Bolsonaro usa nome de general em vão

Marcelo Rubens Paiva

24 de junho de 2020 | 10h43

Quando justamente é acusado de boicotar a democracia, Bolsonaro tem a manha de homenagear quem o prendeu e a defendeu.

No domingo, dia 21, voou às pressas para o Rio de Janeiro para o velório de um paraquedista da Aeronáutica, cuja morte foi filmada e viralizada, já que o paraquedas não abriu.

Surpreendentemente, oportunista, citou o general Leônidas Pires Gonçalves no discurso, como exemplo do caráter democrático das Forças Armadas.

Se antes costumava homenagear a banda podre do Exército, a tigrada composta por elementos envolvidos em crimes de tortura, como coronel Brilhante Ustra, Currió e o general José Antônio Nogueira Belham, cuja mulher empregou no seu gabinete de deputado, por que usou justamente o nome do militar exemplar da transição democrática?

Leônidas foi o general que garantiu a posse do vice Sarney, no tenso período da transição da ditadura para a democracia e morte de Tancredo.

Foi quem negociou a volta dos militares aos quarteis e segurou os ímpetos golpistas do Clube Militar.

Era considerado “o jurista” pelos civis.

Foi o primeiro comandante do Exército no novo governo civil.

Segurou o ataques e atentados da linha-dura, como a turma do general Sylvio Frota, a quem o general Heleno, padrinho de Bolsonaro, serviu.

E, o mais surpreendente. Sob seu comando que o jovem capitão provocador e agitador Jair Bolsonaro foi preso, julgado e afastado.

Leônidas submeteu Bolsonaro ao Conselho de Justificação. Considerava o capitão “aético e incompatível com o pundonor militar” por “mentir durante todo o processo”.

Bolsonaro tinha planos com croquis de pôr bombas em protesto contra os baixos salários.

Fraco na prática da negociação política, impaciente com adversários, de temperamento desequilibrado e esqueletos de dinossauros no armário, Bolsonaro se cerca de militares para ser blindado, oferecendo-lhes emprego no serviço público (a três mil deles) e uma aposentadoria única.

E se comporta como se tivesse sido um capitão exemplar, quando na verdade era considerado louco, indisciplinado, e fora convidado a se retirar.

Leônidas se estivesse vivo colocaria o dedo na cara do presidente e lhe daria um pito daqueles.

Como o fez em 1987, como ministro do Exército do primeiro governo civil desde 1964.

 

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