Brasileiro pode sim não torcer na Copa

Brasileiro pode sim não torcer na Copa

Marcelo Rubens Paiva

15 Junho 2018 | 11h34

 

Muitos se chocam com a falta de interesse da maioria de brasileiros pela Copa do Mundo (53%, segundo Datafolha).

Eu vou torcer.

E ver todos os jogos.

Se a Seleção for desclassificada, continuarei vendo.

O futebol é mágico, já parou guerras, mas é um direito justo não torcer.

Estranho era, antes, aquela unanimidade artificial: todos juntos em ação, pra frente Brasil.

É um direito não gostar de futebol.

Não querer se envolver, se decepcionar, sofrer, torcer, acompanhar.

É justa a decepção com a Seleção.

Pode sim não torcer na Copa. Não é obrigado a pintar a rua de verde amarelo, colocar bandeirinhas na fiação, decorar a casa ou o carro com bandeiras, pintar a cara.

É justo não se identificar com os heróis da ostentação, comandado por dirigentes indiciados, corruptos, presos, envolvidos na hipocrisia que dita que o importante é competir.

Se o importante é competir, por que falamos rumo ao penta, ao tetra, ao hexa, e não simplesmente rumo a uma boa competição?

Se é, por que chegar num digno segundo lugar, como na Copa de 1950, representa a maior e mais traumática derrota nacional, junto com o 7 x 1.

Se é, por que chegar num digno segundo lugar, como na Copa de 1998, na França, deu até em CPI?

É um direito dizer “sou brasileiro, sem orgulho”, trata-se de um dos países mais retrógados e conservadores em direitos fundamentais, em que teses progressistas são barradas por uma classe política não laica.

É digno admirar outras culturas, outros países, outras etnias, outras religiões, torcer por outro futebol.

É justo não cair na empáfia global, detestar anúncios de patrocinadores, que exaltam um nacionalismo que beira a histeria.

É justo querer distância do ufanismo dos que pagam para colar sua marca no rastro de um time de futebol.

Copa é a pátria? Não. É uma competição.

A pátria de fato é um estado nação desigual e socialmente injusta, violenta e corrupta, instável e rica, sem solucionar sua pobreza.

É um direito torcer, se quiser, para outra seleção.

Minha avó, nascida em Modena, que veio ao Brasil com 5 anos, torcia para a Azurra (Itália).

Num país de maioria descendente de todos os cantos do planeta, é justo querer torcer pelo país de origem, o país dos pais, dos avôs.