brasileiros mentem sem qualquer cautela

brasileiros mentem sem qualquer cautela

Marcelo Rubens Paiva

18 de novembro de 2012 | 20h28

 

Dizem que um suíço nunca mente. Que os franceses também, mas não falam a verdade. Que um alemão omite. E que o único momento em que um inglês sorri é quando está mentindo.

Um japonês quando é pego mentindo chora e se humilha na frente dos companheiros. Os mais dramáticos se matam. Os tradicionais cometem harakiri diante das câmeras.

Americano não mente, joga com as palavras. O caso mais notório foi o de Clinton, que negou peremptoriamente ter tido relação sexual com a estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky, apesar da mesma ter no armário um vestido azul manchado do resultado do gozo presidencial.

Acusado de perjúrio e obstrução da justiça, Clinton se safou do impeachment com uma calculada manipulação de palavras, o que deve ter aprendido com o clã Kennedy. Ele e Monica até fumaram charutos. Fizeram de tudo, menos “intercourse sexual”. Aliás, se tivessem feito, o que aquela primeira-ejaculação fazia na lateral do vestido azul, que depois foi periciado?

Clinton é ainda um dos presidentes americano mais populares da história. Menos em casa.

Já os brasileiros. Ah, os brasileiros… Mentem sem qualquer cautela. Alguns conseguem mentir dentro de outra mentira. Como aquele político corrupto que nega ter dinheiro depositado em paraíso fiscal até o banco de lá tornar público, apesar do sigilo, os extratos, e perguntar de onde vem tanta grana. O malandro ainda afirma que doa tudo se for verdade. Claro que nunca cumpre a promessa.

Tem brasileiro que mente quando chega atrasado, sonega impostos, é pego na cama com outra, é flagrado em blitz, fura fila. Primeiro se faz de desentendido, depois mente. Imagino quantas vezes um policial rodoviário escutou:

“Seu guarda, a lâmpada deve ter queimado agora, quando saí da revisão para a estrada estava tudo acendendo.”

“Pneu careca? Olha aqui os sulcos.”

“Ih, deixei o documento em casa, no bolso do paletó de dois botões, que está na moda, e a anta da minha mulher levou para a lavanderia.”

“Extintor vencido? Pois é, eu estou indo agora comprar um. O senhor sabe onde encontro um baratinho?”

“Eu não estava correndo, apenas tive que me desviar de um cachorro e acelerei. Um cocker spaniel. Será que ele ainda está vivo?”

O Brasil já começou como uma mentira. O descobrimento do Novo Mundo foi repleto de espiões, agentes duplos, segredos, alarmes falsos. Ou alguém acredita que Cabral aportou por estas praias casualmente?

Quando Pero Vaz de Caminha escreveu “aqui plantando tudo dá”, já tinha espanhol tomando o verdadeiro açaí do Amazonas, assando um espeto no Sul, dançando lambada no Maranhão, e francês desenhando índia nua na Baía de Guanabara e ensinando french kiss.

Aliás, Caminha esqueceu de colocar a nota de pé de página: “Aqui tudo dá com altos investimentos em irrigação rural e até desvio de rios.”

Dom Pedro I não proclamou a Independência num enorme cavalo branco, veículo preferido de seu ídolo, Napoleão, mas numa mula pau-pra-toda-obra, o utilitário da época. E estava às margens do Ipiranga debruçado com uma cavalar diarreia. Seu brado não deve ter sido retumbante, mas um sussurro. E há quem afirme que o melhor bordel da região ficava coincidentemente às margens plácidas.

Seu pai, Dom João, que era incapaz de reconhecer qual daqueles guris era seu filho legítimo, disse antes de partir pra Lisboa que faria um saque rápido na única agência de banco do Brasil, criativamente chamado de Banco do Brasil. Rapou todo o ouro depositado no cofre.

O fim da escravidão, uma espécie de promessa de campanha da Família Real, só aconteceu de fato quando generais marchavam para Proclamar a República.

Getúlio assumiu para por um fim à política de cartas marcadas do café com leite. Transformou seu Estado Novo numa clássica e velha ditadura. Generais deram o Golpe de 64 com apoio de civis, prometendo entregar-lhes o poder o quanto antes. Este “o quanto antes” durou 21 anos.

A mentira em que só a militância fiel acredita é aquela “assinei sem ver”. E a necessária para a governabilidade é “não sabia de nada”.

 

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