bonito à beça

bonito à beça

Marcelo Rubens Paiva

21 de março de 2011 | 18h17

Tudo em relação à visita de Obama ao Rio parecia perfeito.

Visita bem-vinda e mais que esperada.

Afinal, que ele tem cara de brasileiro…  Ah se tem.

Camisa do Mengão na chegada.

Hotel em Copa, linda vista, segurança perfeita.

Futiba na City of God e samba pra mulher da escola mais inovadora, Unidos da Tijuca, na City of Samba.

PSTU armou o barraco pelo twitter, convocando a militância para gritar “Obama Go Home!” na Cinelândia. Com faixas que diziam “Pré-Sal É Nosso!”

Ia ser um tumulto. Baderna desnecessária.

Mas transferiram o evento para a parte de dentro do Municipal.

A elite dos 3 poderes estava presente.

Convidaram alguns afro-descendentes para mostrar que, diferentemente do que pensava W. Bush, sim, temos negros no Brasil [para quem não se lembra, Bush perguntou ao Lula se há negros no Brasil].

Estavam lá Gil, Alcione, o onipresente Lázaro Ramos e sua linda mulher Tais Araújo, grávida, de branco- pura poesia

Obama começou a falar antes dos jogos da rodada.

Na hora em que a família brasileira almoça.

Todas as mulheres da minha família suspiraram, enquanto a macarronada era servida com berinjela e parmegiana.

Descobrimos que todas as mulheres da família estão apaixonadas pelo Obama. Tuitei isso, e meus seguidores disseram que em suas casas também era uma babação só.

Obama é gato, lindo. Homem pra casar.

“Helloy Ci-da-de Marravilhosa”

Fez piada sobre o clássico Vasco X Botafogo.

Citou Orfeu, Jorge Ben Jor.

Parecia um animador de auditório.

Deu tchauzinho para a galera do foyer do quarto andar.

Mas só falou em democracia.

Estranho.

Ora, seu discurso não era para nós, mas para o povo das Nações Árabes, que incendeiam a região, para tirar tiranos ou reis ou líderes tribais que estão há décadas no Poder e experimentar um pouco de modernidade política.

Seu discurso era para a Líbia, seus eleitores e o mundo, que via pela CNN 110 mísseis serem lançados de sua máquina bélica.

Afinal, o mundo avança, as redes sócias mudam a rotina de todos os povos, e temos mais uma guerra ao vivo pela CNN e balas traçantes riscando os céus noturnos agora de Trípole.

Mas que cara-de-pau esse Obama…

Ele ainda lembrou a luta de Dilma pela democracia nos anos 60-70 e as manifestações e passeatas ali na Cinelândia.

Obama falava para seus aliados, não para nós. Visava à reeleição.

E esqueceu de dizer que seu país, os EUA, apoiava a ditadura brasileira.

Seria uma boa oportunidade para pedir perdão.

Apoiou os golpes de estado daqui, do Chile e da Argentina, temendo a nacionalização de suas companhias por governos democratas mas considerados socializantes. E entupiu nossas polícias com agentes da OSS e CIA especialistas em tortura.

Esqueceu de dizer que seu embaixador foi o primeiro a ser sequestrado em 1968 pela guerrilha brasileira, que estudantes apedrejavam empresas americanas, queimavam bandeiras e pichavam “Yankes Go Home!”

Para terminar, citou uma frase de Paulo Coelho bem ao estilo “só vocês conseguem superar seus problemas”.

Poderia ter terminado com Lima Barreto, Machado de Assis, negros como ele.

Ou um poeta mais digno, Castro Alves, Drumond.

Vinicius?

Ou Monteiro Lobato, o primeiro a escrever que um negro seria presidente americano.

Sua assessoria errou feio ali no “quote” [citação] de um grande escritor.

Ou não. Mostrou com quem Obama se identifica.

Amamos Obama, seu sorriso e simpatia.

Derrotar Bush foi um alívio.

E tivemos uma tremenda lição de política: como falar sem dizer nada, mandar mensagens subliminares, sorrir e encantar, usar o emocional, ao mesmo tempo em que sua máquina continua jogando mísseis, oferecendo sondas de petróleo, tecnologia para jogos olímpicos e caças, enquanto nossas commodities são taxadas lá.

Ao final, uma visitinha ao Cristo Redentor foi a cereja do bolo.

Bolo diet, com gosto de nada, mas bonito à beça.

Deve estar no Chile agora dizendo como Santiago é bela, Victor Jara é fenomenal, e como a força do povo chileno, demonstrada pelo resgate heroico dos mineiros, é inspiradora.

Citou Bolano ou Neruda?

Será que foi por saber disso que Lula nem deu as caras?

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