buraco

buraco

Marcelo Rubens Paiva

25 de fevereiro de 2011 | 14h08

Me pergunto que efeito terá o Twitter nas nossas ondas cerebrais, em que pensamentos e opiniões não podem passar de 140 caracteres.

E o Face, em que você diz em resumo “no que está pensando agora” para centenas de amigos e desconhecidos?

Alguém aguentará ler um livro com mais de 140 páginas?

Alguém conseguirá escrever uma longa carta de amor?

Alguém conseguirá encontrar palavras que definam o estado das coisas de forma profunda?

E conseguirá ir para a cama, banho, ver a chuva da janela, sem precisar comunicar [postar] em “what’s happening” para amigos da rede social?

Já sou daqueles que diz em silêncio: Vou tuitar isso.

Ou que escuta coisas e pergunta: Posso tuitar isso?

Já sonhei com frases tuitáveis.

Mas que foram esquecidas de manhã.

Já sonhei que eu me dizia: Vou tuitar isso.

Não sei ainda ao certo para que serve o Twitter.

Nem seu inventor, que recusa ofertas bilionárias, não sabe o valor real do seu bussines e ainda não se decidiu como ganhar dinheiro com ele.

Aliás, ainda não surgiu a autoridade linguista para definir se o verbo é tuitar ou twitar, já que o W voltou depois da reforma.

E deveremos acentuar tuítar?

Mas que é viciante, é.

Meu amigo Bruno Mazzeo sofreu.

Ele era daqueles que tinham aplicativos no celular, o que me recuso. Disse que vivia dia e noite tuitando, que tudo era Twitter, que ele respondia, provocava, um estresse. Tem mais de 600 mil seguidores.

Deu um basta, tirou umas férias.

Não “se matou” no Twitter.

Mantém seus followers em stand by.

Mas parou de tuitar.

E já vi outros reclamando do mesmo vício.

O primeiro ato de romper com a dependência é apagar o aplicativo do celular.

Logo, logo, surgirão manuais:

Como Voltar a Viver Sem o Twitter.

Há Vida Sem A Rede?

Os Dez Passos Para A Libertação dos 140.

Não sei ao certo quem me lê [são uns 30.500 seguidores].

Nem os macetes de como postar fotos.

Não sei o que é # ou FF.

Mas me divirto e exercito a capacidade de ser exato e sucinto, que sempre foram exigências da boa literatura e do jornalismo.

+++

UA:BRARI é meu livro mais experimental.

Foi o meu terceiro, escrito no final dos anos 80 [segundo de ficção].

Que foi esquecido e saiu do prelo por anos.

Pois logo depois que lancei, veio o Plano Collor que retirou o dinheiro do mercado, lembram? E parou a vendagem de livros.

UA:BRARI será relançado agora, depois de reeditado e revisto.

Segunda-feira na MERÇA, estão convidados.

É meu livro mais doido.

Como foi particularmente doido o final da década de 80.

Em que acabou o monopólio do pó peruano, caro, e houve a invasão colombiana, cujos cartéis fizeram um dumping para dominar o mercado.

Aliás, “carteis”, eles e o acento sumiram.

E dominaram.

Foi também depois do verão da lata, em que 20 mil latas de maconha fortíssima foram jogadas pelo navio autraliano SOLANO STAR, que era perseguido pela PF, no mar de Angra, e encontradas nas praias de SP e RJ.

Só o cozinheiro do navio foi preso, já que a tripulação se mandou na abordagem.

Um amigo meu, surfista de Ubatuba, pegou 32 latas.

Já viu…

Vivíamos a angústia da ERA SARNEY, a década perdida, a moratória, a hiperinflação, o VALE TUDO, a derrocada do futebol arte, o fim das utopias, a queda do muro, a nova ordem.

UA:BRARI tem este tom.

Seu nome já é incomum.

E sua produção foi única, uma experiência.

Pois eu não trabalhava, não tinha dinheiro, morava num apê barulhento e poluído de Cerqueira César, cuja vizinhança familiar ia de travecas a garotas de programa.

Uma trafica morava no oitavo. E eu era dos poucos que tinham telefone, que custavam uma fortuna na época [até declarávamos como bem no Imposto de Renda].

Ela costumava descer e usar meu telefone.

Eu não cobrava, mas ela fazia questão de pagar.

É, adivinha com o quê…

Eu não fazia nada, ficava em casa escrevendo.

Certa altura, Roca foi morar comigo:

Acho que Marcos morou lá também por um tempo, na área de serviço.

E com 7 gatos [minha gata, KÁTIA FLÁVIA, deu cria].

Jogava pôquer às noites no estúdio do RUI MENDES, no Bixiga.

Que acabavam ao meio dia.

Curava a ressaca na piscina da USP, que era de graça para ex-alunos.

Ganhei muito dinheiro no pôquer.

Aliás, comprei a cozinha [fogão, geladeira, micro-ondas] com a grana de uma noitada.

Foi meu primeiro e único street flash, contra uma quadra de reis.

O cara, um turista italiano, não acreditou.

Saí da mesa e fui ao Mesbla.

Ou ao Mappin.

Existem ainda?

KATIA FLÁVIA ficou louca.

Distribuí a cria dela. A trafica ficou com um filhote.

MARCOS me roubou US$  2.400, a única grana que eu tinha guardada, “escondida” numa gaveta.

Pior que não podia denunciá-lo.

Mandei embora.

O cara sumiu.

Soube depois que comprou um Fusca com a minha gana.

ROCA se casou com minha amiga de colégio.

Está com ela até hoje.

E eu me casei com ADRIANA, que me tirou daquele buraco.

+++

UA:BRARI foi o primeiro e único livro em que me dediquei totalmente.

Não trabalhava, não fazia frilas, bicos, nada.

E olha que não tinha celular, fax, TV a cabo, internet, redes sociais, nada que desconcentrasse.

Vivi o sonho de todo escritor, poder ficar apenas escrevendo.

Nenhuma nostalgia.

Afinal, era monitor de fósforo verde, sem disco rígido.

Foi-se.

E sou o que sou também por causa dessa fase.

E deste livro.

Tendências: