Esquecer?

Esquecer?

Marcelo Rubens Paiva

26 de novembro de 2009 | 11h59

Vi na segunda-feira o documentário CIDADÃO BOILESEN, que ganhou o último É TUDO VERDADE. E estreia amanhã nos cinemas.

Saí chapado pelo filme. Mais ainda pelo debate posterior.

Foi uma pré-estreia para convidados. Estavam presentes muitos ex-combatentes da ALN. Digo sobreviventes, pois a organização foi dizimada brutalmente entre 1967 e 1973.

Contam-se nos dedos os que estão vivos para contar.

Entre eles, CARLOS EUGÊNIO DA PAZ, atual professor de música, quem decidiu justiçar BOILESEN em 1971, e deixou no ar, ou melhor, não afirmou nem negou, se participou do fuzilamento do ex-presidente do GRUPO ULTRA.

No debate, disse mais: “Às vezes, precisamos matar, sim.”

Volta tudo. Pois sei muito bem que a maioria não sabe do que estou falando. E não sabe porque o País faz questão que não saiba. Sempre pedem: vamos virar a página. Como se fosse possível…

No bar em que fui em seguida ao filme, descobri que nem meus amigos íntimos sabiam quem foi HENNING BOILESEN, a figura mais controversa da ditadura e simbólica.

O filme não conta grandes novidades para quem conhece a história dos anos de chumbo. Mas faz uma análise completa, corajosa, e traz depoimentos de pessoas falando aquilo que, antes, soavam boatos.

Presta atenção. Na renúncia de Jânio Quadros, o Brasil viveu um período agitado. As esquerdas viram ali, enfim, a chance de impor seu projeto, as reformas de base, uma delas, a reforma agrária, já que o vice-presidente JANGO, que tomou posse, vinha de suas fileiras.

O golpe militar foi preparado. A direita e o empresariado se uniu. Igreja, ABI, OAB, o governo americano, todos se viram na paranoia vigente, a da ameaça comunista. Ou foi a desculpa para não abrirem mão de $eu$ privilégios.

Em 31 de março de 1964, começou o golpe militar. Mas que, na verdade, era também civil, planejado nos gabinetes, corredores das federações industriais, agrárias, mercado financeiro e multinacionais.

E é disso que, no fundo, o filme trata. Aponta a participação da elite brasileira no regime conhecido apenas pela alcunha de DITADURA MILITAR.

O próprio OLAVO SETÚBAL, do ITAÚ, em entrevista para o filme esclarecedora, resignada, à vontade, afirma que era evidente que o golpe era civil, que os militares foram chamados por eles, empresários.

A esquerda se divide. Parte dela opta pela resistência armada.

Organizações clandestinas são fundadas, ALN, VPR, VAR, COLINA, MR-8, MTR… Para arrecadar fundos, assaltam bancos. Começam as ações de guerrilha urbana. Preparam-se as de guerrilha rural.

O governo se assusta. Não estava preparado para uma guerra contra guerrilha. No seu comando, ex-combatentes da Segunda Guerra. Montam uma operação paralela, a OBAN, órgão civil e militar, sob o comando do II Exército. Onde? Em São Paulo, onde estavam e trabalhavam os industriais e banqueiros.

Aliciam os delegados mais durões da Polícia Civil de São Paulo, entre eles, o bando do Esquadrão da Morte, chefiado por Paranhos Fleury, para que combatessem os “terroristas” utilizando os mesmos métodos que combatiam a bandidagem.

O governador ABREU SODRÉ emprestou a delegacia da RUA TUTÓIA, que se tornou o centro de operações e torturas. Os militares pediram uma contribuição do empresariado, para financiar a organização “modelo”. Na verdade, queriam o aval, solidificar a aliança. O Ministro DELFIM NETTO foi o encarregado de fazer a ponte.

Em muitas reuniões na FIESP, empresários passaram o chapéu.

E qual deles mais se empolgou? BOILESEN, dinamarquês que chegou pobre no Brasil, anticomunista ferrenho, com comportamentos estranhos anotados em seu boletim escolar da Dinamarca.

Presidente do poderoso grupo da Ultragás [50% dos lares brasileiros eram abastecidos por gás liquefeito], que fazia acordos escusos com a PETROBRAS e frequentava os bailes e eventos da, como se dizia na época, “alta sociedade”.

Não só era quem “achacava” os empresários que não queriam participar, com ameaças sutis a JOSÉ MINDLIN e JOSÉ ERMIRIO DE MORAIS, que se recusaram, como ficou amigo dos agentes e torturadores e assistia às sessões de tortura.

Um aparelho de tortura com choque tem o seu nome, PIANOLA BOILESEN. Alguns dizem que ele o importou dos EUA.

