celebração de tudo [e de nada]

celebração de tudo [e de nada]

Marcelo Rubens Paiva

04 Fevereiro 2013 | 18h26

 

 

 

É uma luta fazer o paulistano afrouxar o nó, tirar a mão do bolso, a caneta da orelha e vestir um colar de flores.

Na cidade em que já teve um CARNAVAL de rua até na AVENIDA PAULISTA, muitos hoje reclamam que os blocos atrapalham o trânsito.

O trânsito de sábado e domingo, quando saem os blocos. Também atrapalhado pelas ciclofaixas.

É CARNAVAL. Invenção anterior ao automóvel. Seja pagão. Deixe o carro em casa.

A rua é do povo. É folia.

Muito ressentimento no ar contra aqueles que querem extravasar a dureza da vida, encontrar amigos.

Por onde já desfila o grande bloco BANDALHA, ou BANDA REDONDO, fundado por PLINIO MARCOS em 1972, o bloco ACADÊMICO DO BAIXO AUGUSTA pediu passagem e arrastou gente cantando e dançando em ritmo de samba NIRVANA, RAUL SEIXAS, TITÃS, CHICO SCIENCE, THE “PULP FICTION” TORNADOES, além de marchinhas tradicionais e clássicos como VOU FESTEJAR e É HOJE, do CAETANO.

Porque CARNAVAL em SP tem que ter roquenrol.

Afinal o carnaval nasceu antes do samba, não é monopólio dele.

É o renascimento do carnaval de rua de São Paulo.

Dessa vez com autorização da Prefeitura.

Não é fraco não.

No quarto anos de vida [no ano passado a Prefeitura não nos deixou sair], arrastamos uma galera.

 

 

 

PORTA ESTANDARTE COM NECESSIDADES ESPECIAIS e RAINHA DA BATERIA

 

 

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Em 1972, Plínio Marcos chamou colegas de teatro, como Carlos Costa, o Carlão, se autoproclamou presidente da Banda Bandalha.

 

 

A banda saía da frente do Teatro de Arena, que mudou o teatro brasileiro, e percorria o centro. Como Porta Estandarte, a atriz Etty Frazer. Mestre sala, Toni Ramos.

Entre os foliões, Walderez de Barros, Gianfrancesco Guarnieri, John Herbert, Pepita e Lolita Rodrigues, José Ramos Tinhorão. E claro que na época rolou embates entre PLINIO e a prefeitura.

Ainda existe.

Costuma se concentrar na frente do Teatro de Arena Eugênio Kusnet, em frente à PRAÇA ROOSEVELT.

Desce a Rua da Consolação, seguindo pela Xavier de Toledo, passando pelo Teatro Municipal, Av. São João, Ipiranga, Praça de República, cruzando a Av. São Luís. Voltando ao ponto de partida na frente do Teatro de Arena.

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O CADERNO ALIÁS através da Mônica Manir trouxe uma intrigante entrevista com o psicanalista e professor da UNIFESP, Tales Ab’Sáber, que numa estada em Berlim pesquisou a night, de onde tirou inspiração para escrever A MÚSICA DO TEMPO INFINITO [Cosac Naify].

Trechos da entrevista:

“É uma festa intensa, que deseja não terminar jamais”, sobre a noite em Berlim.

“Trata-se de um dispositivo de época para a gestão do prazer.”

“A balada é mais bonita, mais livre e mais erótica que a vida, e no entanto está totalmente articulada, econômica e socialmente, à vida como ela é.”

Sobre o lazer noturno:

“Ele tem raízes na oferta de experiências própria da grande metrópole moderna, como os cafés concertos da Paris de Haussmann, os cabarés berlinenses dos anos 1920 e as casas de dança e jazz da Nova York da mesma época. Muito cedo se observou nessa invenção para a noite uma espécie de nova ordem internacional da diversão, ligada à organização da vida das massas na sociedade liberal. No entanto, a partir dos anos 1950 e 1960, emergiu a ideia de que a noite dos jovens estaria ligada também a um vetor político, de crítica ao sistema, no qual aquilo que era ofertado pelo mercado era vivido como a negatividade da antiga bohème. Esse movimento sempre guardou a ambiguidade de ser regulador e ao mesmo tempo um espaço imaginário de desejos conflitantes com a vida social. A partir das décadas de 1980 e 1990, há um retorno à ordem da contracultura ocidental, que teve seu ápice público e político, em plena luz do dia, em 1968 e 1970. Ele foi retirado do cotidiano, reservado para a circulação de mercado, para ser guardado, e de certo modo privatizado, na emergência da boate de massa, o novo espaço da república pop. Essa passagem histórica foi marcada pela ultrapassagem do rock – e da canção – pela música eletrônica. No Brasil, ela se condensou na balada, que não existia na minha juventude nos anos 1980.”

