Estranhou? Bolsonaro avisara que ia governar com militares

Estranhou? Bolsonaro avisara que ia governar com militares

Marcelo Rubens Paiva

27 Novembro 2018 | 10h39

Uma das condições sine qua non para um regime ser considerado democrático é o controle civil das Forças Armadas (Defesa).

Mas desde a campanha Bolsonaro avisou: seu ministério será com a presença de miliares.

Presença num governo civil eleito democraticamente, que tem causado estranheza e medo entre republicanos.

Estranheza, pois as urnas deram o aval que seu governo precisa para se instalar, sem precisar recorrer às armas.

Medo, por conta do trauma da última vez que a intervenção ocorreu, em 1964.

Além do vice, são quatro militares já anunciados, Defesa, Secretaria de Governo, CSI e Ciência e Tecnologia, com um piloto do Aeronáutica barra astronauta entre eles.

O presidente eleito não é burro.

Tem uma intuição política que o transformou num fenômeno eleitoral.

Sabe que muitos dos seus votos foram para quebrar o sistema de desgastados clãs político (PT, MDB e PSDB).

O eleitor quer renovar a política, numa democracia partidária fragmentada e sem prestígio, com um Judiciário envolto em contradições, que prende e solta sem uma lógica jurídica, apesar da lei ser uma só.

Cinco vezes deputado federal eleito, sabe também que seu partido é uma colcha de retalhos sem um perfil claro, um ideal comum, que juntou espertalhões e birutas bons de voto, como um ator pornô.

O presidente eleito não coloca a mão no fogo por seus filhos, campeões de voto, que o cercam e, com declarações e atitudes estapafúrdias, atrapalham tanto quanto ajudam e precisam de um eventual puxão de orelha.

Só que papai anda meio ocupadinho agora, criançada…

Por outro lado, as teorias da conspiração também se justificam.

Foi logo depois da inclusão, em 1 de outubro de 2018, do general de reserva Fernando Azevedo e Silva no time de assessores que o ministro Dias Toffoli, 15 dias depois de assumir a presidência do STF, passou a chamar o Golpe de 64 de “Movimento de 64”, afinando o discurso com os militares.

O advogado criminalista José Carlos Dias disse que era uma má ideia a inclusão de um general no templo do Judiciário e lembrou que o Supremo “jamais precisou de uma assessoria militar”.

A indicação foi do general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército.

Foi descoberto um campo fértil para aqueles que falam em intervenção miliar no Judiciário, já que se dera menos de um mês depois da facada que o candidato levou no abdômen.

Bolsonaro depois anunciou o general Mourão como vice, quando seus concorrentes anunciavam mulheres, em busca do voto delas.

Janaína Pascoal chegou a ser aventada.

Segundo jornalista Jânio de Freitas, Mourão foi uma exigência dos militares, que testemunhavam o despreparo do líder das pesquisas e de olho nos rachas das instituições democráticas, inclusive no STF.

Seria um gesto patriótico dos militares uma intervenção num governo balístico com declarações racistas, misóginas, homofóbicas e xenofóbicas, cujo eleito não emenda uma frase na outra sem agredir alguém.

Assim como o capitão Bolsonaro fazia, quando ainda estava no Exército.

A quantidade de militares no Executivo é inédita em tempos democráticos.

E o suposto “interventor” do STF, general Azevedo e Silva, virou o comandante do Ministério da Defesa.

Daqui a uns anos, quando começarem a abrir o bico, saberemos o que de fato aconteceu nos bastidores da campanha de 2018.

E se o general Azevedo e Silva participou indiretamente de decisões do Supremo que prejudicaram candidatos concorrentes.