bullying estatal

bullying estatal

Marcelo Rubens Paiva

02 de junho de 2013 | 20h18

 

Nascemos.

Com determinação genética e papel social, como um animal político (Aristóteles). Com signo, ascendente e um mapa que detalha nossa personalidade. Alguns acreditam que um carma nos seguirá a vida toda. Se mamãe ouviu música erudita durante a gravidez, nascemos relaxados.

Mas logo o Estado mostra as garras.

Papai tem que ir ao cartório. Ganhamos um nome. Que pode ser mudado depois. E uma nacionalidade. Poderemos ganhar outra depois. Nos é dada uma certidão da República Federativa do Brasil, na comarca de um Estado. Um escrivão assina o registro civil. O meu se chama Messias Faria.

Messias certificou na folha xis, do livro número A-15, num registro lavrado na data tal, que nasci no dia ípsilon. Assentou que sou do sexo masculino, de cor branca, filho de papai e mamãe. Meus avôs paternos e maternos, que chamarei de vovô e vovó, foram identificados. Os padrinhos, não. E me darão os melhores presentes…

Ganhamos um RG, que em outros Estados não se chama RG. É um número extenso, o primeiro que devemos decorar, com a data de nascimento. Hoje em dia, também nos pedem a data de emissão do RG, e o UF em que foi emitido. Descobrimos que UF é o mesmo que Estado. Além do RG, data de nascimento, nome do pai e da mãe, data de emissão e do UF, precisamos saber também qual foi o órgão emissor. No meu caso, foi a Secretaria de Segurança Pública do UF SP. Ou SSP/SP.

Aos 16 anos, ganhamos o direito de votar e um Título de Eleitor, uma zona e uma seção. Não podemos deixar de votar, nem perder o recibo do tamanho de um bilhete de metrô, o Comprovante de Votação. Aos 18 anos, temos que ir atrás do Certificado de Alistamento Militar. Os rapazes. Mas o que valerá mesmo é o que vem depois, o Certificado de Dispensa da Incorporação, fornecido pelo Ministério do Exército, Marinha ou Aeronáutica. Depois de jurarmos com a mão no peito e diante da Bandeira nosso amor à Pátria. O documento não serve para muita coisa. Ressurge na renovação do Passaporte. Como o Título de Eleitor e os Comprovantes de Votação. Falei para guardá-los.

Nascemos, crescemos, ganhamos direitos, deveres e um CIC, depois foi denominado CPF, número que também deverá ser decorado, com seu dígito, e cobrado no preenchimento de cadastros de compras, como o de uma cafeteira. Muitos perguntarão no futuro: “CPF na nota?” Quem não tinha decorado até então, se viu obrigado.

Decoramos até então a data de nascimento, nomes do pai, da mãe, RG, data de emissão do RG, órgão emissor do RG, UF do RG e CPF. Espera. Faltaram o telefone e o DDD, o endereço e o CEP. Curiosamente, perguntam: “Você sabe o CEP?” Tem gente que não sabe? Birra em decorar outro dado importante da nossa Existência? Preguiça? Mas é o menorzinho dos números…

Começamos a trabalhar. Mais um número e série, da Carteira do Ministério do Trabalho. Que não vale muito. O que vale mesmo, e agora é requisitado em contratos e cadastros, e não conseguimos decorá-lo, por ser enorme, é o da Inscrição no Pasep, que por alguma razão é chamado de PIS.

“Você sabe o PIS?”, nos perguntam.

Nada de pânico.

PIS é Pasep.

O câmbio está favorável, vamos emitir um Passaporte? A cada cinco anos, emitiremos um. Na Polícia Federal. Que além de caçar terroristas, contrabandistas, traficantes internacionais, investigar fraudes bancárias, políticos corruptos em operações de grande destaque, emite o documento que precisamos para conhecer o Mickey  o Pateta. Eles querem saber da nossa situação militar, se estamos em dia com o Título de Eleitor. Scaneiam nossas digitais. Até os mindinhos.

O amor chega. Você é flechado pelo cupido, conhece a outra face, a metade da laranja, e se casa.

Ganha uma Certidão de Casamento, identificada no livro xis, folha ípsilon, sob o número tal. Outro Registro Civil, o Assento do Matrimônio. Que, por alguma razão que a lógica da burocracia assim determinou, passa a ter o mesmo valor de uma Certidão de Nascimento. Como se casar fosse um renascimento. O Messias que me registrou vai para o esquecimento. O nome de uma companheira que conheci num xaveco despretensioso num boteco (e escolhi) entra na minha vasta planilha documental com a mesma relevância que papai, mamãe, vovôs e vovós (que não escolhi).

A coisa desanda. Melhor não entrar em detalhes.

O amor acaba, dizem, para simplificar.

Nos separamos. Nos desquitamos. Nos divorciamos.

Ganhamos fossa, desânimo, desconfiança, decepção e um Mandado de Averbação. Que, alegria, pode ser simplesmente equacionado em outro casamento, quando conhecemos outra cara-metade, a terceira face da laranja, e ganhamos outro Registro Civil, o Assento do Matrimônio, que também passa a ter o mesmo valor de uma Certidão de Nascimento, o renascimento, arquivando o baixo astral Mandado de Averbação, que pode ser enviado com a ex para o Azerbaijão, tomar no Baku, a capital, estriquinina.

Além de Física, nos tornamos uma Pessoa Jurídica, com a alma inscrita em Município (CCM), Estado (IE) e num cadastro nacional. Outro número a ser decorado, o CNPJ. Depois da barra, costuma vir zero, zero, zero, um, que alguns dizem “mil ao contrário”.

Placa do carro? Sim, melhor decorar. Pois você pode escutar pelos alto-falantes do shopping, quando for trocar a cafeteira, que veio com defeito, “favor proprietário do carro placa…” Quando anunciam a placa do seu carro por um alto-falante, deu merda. Nunca é uma notícia boa. Você não ganhou um sorteio, nem uma viagem para conhecer o Mickey.

Falei do Renavan, do recibo do IRPF anterior?

O alívio nessa estressante e burocrática Existência vem no final. Sua Certidão de Óbito.

Nem precisa se preocupar.

Dela, não precisa correr atrás, tirar cópias, autenticar, decorar o registro.

O problema não é mais seu, mas dos patetas que ficaram.

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