma quitinete no centro da cidade, comprada com os direitos autorais pagos pelo ator Raul Cortez por duas de suas peças, seus livros e sua obra, essa última um bem ‘apenas’ simbólico, imaterial. Tem muitos amigos e de boa cepa. “Cuidado com a vaidade da dor”, foi uma frase ouvida pela reportagem do Estado no sábado, na Santa Casa de Misericórdia. Havia ali um acordo tácito de não se gravar entrevistas para a televisão. Assim, evitou-se o espetáculo da comiseração e da solidariedade forçada. Carcarah, ilustrador, autor dos desenhos de capa de dois livros de Bortolotto, um deles Atire no Dramaturgo, compilação de textos do blog, hesitou em dar entrevista ao Estado depois de ter alta do hospital. “Pode dar a impressão de que estou querendo aparecer. Quem tem de falar é ele, quando estiver bom.” Bortolotto pode não ter muito a esclarecer, mas vai saber que os valores de seu teatro têm ressonância. No mínimo, entre seus amigos, que não são poucos.

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