A informação de que havia caixinha para financiar a tortura e que a Ultragás estava por trás vazou entre os guerrilheiros. Em muitas prisões, havia um caminhão da empresa. E torturados falavam da presença do industrial nas sessões.

CARLOS LAMARCA sugeriu o seu sequestro, para servir de exemplo a outros empresários. A ALN decidiu pelo fuzilamento. CARLOS EUGÊNIO DA PAZ comandou a operação, uma emboscada na esquina da CASA BRANCA, nos JARDINS.

Seu Galax foi fechado pelos guerrilheiros, que deram um tiro de fuzil. O empresário correu pela BARÃO DE CAPANEMA. Outros guerrilheiros o esperavam e o metralharam.

Enfim, o Alfa, guerrilheiro que dá o tiro de misericórdia, para “completar” a operação, se aproximou calmamente e deu um tiro de fuzil na cabeça do empresário. Depois, espalharam panfletos, explicando a ação ao “Povo Brasileiro”.

Em poucos dias, foram descobertos. Todos que participaram da ação foram mortos. Exceto PAZ, que se exilou.

No filme, BRILHANTE USTRA, então chefe da OBAN, e um agente confirmam que BOILESEN era um chegado. O agente afirma que, sim, ele participava das torturas.

Mindlin confirma o achaque, e que era BOILESEN quem passava a caixinha. Uma guerrilheira conta o que conversaram depois da sessão de tortura. Paz dá detalhes da operação. Dinamarqueses amigos falam de seu envolvimento com a polícia política. Seu filho nega tudo.

Dom Paulo Evaristo Arns explica, irônico, com uma desculpa bem esfarrapada, por que não rezou a missa de sétimo dia.

Erasmo Dias confirma o envolvimento de empresários. Os nomes de algumas empresas que participaram da caixinha são citados, como a GM e FORD.

Falam dos famosos caminhões da FOLHA, que teriam sido emprestados para a OBAN, história obscura, que nunca se provou, mas que levou as organizações de esquerda a queimarem alguns caminhões da empresa.

CHAIM LITEWSKI, diretor do filme, levou mais de uma década para fazê-lo.

Conseguiu diversas imagens de arquivo esquecidas na CINEMATECA. A montagem é moderna, a trilha sensacional. Em nada se parece com as trilhas enfadonhas de documentários do gênero.

E a grande surpresa do filme é o depoimento de um lúcido e direto FERNANDO HENRIQUE CARDOSO [o sociólogo, ele uma vítima do regime que o cassou].

Diz, claramente: “O empresariado não precisava participar, o governo tinha dinheiro de sobra.” Participou porque quis eliminar um inimigo. Financiou nos corredores da FIESP, de que BOILESEN era diretor, consciente dos métodos. É uma mancha mais que escura na nossa história, de que pouco se fala.

Afinal, parte desse empresariado está ainda aí na ativa, comanda a indústria, e, como no mercado financeiro, muitos cresceram durante o período, especialmente os colaboracionistas.

Aliás, ninguém nunca comentou, mas a união ITAÚ-UNIBANCO é bizarra.

Enquanto o primeiro era gerado por uma família declaradamente golpista, o segundo era gerado por uma família que foi cassada pela ditadura [Walter Moreira Salles foi ministro da Fazenda do governo João Goulart].

Assistir ao filme é uma oportunidade de entender por que parte da sociedade civil, com o aval do presidente do STF, anuncia que é contra repensarmos na LEI DA ANISTIA, de 1979, promulgada durante ainda a ditadura, que perdoou torturadores.

PAZ causou polêmica ao dizer no debate que às vezes é preciso matar. Citou a Revolução Francesa, a Americana, a Resistência Francesa. E disse: “Eu fiz algo para protestar contra aquela ditadura assassina. Desde os 15 anos lutei contra ela.”

Mas foi FHC, que chegou a ser levado para a OBAN encapuzado, quem deu a voz final no documentário. “Os empresários querem esquecer, porque se veem em Boilesen.”

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Amanhã tem pré-estreia com debate do ótimo e aguardado documentário ENTRE A LUZ E A SOMBRA, também há anos sendo produzido, da minha amiga LUCIANA BURLAMAQUI.

Dia 26, às 20 horas, no Cine Bombril – Conjunto Nacional. Após a sessão, debate com a diretora Luciana Burlamaqui, Oded Grajew (Movimento Nossa São Paulo), Domingos Dutra (deputado federal, PT-MA) e Gilberto Dimenstein, colunista da Folha. Senhas na bilheteria (Av. Paulista 2073) uma hora antes da sessão.

Então, se entende o mal que a DITADURA fez a este País.

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