Estranho. Na minha juventude dos anos 1970 e 1980, tinha.

Chamava-se discoteca, como GALLERY, HIPOPPOTAMUS, e depois danceteria. Não é o mesmo que balada?

Quem viveu a noite de São Paulo se lembra dos cafés do BIXIGA, LIRA PAULISTANO, das boates NAPALM, CARBONO 14, MADAME SATÃ, ROSE BOM BOM.

Depois, RADAR TAN TAN, AEROANTA, CAIS, SINGAPURA, AVENIDA CLUB.

 

 

Para ele, o que caracteriza uma balada:

“A balada é o espaço que sustenta esse desejo [de que tudo muda]. Ela dá uma amostra, um sampler, do mundo do luxo e da luxúria para os que não o possuem, ou da experiência estética antiburguesa para os adaptados. Trata-se de um dispositivo de época para a gestão do prazer. A balada é mais bonita, mais livre e mais erótica do que a vida, e no entanto está totalmente articulada, econômica e socialmente, à vida como ela é. Ela mantém vivo esse potencial utópico, e ao mesmo tempo o reduz a um espaço socialmente aceito. É a sua forma de solução de compromisso, o seu sonho social.”

 

O que costumam festejar?

“É um paradoxo. Eles festejam suas vidas difíceis de mercado, e sua inserção por um fio na coisa toda. Mais ou menos do mesmo modo que a mercadoria, por meio da cultura da propaganda, festeja a si própria sem parar. A ordem do poder atual exige celebração contínua, ligada à afirmação do indivíduo de realização do próprio prazer, desde que ele seja de mercado, apolítico. E esses jovens, que por vezes fingem um cuidadoso punkismo construído em lojas caras da moda, celebram a mesma celebração geral de seu mundo. Ou, como escrevi em meu livro, eles festejam o fato de não haver nada a festejar. É a compulsão a ser feliz, que diz muito respeito à propaganda.”

Eu, que tenho graduação incompleta por correspondência em balada e boemia, não sabia que devia festejar algo quando saio.

Vou me concentrar melhor no caminho.

Pensava que estava fisicamente me expondo ao som de uma música que penetra nos ossos, que fala à alma, que traz lembranças, nostalgia, e que olha o futuro, que me diz coisas. Sem contar que meus hormônios reprodutivos afloram e me movem à corte, para, como diria DARWIN, garantir a sobrevivência da espécie.

Talvez celebremos a fertilidade na era camisinha. Fertilidade eterna. O amor líquido.

Talvez reencontremos nossos ancestrais através de músicas antigas.

“Podemos dizer que o hiperindivíduo, que busca a singularidade do seu prazer nas ofertas de mercado, acaba pensando como todos os demais, em uma grande uniformidade cultural, e ele vai de fato alimentar o megafestival que legitima o presente. Estamos diante de um mundo que, na mesma medida em que afirma o indivíduo, o empobrece e o torna apenas idêntico a todos.”

E quem sabe este hiperindivíduo quer se sentir integrado num ritual da aldeia.

“[Gay] Talese percebeu o destino da coisa toda: a política seria em breve substituída pela imagem. Seu texto é o primeiro a falar da celebração de tudo e de nada, que passou a ser a cultura jovem no nosso tempo, em que há muita produção de imagem, excitação e gozo, mas, para lembramos os termos do escritor, ‘nada está acontecendo’. Um lance de espírito de gênio. Por que a festa precisa sugar tudo para ela? Tudo tem que se expressar como excitação. É a mesma lógica da mercadoria quando ela aparece: excitar para circular. Todos precisam estar nesse estado porque, caso contrário, não correspondem ao mundo. Esse momento está ligado ao desligamento do vetor político da contracultura. Ele passa a ser encenado, não é mais o embate político real.”

Por que deveria ser?

E me pergunto onde entra o CARNAVAL neste debate.

Deixa pra lá. Vou ver a programação noturna com os amigos, me divertir e refletir melhor.