Chatô e a carnavalização da política brasileira

Chatô e a carnavalização da política brasileira

Marcelo Rubens Paiva

18 de novembro de 2015 | 10h27

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Neste ponto, concordo com Laurentino Gomes, quando diz que (em se tratando da Proclamação da Independência) existe heroísmo na história brasileira.

Curioso como de Machado a Lima Barreto, de Oswald a Mário de Andrade, a política brasileira é no fundo uma piada.

Não é a forma equivocada de se tratar do tema, porque atrai público e nos isenta da responsabilidade de nos posicionarmos ideologicamente num Estado que sempre perseguiu com ferro em brasa adversários políticos.

Mas nossa tendência de evitarmos falar a sério no cinema até de temas sérios merece uma temporada num divã.

Carlota Joaquina, uma sátira da família real, talvez seja o melhor filme de história já feito sobre o período.

Chatô segue a mesma correnteza: seria o filme Carlota Joaquina do Estado Novo.

O homem visionário que, do nada, montou um império de comunicações e o melhor museu de arte moderna do continente é retratado como a versão industrial de Macunaíma.

Não fizemos o filme Chatô como Cidadão Kane, não o levamos a sério.

Carnavalizamos a política como sempre.

O filme é surpreendentemente bom e provocativo.

Tem cenas sensacionais, como a abertura em que Chatô faz um churrasco antropofágico.

Os atores Marco Ricca, Paulo Betti, Andrea Beltrão, Eliane Giardini, Leandra Leal, Letícia Sabatella, estão ótimos.

Bem melhor que a aura John Wayne no personagem Dom Pedro I no filme Independência ou Morte dos anos 1970.

E que o dramalhão mexicano Olga.

Só me pergunto se um dia levaremos a sério e faremos filmes de personagens da nossa história sem a inspiração de Teatro de Revista.

Se retrataremos a Proclamação da República, a luta entre Deodoro e Floriano, Intentona Comunista, Integralismo, a fraude de Washington Luiz, JK, Jânio, Jango, o Golpe de 1964, a reunião do AI-5, Lacerda, a luta de Ulisses contra a ditadura, Herzog, Dom Paulo Evaristo Arns, o sequestro do bispo brasileiro, Rio Centro, a morte de Tancredo, tantos eventos e personagens políticos fascinantes e que mudaram o rumo da nossa história, sem o tom de uma comédia.

O cinema brasileiro foge da política, mas não foge da piada.

Tem uma dívida enorme com a nossa história.

E viva Glauber Rocha!

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