Blecaute

Blecaute

Marcelo Rubens Paiva

11 de novembro de 2009 | 09h54

O apagão de ontem mostrou o poder de uma nova mídia, que bateu todas as outras: a do celular 3G.

Só quem o tinha sabia detalhes do que acontecia, poder antes exclusivo das rádios. Porém, muitas emissoras saíram do ar.

Quem acessava a internet pelo seu celular, lia o Twitter, os portais de notícia, mantinha os outros pedestres informados. Mandei muitos torpedos para gente que “cancelava” o programa agendado, a festinha do MARCELO TAS, pois acabara a luz “em casa”.

É em todo Brasil, nega. Até no Paraguai, eu respondia.

Jura?

Minha irmã Eliana, ilhada no décimo sétimo andar de um apê no Leblon, Rio, até perguntou: “Como você sabe?” Da janela, ela notava que parte da zona sul estava às escuras. Mas sem rádio com pilhas, TV, internet, ela também estava às escuras.

Diferentemente do apagão de 1999, cujos boatos chegavam pelo celular [“minha mãe diz que lá em Santa Catarina também tá sem luz”; “meu primo de Salvador também”, gritavam no cinema em que eu estava], neste, um mostrava para o outro o visor atualizado do seu 3G. Que também servia de lanterna.

No shopping, depois de ir ao lançamento do livro do Caversan, me preparava para entrar no elevador e com o Kiko ir à festa do TAS. Entramos no elevador, e ele não saiu do lugar.

Descemos pela rampa da garagem e fomos pra casa do Kiko, dar um tempo lá. Não achei a cidade caótica, apesar da falta de semáforos. Nos cruzamentos, uma estranha e pacífica ética nascia do caos.

Apagões servem para nos sentirmos escoteiros ou em acampamento.

Ana Júlia, sua filha, tocou violão. Vi a menina nascer. Hoje, compõe músicas próprias, canta afinada, com a voz potente. Velas nos iluminavam. Há tempos eu queria escutá-la, já tinham me dito o quanto era boa. Precisou de um blecaute para rolar.

Muitos amigos começaram a me ligar, e isso sempre acontece em apagões. Fazem referências ao meu livro BLECAUTE. Me chamam de profético. Nem tanto.

O livro BLECAUTE está mais para KALKI, de Gore Vidal, que também inspirou ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de Saramago, do que para os apagões rotineiros. Na verdade, é um livro sobre apocalipse e falta de vida, não apenas falta de luz elétrica. Mas acho a lembrança simpática. Eu mesmo não me lembro.

E lamentei pelo TAS, que teve a festa de 50 anos micada. Bem, na minha, também faltou luz bem no meio, e ele estava lá. Será que não se deve comemorar os 50 anos?

Ao final, era 1h, e levei de carro a nossa editora ISA PESSOA para um hotel na PAULISTA. Contou que na festa de prêmio literário de que vinha nem se sentiu a falta de luz, graças aos geradores da Casa Fasano. E que não havia táxis na cidade. Foi até a casa do Kiko, nos encontrar, de carona.

Achei tudo calmo e bem organizado. Já havia cruzamentos bloqueados, ou com cones, indicando outro caminho, sugerindo mudanças de rotas. As pessoas dirigiam com calma, solidárias. Muita gente papeava em rodas. Muitas pessoas sentadas no calçadão da Paulista.

Apenas os edifícios da elite dos Jardins estavam iluminados, graças aos seus potentes geradores. Assim como a padaria Galeria dos Pães, na Rua Estados Unidos, lotada e funcionando normalmente. Que inveja. Nessas horas ser rico deve ser bom.

Como no meu prédio não tem gerador, dormi no sofá da sala da casa da minha irmã Vera.

Hoje de manhã, a golden dela me trouxe o jornal. Tomamos um café da manhã em família. Vim a pé para o meu apê.

A feira da rua está rolando. Dona Maria, a japa do melhor pastel da cidade, está lá. A pancadaria da obra do vizinho começou, como há 6 meses. A internet está normal. Tinha até o ESTADÃO com notícias do apagão na porta.

É, a vida continua…

+++

Escrevi a crônica abaixo no ano passado, para a revista da Livraria Cultura. Me pediam uma comparação entre Ensaio Sobre a Cegueira e Blecaute.

