Como elas estão agora?

Marcelo Rubens Paiva

26 de junho de 2009 | 11h30

Cláudia. Claaaro que vai à Daslu. Adooora. É amiga da Tranchesi e tudo. Formou-se em arquitetura, mas morre de preguiça de trabalhar. Mora num lindo apartamento dos Jardins que ganhou de herança. Foi à Parada do Orgulho GLBT. Reclamou que faltou o “A”, de assexuada. É amiga do Nizan e Washington, de Verônica a Supla, freqüenta o Gero, Fasano, Dom, Figueira e Charlô, tem sonhos eróticos com Carlos Fernando, o Cá, que canta no Baretto, gosta de britpop, adorou a absolvição de Michael Jackson, riu muito e dançou Bad na frente do espelho a noite toda. Não sabe cozinhar um ovo. Lê a trilogia de Henry Miller. Assistiu a todos os episódios de Seinfeld. Detesta Friends. Não vota. Só tem título de eleitor para poder renovar o passaporte brasileiro. Mas entra na Europa com o italiano. Está se mudando pra Londres. Cansou. No Dia dos Namorados, estava sozinha, assistindo a Desperate Housewife. Parece uma pessoa tranqüila, mas tem muita insônia. Sofre por algo que não sabe identificar. Dá-lhe Rivotril 1 mg. Escândalos políticos, econômicos, CPIs? Durante o último Jornal Nacional, fazia a lista do que levar nas malas. Prefere os escândalos da família real inglesa.

Delinquente. Se pudesse, explodia o Congresso e todos os anexos. E a Daslu. Que ódio! Daslu, Louis Vuitton, Prada. Que absurdo! Que ostentação! É fã do programa de rádio Garagem. Lê Alex Antunes, Virginia Woolf, Camus. Não tem tatuagem. Gosta da Galeria Ouro Fino, Frevinho, Pé pra Fora. Não arruma namorado, porque quer ficar sozinha, pra aproveitar a vida; não suporta carinha no seu pé. Gosta de acid, house e rock. Foi à inauguração do Vegas Club, na Rua Augusta. É DJ aos sábados no Club 13, em frente à FAAP. Sempre coloca Billy Jean pra comemorar a absolvição de Michael Jackson. Tá difícil se formar em publicidade, apesar de faltar um semestre. Não consegue acordar às 7 horas pra ir à facu, já que costuma dormir às 6. Mora com amigas, porque a mãe não agüentava mais a filha chegar tarde. Vive de frilas. Só anda com amigas lésbicas. Talvez seja uma, mas não assumiu, nem quer pensar nisso. Precisa arrumar um emprego e se formar, só isso! Votou no PSTU de raiva, mas perdeu o título e todos os documentos na última Parada Gay, doida, doida. No Dia dos Namorados, estava de bad trip, bebendo água, deprimida. Chorou, quando soube da crise política. Ela andava muito sensível, chorava de bobeira. Tava pouco se lixando pras desculpas da esquerda no Poder. Achava que a culpa era da cúpula, que roubou, tentou impedir as investigações e CPIs. Nem liga mais. No fundo, não sabe o que quer da vida, sente-se num beco sem saída, mas não pode fraquejar, porque é ela e só ela.

A Iogue. Dorme cedo, porque faz asthanga às 7 horas e iyengar às 9. No começo, praticou no De Rôse, mas achou muito industrial. Mudou para o Espaço Vidya, em que aprendeu com o Cristóvão massagem ayurvedica. Machucou-se, deu um tempo, e agora faz ioga com Regina e Kalidas no Espaço Surya. Foi pra Paris nas férias fazer o curso do Faeq Biria. Leu As Idéias de McLuhan e Autobiografia de um Iogue, do Yogananda. Ganha a vida fazendo massagem ayurvedica. Não economiza no óleo de arnica da Weleda. Adora as peças do Antunes, gosta de Gil-músico, Chico Buarque-músico. Foi atriz, fez várias peças do Nelson Rodrigues, mas se considera canastrona e largou. Não foi à Parada Gay, porque estava no Espaço Nirvana, no Rio, fazendo um workshop com o Laurant. Come no Alcaparra, Maha Mantra e Gopala. Seu biótipo segundo o ayurveda é pitta. Loja nova da Prada? “Vende mat de ioga lá?” Está preocupada com o desdobramento da crise política, mas, como pensa em morar na Índia… No Dia dos Namorados, praticou. Seu namorado está numa clínica de desintoxicação, viciado em metadona. Ela guarda dinheiro para levá-lo à Índia, porque ele é a coisa que ela mais ama no mundo. Mais do que a ioga. E acha Michael Jackson um desequilibrado, que deveria fazer meditação.

Da série Stéryótypes, publicada em 2005 no Estadão e no livro O Homem Que Conhecia As Mulheres (Objetiva; 2006)

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