CINEMA PARALELO

CINEMA PARALELO

Marcelo Rubens Paiva

09 de abril de 2009 | 12h41

Um novo jeito de fazer cinema será apresentado aos paulistanos, o CINEMA VIVO. Estou curiosíssimo. Como diz o nome, será um filme transmitido ao vivo, numa tela do cinema do Centro Cultural São Paulo e no da Juventude.

A experiência é simples e engenhosa. Em vários palcos, atores representarão a história, que será captada por câmeras ao vivo. O resultado será exibido na tela concomitante, o filme FLUIDOS. O grupo de atores ensaia há semanas. O casamento teatro-cinema é radical.

Explica Alexandre Carvalho:

“A palavra chave para a linguagem do Fluidos é o cotidiano. Cotidiano das relações, do bairro, da vida dos espectadores. Câmera na mão, planos-sequência movimentados, afim de captar o fluir irriquieto e fugidio do contemporâneo. O Naturalismo é a base do filme, não somente no roteiro, mas também em sua linguagem e estética. Sempre prevalecerá o ambiente real, tal como ele é. São pessoas vivendo histórias que podem acontecer a qualquer um que frequente aquela região.”

A fotografia, direção e som serão os das próprias locações. Transeuntes virarão figurantes.

“O filme busca a textura diferente do nosso presente, imperfeita, quase pixelada, que denota a velocidade dessa imagem digital, simulada e vazia.”

O elenco:

As regras são:

– Não há cortes numa mesma locação.
– Um personagem não pode sair de uma locação e aparecer em outra imediatamente.
– Movimentação de câmera não extravagante.
– Três principais locações, com possibilidades de sublocações (de acordo com o alcance da tecnologia).
– Nas imagens externas, sempre as mesmas condições do ambiente e meteorológicas: sempre é dia, ou sempre é noite, ou sempre está nublado.
– As trocas de figurino e maquiagem devem ser rápidas e feitas na própria locação
– As cenas não podem ter duração muito breve, para dar tempo de deslocamento de atores de uma locação para outra.
– As cenas precisam ser expandidas, iniciando antes e terminando depois das ações principais, para possibilidade do corte ao vivo.
– Há espaços para improvisações, cacos, e inserções de informações atuais cotidianas nos diálogos dos personagens.
– Criação de jogos de aproximação e afastamento da diegese com o público.

Mais detalhes no blog: http://www.cinevivo.com.br/

Falei que na pré-estreia do filme FIEL, segunda-feira, não vi a classe cinematográfica, o que me surpreendeu, pois não perde uma sessão, e o filme traz um novo elemento ao mercado e um público que não é frequentador.

Mas a crítica estava lá. Olha o que publicou o Zé Geraldo, um dos melhores críticos do Brasil, hoje na Ilustrada. Esse entende…


JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA

A certa altura de “Fiel”, um entrevistado repete uma frase conhecida: “Os outros times têm torcidas. No Corinthians, é a torcida que tem um time”. Coerente com essa ideia, o documentário busca captar a comunicação direta entre os corintianos e o clube.
A estrutura concebida pelos roteiristas Sérgio Groisman e Marcelo Rubens Paiva é simples e eficaz. Uma primeira parte apresenta um punhado de torcedores mais ou menos característicos, cada um falando de sua paixão pelo clube e introduzindo temas básicos: a fidelidade, as superstições, o Pacaembu como “casa corintiana”, a tradição de sofrimento, os jogos memoráveis etc.
Na segunda parte, alternando depoimentos e cenas nos estádios, narra-se o calvário vivido em 2007, quando o clube foi rebaixado para a segunda divisão. Num crescendo de tensão, reconstitui-se a reta final do campeonato brasileiro daquele ano, culminando no fatídico dia 2 de dezembro, quando o Corinthians perdeu em Porto Alegre, diante do Grêmio, a última chance de escapar da queda.
O epílogo, como não poderia deixar de ser, é a redenção, a volta à elite. Como a campanha corintiana na Série B não foi dramática, pois o time logo disparou na liderança, “Fiel” se concentra no jogo que selou o retorno: a vitória sobre o Ceará, no Pacaembu, em 25 de outubro de 2008. A emoção é garantida pelo fato de vermos na arquibancada os torcedores que foram apresentados ao longo do filme. O clássico mecanismo de identificação que o cinema proporciona sintoniza o espectador com o clima da conquista.

Efeito terapêutico
Dois casos são especialmente tocantes, ambos de jovens torcedoras. Uma delas, conforme ficamos sabendo na última parte, está fazendo quimioterapia contra o câncer e convence os médicos de que suas idas ao estádio têm efeito terapêutico. Ao vê-la vibrar na arquibancada, não resta dúvida quanto a isso.
A outra situação peculiar é a de uma moça que namora um palmeirense. No dia do jogo que rebaixou o Corinthians, eles estavam no Parque Antarctica, vendo um jogo do Palmeiras. Vinte mil palmeirenses vibravam com o time e zombavam do arquirrival, enquanto ela, rádio no ouvido, sofria em silêncio com a nação alvinegra.
É difícil saber como reagirá diante de “Fiel” um torcedor de outro clube ou um espectador indiferente ao futebol. Mas é provável que ele se comova com essa estranha paixão que leva milhões de pessoas de todas as classes e idades a fazer do sofrimento um valor positivo.

Já o crítico Inácio Araujo nos detona no seu blog:

http://inacio-a.blog.uol.com.br/

Fiel” é um mau negócio para uma jovem realizadora (bem menos para os roteiristas, que têm a vida feita): é, basicamente, uma operação de marketing.