CEGUEIRA E BLECAUTE

Na verdade, o título acima deveria estar em itálico ou entre aspas- dependendo da norma da publicação-, já que anuncia a comparação entre duas obras literárias, que são diferentes em estilo, mas oferecem uma trama de pano-de-fundo parecida: Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (Companhia das Letras) e Blecaute (Objetiva), o meu segundo romance- primeiro de ficção.

Sem abusar da vaidade, a pauta foi sugerida pela Revista da Cultura, já que, apesar de, também entre aspas, escrevermos seguindo as regras da mesma língua, Saramago é um Prêmio Nobel, vendedor de milhões de exemplares, e eu sou um escritor do Sul do Equador, atualmente mais conhecido como o roteirista do documentário sobre o Corinthians.

Ensaio Sobre a Cegueira é de 1995. Virou filme pelas mãos e lentes de Fernando Meirelles. É narrado por um velho, que se desloca por uma cidade desconhecida, em que todos ficam temporariamente cegos, devido a uma praga desconhecida. Apenas a mulher de um oftalmologista é imune à doença- os personagens não têm nome. Para sobreviver, ela finge que é cega.

A praga começa de repente, já na primeira página: um motorista “se vê” cego no meio do trânsito. Ele espalha o vírus, que é rápido, impiedoso. O caos se estabelece. A civilização e os pactos criados são rompidos.

Pouco a pouco, desperta a fera corrupta, predadora e interesseira que há domesticada em muitos. A frágil aliança entre os homens é substituída pela competição entre aqueles que acreditam na união para a sobrevivência, e aqueles que apostam na anarquia.

Blecaute foi escrito dez anos antes. Pode virar filme pelas mãos de Caito Ortiz, da Pródigo Filmes. Além do Brasil, foi publicado na Alemanha. Vendeu 280 mil cópias, um estouro que, segundo muitos, seguiu a esteira do sucesso do meu primeiro livro, Feliz Ano Velho.

Rindu, Mário e Martina ficam presos numa caverna do Vale do Ribeira. Quando saem, descobrem que as estradas e São Paulo estão desertas. As pessoas viraram estátuas. Apenas os animais sobreviveram a uma misteriosa praga.

Entre explorar e esperar na cidade “o fenômeno” acabar, decidem morar num bunker e esperar. Aos poucos, é também rompido o pacto de civilidade. Passam a agredir tudo em volta, dinamitar monumentos, fazer excentricidades. Para, depois, considerarem o amigo um inimigo.

Cegueira tem final feliz e sugere que precisamos de uma catástrofe eventual para enxergamos nossas contradições, desenharmos a paz e um rumo. Todos voltam a enxergar. Muitas metáforas emergem desse plot: estamos cegos diante da miséria humana.

“Por que foi que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, queres que te diga o que penso, diz, penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem.”

Blecaute não explica o fenômeno e termina sem solução. Os personagens sobreviventes estarão para sempre solitários, numa civilização que se foi.
Escrevi inspirado no movimento punk e no desespero que vivíamos perante a possibilidade da destruição por uma guerra nuclear e aquecimento global.

Antes dele, livros e filmes propunham uma trama apocalíptica, para desvendarmos alguns segredos da civilização. Como Kalki, de Gore Vidal. Informei no prefácio que meu livro era inspirado na série Além da Imaginação, produzida no clima do pós-guerra. Dois filmes, A Última Esperança da Terra, com Charlton Heston, e a sua refilmagem, A Lenda, com as nossa Alice Braga, mostram Nova York deserta, também atacada por uma praga, e a luta contra seres mutantes.

Acredito que Saramago foi inspirado pela aids e ebola, vírus que ameaçam a espécie.

Enquanto abuso da linguagem coloquial, Saramago tem um estilo formal, apesar de não pontuar os diálogos, uma brilhante técnica, que ilustra como, se fecharmos os olhos, nos vêm as falas ao redor.

Porém, sem dúvida, em comum, há o sentimento que existe em todas as religiões, está narrado na Bíblia, e que aflige o homem, o de que um dia tudo isso acabará, que não haverá mais olhos para ver um Van Gogh, ouvidos para escutar um Mozart. A beleza criada pelo homem pode ser destruída por ele mesmo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: