cisne negro

cisne negro

Marcelo Rubens Paiva

08 de fevereiro de 2011 | 14h38

Pensei que fosse 1 filme de menina.

Fui meio arrastado; não estava na minha lista.

Nada contra a música Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, que adoro.

Mas balé…

Nunca fui muito fã, nunca entendi, nem sei por que as coitadas precisam dançar nas pontas dos pés, posição incômoda e cômica, e chacoalhar os braços como se estivessem com ardência nos sovacos ou tentando secar o desodorante.

Aliás, uma fala do filme realçou a minha ignorância: “Montaremos Lago dos Cisnes, mas não no estilo Bolshoi.”

O que será que significa estilo Bolshoi?

Pior que um dos únicos balés que vi na vida foi um Bolshoi nos anos 70, dançando Sagração da Primavera no Municipal, uma viagem para um moleque recém-chegado em São Paulo.

Eu deveria saber muito bem qual é o estilo Bolshoi.

E se aquilo que Nina [Natalie Portman, favorita ao Oscar de melhor atriz] faz no palco é trucagem ou a atriz aprendeu a dançar.

Na real, não foi Natalie quem me levou a ver o filme.

Acho uma boa atriz, mas sem sal.

Foi o diretor Darren Aronofsky, que só faz filme bom [Réquiem Para um Sonho, O Lutador] e gosta de reabilitar atores marcantes e encostado por má conduta na moral vitoriana, como Mickey Rourke e, agora, Winona Ryder [como ela é demais…], cleptomaníaca que faz uma bailarina deprê aposentada à força.

O filme parece mais um do gênero “competir para ser o melhor”, obsessão americana.

Afinal, o papel principal do balé a ser montado pela companhia nova-iorquina  está entre Nina [Natalie] e a recém-chegada Lilly [Mila Kunis], exótica californiana, gostosa pra valer, queimada, tatuada, sua rival, que dança sem técnica, mas com tesão, exatamente o que falta à travada Nina, e atiça a libido de toda a companhia.

Mas o filme vai além. Os mitos de Dionísio e Apolo se confrontam.

Lá está o sentido da arte, o dilema técnica versus visceralidade, razão contra emoção. Cuja síntese é o dever da grande arte.

Me lembrou muito o período que em passei pelo CPT [como dramaturgo iniciante] e a mensagem e valor das palavras de Antunes Filho: estude, pesquise, estude, mas não basta, enlouqueça no palco, chegue ao extremo, é o nosso papel, entregue tudo, como se o mundo fosse acabar amanhã.

Relação que instiga o amor e ódio por nosso mentor, que nos cobra mais e mais,. e sabe das nossas fraquezas e exige superação.

Aliás, o diretor do balé, Thomas [Vincent Cassel], lembra Antunes e provoca a frieza de Nina, como eu, diretor novato de 3 peças, tentei também fazer, para que as atrizes se desarmassem e mergulhassem em seus personagens.

O problema é que alguns conseguem. E outros enlouquecem de fato, como Nina. E não sabem administrar as diferenças entre o palco e a rua.

E a metáfora do Cisne Branco e seu gêmeo, Cisne Negro, é perfeita. É a pureza contra a explosão. Nina consegue com perfeição fazer o Branco. Não consegue fazer o Negro. Até ouvir do diretor: “Você dança sem tesão. Vai para casa e se masturbe.”

Rá. Eu diria o mesmo.

ps> Quer saber algo engraçado. Só tinha homem a plateia. Bem. Era o Shopping Frei Caneca.

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