Com censura

Com censura

Marcelo Rubens Paiva

31 de janeiro de 2019 | 11h28

Militar interrompe programa da TV Brasil criado no fim da ditadura militar pela antiga TVE.

E foram excluídos conteúdo laico, socialista e contra a ditadura do canal de internet para surdos, a TV Ines.

Parece ironia, mas não é.

No governo Bolsonaro, debater sem censura numa instalação sua não é recomendável. E quem noticiar a censura é chamado de agente da ex-União Soviética.

O general de divisão que chefia a Secretaria de Governo, ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz, decidiu suspender parte da programação da TV Brasil.

Entre eles, o programa Sem Censura, que começou justamente em 1985, na Redemocratização, em que o país vivia um debate político e cultural intenso, oriundo da campanha que o unificou, as Diretas Já.

O governo federal vai reestruturar a EBC, a grade de programação da TV apelidada de TV Lula, cortará cargos comissionados e quer otimizar despesas.

Promessa de campanha do presidente eleito, Jair Bolsonaro.

Sem Censura foi durante duas décadas apresentado por Leda Nagle, uma estrela do telejornalismo, que aceitou o desafio de politizar uma nova TV pública que renascia na nova democracia.

Era entrevista obrigatória de todo autor, músico, cineasta, teatrólogo, atrizes e atores que divulgavam seus lançamentos para uma repórter cativante, que se cercava deles no centro de uma tábula redonda e papeava sem parar por duas horas.

Não havia tabus. Não se cansava nunca.

Nem nós. Conhecia a todos e nos lembrava de detalhes da entrevista anterior.

Tinha uma voz rouca, magnética.

Não sei se ajudava a vendagem de livros.

Até 2016, quando foi demitida, era uma militância ir até à sede da TVE, depois Brasil, no centro velho do Rio, ouvir o que Leda tinha para perguntar. Era uma tradição.

De outro ministério, o da Educação, chegou uma lista de programas que deveriam ser retirados do site da TV do Instituto Nacional de Educação de Surdos (TV Ines), canal público ligado à Fundação Roquette Pinto voltado para deficientes auditivos.

Foram cortados conteúdos de autores de esquerda, relacionado à ditadura militar (Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, e Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat).

E biografias de filósofos que duvidassem da fé cristã (Gramsci, Nieztsche, Rousseau, Walter Benjamin e, claro, Marx).

Programas com conteúdo sobre feminismo, Aids, população indígena e negra foram pras nuvens, assim como uma entrevista do ex-deputado Jean Wyllys, o vilão do bolsonarismo.

Segundo Ancelmo Goes (O Globo), tudo começou quando Ricardo Vélez Rodríguez se tornou o comandante do MEC. A lista teria sido confeccionada pelo diretor-geral da Roquette Pinto, Fernando Veloso, com o diretor de programação, Cláudio Jardim.

A resposta imediata foi de praxe: o conteúdo já estava gasto, haveria reforma na grade e no site.

Mas o MEC, depois de uma sindicância, apurou que o ministro da Educação, indicado pelo ultradireitista Olavo de Carvalho, não teve nada a ver com a censura, que foi feita em novembro (durante a transição de governos).

Na mesma nota, o ministério afirmou que Goes, um dos colunistas mais lidos e relevantes da imprensa brasileira, foi treinado em marxismo leninismo pela União Soviética.

No governo Bolsonaro, debater não é recomendável. Nem noticiar a censura.