Começar [ou terminar] uma paixão

Começar [ou terminar] uma paixão

Marcelo Rubens Paiva

26 de outubro de 2009 | 12h40

Fui ver o filme novo do BETO BRANT, O AMOR SEGUNDO B. SCHIANBERG, em cartaz na MOSTRA DE CINEMA.

Passou sábado. Passará de novo 30/10 [sexta-feira], 15h50, no Cine Bombril, e 03/11 [terça-feira], 15h10, no Espaço Unibanco Augusta.

Fala de um casal que começa uma relação amorosa e que não sai do apê [dela]. Em que falam de vida, relações, arte, rotina, com diálogos aparentemente improvisados.

Ele, GUSTAVO MACHADO, é um ator que está numa peça de PLINIO MARCOS, NAVALHA NA CARNE. Ela, MARINA PREVIATO, uma videoartista que prepara, filma e edita um vídeo. O convidou para ser personagem de sua obra. E, irresistível, começaram uma história.

Curiosamente, GUSTAVO estava levando a peça NAVALHA NA CARNE no CENTRO CULTURAL [com GERO CAMILO e PAULA COHEN]. E MARINA é uma artista que, sim, montava seu vídeo.

A linha dramática do filme é simples e cruel, como é simples [e cruel] começar e terminar uma relação:

o casal se conhece; o casal ganha intimidade; o tesão é enorme; explosão de carinho e gentileza; um aprende com o outro; cozinham juntos aquele omelete básico; um conhece os amigos do outro; aprendem a controlar o ciúme pelo desconhecido; aprendem a respeitar as manias e a conhecer o timing do outro; o tédio aparece; eventualmente, ela não quer transar; as brincadeiras dela, que antes não incomodavam, agora machucam, como se tocassem em feridas mal cicatrizadas; ele explode e inicia uma discussão de relação, para colocar pingos no i; inseguro, quer saber onde está se metendo, se é pra valer, se estão na mesma sintonia, se vai haver limites e regras; por fim, decidem, vão ficar juntos ou, bye-bye, foi só uma historinha, mais uma entre tantas.

Ao final, vemos na tela o vídeo que ela preparava [em que ele atuava] durante toda a trama. Enquanto antes não entendemos direito o que ela estava fazendo, por que editava aquilo no seu MAC, o que era aquele espelho que ela quebrara, aquelas maluquices que ela fazia no apê.

É um filme diferente, que surpreende, prende a atenção. Fui sem saber detalhes de como foi feito. Diversos tipos de câmeras o filmam, algumas bem definidas, outras toscas.

No final da sessão, um papo com o diretor. Então, ele contou. Surpresa:

O filme foi feito com o apoio da TV CULTURA, para passar na tevê. Mas ganhou outro tratamento. O casal ficou alguns dias preso no apê, em que foram espalhados microfones [mais de 20] e diversas câmeras fixas, entre elas, câmeras de segurança.

Como num Big Brother, não havia um técnico no set de filmagem. A equipe monitorava tudo do apartamento vizinho, durante 24 horas, como num reality show. O diretor comandava uma mesa com um joystick, escolhendo a câmera e microfone certos.

Não interferia nos diálogos, nas cenas. Eventualmente, mandava um email ou uma mensagem pelo celular, indicando e sugerindo. O roteiro foi rasgado. Tudo o que foi dito veio dos próprios atores, inclusive o DR bombástico e tocante.

A história tão verdadeira de uma paixão foi contada por um casal que não é casal na vida real. Mas viveu aquilo que se estivesse, sim, iniciando uma história.

Filme que ficamos torcendo para não terminar.

E deu química. GUSTAVO é um ator de primeira, divertido e inteligente, tem respostas rápidas e entende do ofício. MARINA é uma das mulheres mais lindas, é uma artista, está concentrada no seu vídeo [que é exibido no final].

E BETO é esse diretor que não faz concessões, que trafega entre o teatro e as artes plásticas, que poderia ser um dos grandes diretores do cinema comercial do Brasil, já que foi bem sucedido em OS MATADORES e O INVASOR, mas que filma como poucos, nunca repete os mesmos truques, inova a cada obra, se afasta do chicletinho básico, incomoda, arrisca, vai ao limite e, parece, não se importa com o saldo da sua conta bancária.

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Mudando de assunto completamente, alguém sabe me explicar por que as mulheres brasileiras pararam de REBOLAR quando andam?

Quem é mais velho se lembra desse jeitinho de caminhar da brasileira, que seduzia e chamava a atenção, e era comentado em todo o mundo.

Será que é culpa da Yoga ou Pilates? Será que reprimiram o movimento suingado do quadril depois da emancipação feminina? Para as mulheres não parecerem objeto? Foi a dancinha da garrafa que levou as mulheres a se recatar? Ou foi o funk carioca que desqualificou o saracoteio tão brasileiro?

Não querem mais se expor? Só vale quando dançam? Se cansaram do assédio nas ruas, trens e praias?

Vou perguntar ao meu amigo e colega ROBERTO DAMATTA se há explicações para a mudança desse costume tão tropical.

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Festinha hoje para arrecadar fundos para um projeto teatral, como rola às segundas-feiras no STUDIO SP, ideia genial que pegou e incentiva o teatro e o cinema. Uma maneira de se divertir e contribuir, ou dar 1 sentido para a sua balada.

A grana dessa vez vai para a produção da peça MENINAS DA LOJA, e tem show do meu querido amigo JUNINHO BARRETO, um dos compositores que estão na lista top rated do meu iTune.

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