cega e burra

cega e burra

Marcelo Rubens Paiva

19 de novembro de 2010 | 12h54

O Tribunal de Justiça – SP divulgou ontem liminar que proíbe a distribuição do livro OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO a alunos de escolas públicas do Estado.

Pois o livro possui conteúdo sexual com “descrições de atos obscenos, erotismo e referências a incestos”, e, por isso, seria inapropriado para estudantes do ensino fundamental e médio.

O conto OBSCENIDADES PARA UMA DONA DE CASA, do meu colega de coluna, IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO, pode ter sido o causador da obscura proibição.

Mas é 1 juiz quem deve indicar o que pode ou não ser lido nas escolas?

Ele entende de LITERATURA?

Seguiu um gosto pessoal, a intuição?

Vai proibir ou sugerir riscarem as palavras e trechos obscenos?

Por que não arrancarem as páginas  “inapropriadas” a garotos e garotas que não veem nada disso na TV e internet?

Não vão recolher as obras já distribuídas. Mas as escolas que ainda têm exemplares não entregues devem devolver à secretaria. E está proibida uma nova distribuição do livro. Caso a decisão não seja cumprida, a multa será de R$ 200 para cada exemplar distribuído.

A Secretaria de Educação do Estado de SP disse que ainda não foi notificada da decisão e comentou que, ao contrário do que diz a liminar, a obra foi entregue apenas para alunos do Ensino Médio.

Seleção do professor Italo Moriconi lançada pela Editora Objetiva com 100 melhores textos do gênero ao longo do século, OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO deixou de lado critérios acadêmicos e pautou pela qualidade de obras-primas produzidas no Brasil entre 1900 e o fim dos anos 90.

Uma antologia dividida em 6 momentos, segundo o professor Douglas Wisniewski:

“De 1900 aos anos 30 / Memórias de ferro, desejos de tarlatana”

O autor situa corretamente os contos deste momento com o Pré-modernismo, deixando claro que os contistas deste período experimentam os mais variados estilos, não havendo exatamente um padrão. Temos um Machado de Assis ainda a questionar certas atitudes da sociedade da época, João do Rio falando sobre o carnaval e aventuras extravagantes, Lima Barreto fazendo as pessoas desenterrarem os ossos de seus falecidos parentes para fazerem ouro e, assim, criticando a ganância e estupidez da sociedade brasileira e outros.

“Anos 40/50: Modernos, maduros, líricos”

Representando um momento em que o Modernismo já se havia estabelecido na cultura brasileira, mas em que a poesia e o romance tinham maior espaço no mundo literário. Não obstante isso, teremos maravilhosos contos dessas décadas a nos mostrar as dificuldades das relações afetivas entre os brasileiros. Temos “O Peru de Natal”, de Mário de Andrade, mostrando a onipresença de um falecido e sovina pai no seio de uma família que se reúne para cear, José J. Veiga coloca dois irmãos que nem se conheciam frente a frente, tentando quebrar o gelo da distância que os separava apesar de terem o mesmo sangue, o maravilhoso Drummond vendo o mundo com os olhos de uma garotinha de 3 anos e outros.

“Anos 60: Conflitos e desenredos”

A década de todas as revoluções também é retratada por Moriconi como um momento em que escritores consagrados como Clarice Lispector e Orígenes Lessa explorarão mais os campos da psicologia humana em contos marcados pelo fluxo da consciência do narrador e finais surpreendentes.

“Anos 70: Violência e paixão”

O país vive um contexto de violência política e social até então inédito e o conto afirma-se como instrumento adequado para a expressão artística do ritmo nervoso e convulsivo desta década passional. Rubem Fonseca destila o famoso “Passeio noturno” narrando a “tara” do personagem que tinha como hobby atropelar pessoas, enquanto Luiz Vilela põe um barbeiro experiente e um jovem assustado para fazerem a barba de um cadáver e filosofar sobre a morte.

“Anos 80: Roteiros do corpo”

A sexualidade é exacerbada no início desta década, como consequência das revoluções culturais ocorridas nas décadas anteriores e o conto terá como cenário as grandes metrópoles. A mídia ditará as regras e começará a explorar o erotismo. O homossexualismo ganhará vulto na literatura oficial. Mas tanta concentração nas energias sexuais poderão terminar com uma sensação de vazio, que parecerá anunciar um fim de século melancólico, marcado pelo afastamento das pessoas através do uso da camisinha (isolante sexual) e o medo da AIDS. Sérgio Faraco, Caio Fernando Abreu, Ignácio de Loyola Brandão e João Ubaldo Ribeiro são alguns dos representantes desta fase.

“Anos 90: Estranhos e intrusos”

Momento de nova agitação cultural e diversidade de temas e tipos será marcado pelo final do século XX. “Década de estranhos e intrusos” como afirma o Dr. Moriconi, época que celebra a diferença, combinando o humano ao animal e ao tecnológica. Um novo período de transição, como aquele marcado pelo Pré-modernismo no início do séc. XX se anuncia para o início do séc. XXI, confirmando a máxima de que “a História se repete”. O destaque é dos contistas Moacyr Scliar, Silviano Santiago e Luís Fernando Veríssimo.

Primeiro proíbem MONTEIRO LOBATO. Agora, contos.

Justiça cega e burra.

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