O filme é uma celebração da chamada “fiel torcida” pelo método tradicional do documentário: um monte de torcedores fanáticos falando as coisas que todo fanático mais ou menos fala explicam porque ser corintiano é uma experiência única, insubstituível, da ordem da natureza etc.
Como, para piorar, o marketing corintiano se apóia na paixão da torcida pelo time, o filme é meramente bajulatório de seus torcedores e de seu comportamento.
O uso ecumênico das classes sociais não poderia faltar: os entrevistados são ricos, pobres, homens, mulheres, altos, baixos, mas diante do Corinthians são iguais – ainda uma vez, algo que acontece com qualquer torcida. Não que o Corinthians não tenha ricas particularidades: mas o misticismo, São Jorge, o velho Mosqueteiro com seu idealismo antiquado nem são mencionados. E, claro, não se vê nem sombra das muitas macumbas que povoaram os muros do estádio nos momentos dramáticos de 2007.
Com tudo isso, ou antes: sem nada disso, “Fiel” esvazia o “ser corintiano” de conteúdo, enterra a mística do sujeito que acredita na luta mais do que na vitória; no milagre, mais do que na razão; na garra mais do que no refinamento. Em “Fiel”, um corintiano é só um corintiano: mera e cansativa tautologia. Já vi coisas melhores de Andrea Pasquini e espero voltar a ver.
O que mais dá medo em “Fiel” é que essa mania de filmes oficiais, apaixonados, autocelebratórios, se difunda de maneira incontrolável entre os times de futebol. Já houve um do Grêmio, que não vi. Promete-se um do São Paulo, que desde já estou ansioso por não ver.

Primeiro, queria esclarecer que não estou com a vida feita. De onde ele tirou isso? Tanto ele quanto eu trabalhamos na imprensa escrita. Ele sabe o quanto ganho aproximadamente. Literatura no Brasil? E teatro deixa alguém rico?

“Um monte de torcedores fanáticos” é uma maneira bastante preconceituosa de falar de pessoas que vivem uma paixão. O filme não é bajulatório, retrata um caso de amor. E filmes de futebol são superbemvindos. especialmente no País apaixonado por ele. Não viu o do Grêmio, BATALHA DOS AFLITOS, mas deveria, se é um crítico cabeça aberta. Eu, hein?

Inácio, não existe apenas 1 cinema. Nunca me incomodaram as críticas. RESPEITO-AS. Sou rodado. Mas as agressivas [ofensivas], sim. É uma espécie de bajulação do contra, criar polemicazinha, ser diferente, chamar atenção. É o que leva a nossa profissão, jornalista cultural, a perder o parco prestígio. E nós, os isentos, pagamos o preço depois.

Bem, no CADERNO 2 de hoje, tem crítica do grande Merten, que não envelhece, não se acomoda, e é adorado e respeitado por todos.

Luiz Carlos Merten

Pode ser mera coincidência, mas a história é real, permanecerá para sempre no coração dos alvinegros e, embora deflagrada pela tristeza da derrota, será lembrada como os melhores anos da vida dos torcedores. Você não precisa ser da Fiel para saber que o Corinthians, em 2007, caiu para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro e no ano seguinte voltou à série A, depois de fazer a segunda melhor campanha da história da série B. Foram 70 pontos em 32 jogos, 20 vitórias, 10 empates e duas derrotas. O Corinthians voltou à Série A com seis jogos de antecipação e sempre empurrado pela torcida, a Fiel, que ganha agora o documentário assinado por Andrea Pasquini, que estreia hoje.
A Paixão (do torcedor), nada mais adequado para uma Semana Santa. A coincidência? assinalada no início é que o curta A História Real e os longas Os Melhores Anos de Nossas Vidas e Sempre em Meu Coração compõem a filmografia da diretora de Fiel. Pode parecer estranho que justamente uma mulher assine a direção do filme, mas a surpresa se dilui quando você pensa na lendária Marlene Matheus, uma locomotiva a impulsionar a história do clube. Uma mulher dirige, mas a produção é da G7 Cinema e, por trás da marca, está Gustavo Ioschpe.
A G7 Cinema realizou dois documentários recentes sobre clubes de futebol do Rio Grande do Sul. Há uma rivalidade muito grande entre Grêmio e Inter, a dupla Gre-Nal, cujos clássicos paralisam Porto Alegre, seja no estádio de um, o Olímpico, ou de outro, o Beira-Rio. Isso é praxe no futebol. Grêmio e Inter foram campeões do mundo. Futebol é arte, dirão os saudosistas, mas ela – a arte – é cada vez mais substituída pela política de resultados que domina as partidas.
Inacreditável – A Batalha dos Aflitos e Gigante – Como o Inter Conquistou o Mundo são épicos sobre futebol. O segundo é maravilhoso, mas pode ser o colorado falando. A histórica partida do Grêmio contra o Náutico, no Recife, a campanha do Inter para vencer no Japão contam como times desacreditados deram a volta por cima. Fiel também aspira a essa dimensão épica, mas ela não se constrói dentro de campo e sim, nas arquibancadas, nos ônibus, metrôs, nos acessos aos estádios, onde a torcida vela pelo time. O filme divide-se em três atos. O primeiro mostra torcedores anônimos bradando o amor pelo ?Coríntia?, o segundo retrata a tristeza daquele 2 de dezembro em que o time foi rebaixado. O terceiro, o épico, trata do retorno à primeira divisão. A última é a melhor. O filme cresce. Corintiano de raça não pode perder.

Ele viu os filmes de futebol. Tem um texto preciso. E pode assim fazer as comparações, a verdadeira vocação de um crítico.

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