Cegueira e Blecaute

Cegueira e Blecaute

Marcelo Rubens Paiva

09 de novembro de 2014 | 22h17

Um site analisa as capas do meu livro BLECAUTE.

Talvez meu livro mais cultuado (de cult), junto com MALU DE BICICLETA.

http://www.literar.com.br/capa-blecaute/

Eu tinha 27 anos quando ele foi lançado (1986), um guri.

Certa vez uma revista me pediu a comparação entre duas obras literárias, que são diferentes em estilo, mas oferecem uma trama de pano-de-fundo parecida: Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (Companhia das Letras) e Blecaute (Objetiva), o meu segundo romance- primeiro de ficção.

Sem abusar da vaidade, a pauta foi sugerida pela Revista da Cultura, já que, apesar de, também entre aspas, escrevermos seguindo as regras da mesma língua, Saramago é um Prêmio Nobel, vendedor de milhões de exemplares, e eu sou um escritor do Sul do Equador, conhecido como o roteirista do documentário sobre o Corinthians, FIEL.

 Ensaio Sobre a Cegueira é de 1995. Virou filme pelas mãos e lentes de Fernando Meirelles. É narrado por um velho, que se desloca por uma cidade desconhecida, em que todos ficam temporariamente cegos, devido a uma praga desconhecida. Apenas a mulher de um oftalmologista é imune à doença- os personagens não têm nome. Para sobreviver, ela finge que é cega.

A praga começa de repente, já na primeira página: um motorista “se vê” cego no meio do trânsito. Ele espalha o vírus, que é rápido, impiedoso. O caos se estabelece.

A civilização e os pactos criados são rompidos.

Pouco a pouco, desperta a fera corrupta, predadora e interesseira que há domesticada em muitos. A frágil aliança entre os homens é substituída pela competição entre aqueles que acreditam na união para a sobrevivência, e aqueles que apostam na anarquia.

Blecaute foi escrito dez anos antes. Pode virar filme ou série pelas mãos da Querosene Filmes em parceria com a Pródigo Filmes.

Além do Brasil, foi publicado na Alemanha. Vendeu 280 mil cópias, um estouro que, segundo muitos, seguiu a esteira do sucesso do meu primeiro livro, Feliz Ano Velho.

Rindu, Mário e Martina ficam presos numa caverna do Vale do Ribeira. Quando saem, descobrem que as estradas e São Paulo estão desertas. As pessoas viraram estátuas. Apenas os animais sobreviveram a uma misteriosa praga.

Entre explorar e esperar na cidade “o fenômeno” acabar, decidem morar num bunker e esperar. Aos poucos, é também rompido o pacto de civilidade. Passam a agredir tudo em volta, dinamitar monumentos, fazer excentricidades. Para, depois, considerarem o amigo um inimigo.

Cegueira tem final feliz e sugere que precisamos de uma catástrofe eventual para enxergamos nossas contradições, desenharmos a paz e um rumo. Todos voltam a enxergar. Muitas metáforas emergem desse plot: estamos cegos diante da miséria humana.

“Por que foi que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, queres que te diga o que penso, diz, penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem.”

Blecaute não explica o fenômeno e termina sem solução. Os personagens sobreviventes estarão para sempre solitários, numa civilização que se foi.

Escrevi inspirado no movimento punk e no desespero que vivíamos perante a possibilidade da destruição por uma guerra nuclear e aquecimento global.

Antes dele, livros e filmes propunham uma trama apocalíptica, para desvendarmos alguns segredos da civilização. Como Kalki, de Gore Vidal. Informei no prefácio que meu livro era inspirado na série Além da Imaginação, produzida no clima do pós-guerra.

 

 

Dois filmes, A Última Esperança da Terra, com Charlton Heston, e a sua refilmagem, A Lenda, com as nossa Alice Braga, mostram Nova York deserta, também atacada por uma praga, e a luta contra seres mutantes.

Acredito que Saramago foi inspirado pela aids e ebola, vírus que ameaçam a espécie.

Enquanto abuso da linguagem coloquial, Saramago tem um estilo formal, apesar de não pontuar os diálogos, uma brilhante técnica, que ilustra como, se fecharmos os olhos, nos vêm as falas ao redor.

Porém, sem dúvida, em comum, há o sentimento que existe em todas as religiões, está narrado na Bíblia, e que aflige o homem, o de que um dia tudo isso acabará, que não haverá mais olhos para ver um Van Gogh, ouvidos para escutar um Mozart.

A beleza criada pelo homem pode ser destruída por ele mesmo.

Na comparação, faltou a capa alemã, doida de pedra.

 

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