Beber enquanto que o navio afunda

Beber enquanto que o navio afunda

Marcelo Rubens Paiva

12 Setembro 2018 | 16h50

Há 20 anos, eu participava de reuniões semanais no apartamento art déco da atriz Bete Coelho, em frente à Praça Buenos Aires, Higienópolis.

Fui levado por Nando Alves Pinto e pela surpreendente Luciana Vendramini, para ajuda-los na adaptação teatral de O Banquete, de Platão, um dos diálogos do filósofo grego, cujo tema é o amor. No comando, a inquieta Daniela Thomas.

O convescote na casa do poeta trágico de Atenas, Agatão, regado a bebida, comida e muita conversa entre amantes, filósofos, poetas e até um comediante, em que participaram Sócrates, Aristodemo, Fedro, Pausânias, Erixamaque, Aristófanes, Alcibíades, seria transportado para os anos 1990.

Nosso jantar teria jornalistas, críticos, cômicos. Nosso amigo Otavio Frias Filho era um personagem.

Fiz mais de três versões. Nunca alcançava o resultado final desejado por Daniela. O projeto miou.

A impressão que eu tinha era de que Daniela ainda não sabia exatamente o que queria.

Pois, acredite, O Banquete de Daniela virou filme, “uma celebração do amor”, e estreia em cinemas amanhã, 13/09, quinta-feira. Depois de duas décadas daqueles encontros.

É o sexto filme, o segundo solo, daquela que veio da cenografia teatral e se firma como uma grande diretora. Que sai logo depois de Vazante, filme deslumbrante sobre um casamento arranjado no tempo do Império e da escravidão.

Sem Bete, mas com um elenco deslumbrante: Drica Moraes, Mariana Lima, Gustavo Machado, Bruna Linzmeyer, Caco Ciocler.

Jantar que rola na casa de Nora (Drica), que convida: “Vamos beber enquanto o navio afunda”.

Conta a autora, filha de Ziraldo, que na infância do Rio de Janeiro dos anos 1960 e 70, teve a casa, um apartamento pequeno de Copacabana, também um estúdio de desenho, o aparelho de oposição política, redação de jornal e sala de jantar, em que os filhos circulavam com a turma do Pasquim, escritores, jornalistas, desenhistas, atores, músicos, diretores.

“Escrever O Banquete, portanto, não foi tanto criar diálogos, mas lembrar das conversas, do jeito engraçado e despretensioso, de gente que, fora das quatro paredes, fazia a diferença na cultura, na política do país, mas que ali, protegida pela amizade, pelo álcool e privacidade, não se importava em ser desbocada.”

O feminismo, os movimentos identitários e de gênero estão nos debates do jantar agora transposto para 1990.

No filme, de planos sequências enormes, como numa peça de teatro (ou Jantar Para André, de Lois Malle), o poderoso editor de uma revista seu aniversário de casamento e pode ser preso naquela noite, já que escreveu uma carta aberta com graves denúncias contra o presidente do país.

Poderia ser baseado em Paulo Francis, Cony, Ênio da Silveira, Herzog, a redação do Pasquim, que eram presos por conta de suas tiras e tiradas durante a ditadura militar.

“O jantar se passa em tempo real, e filmá-lo foi uma experiência extraordinária. Planos-sequência de quase uma hora, sem intervalos, sem correções. A câmera em contínuo movimento de Inti Briones poderia focar qualquer um dos atores, a qualquer momento. No fundo da sala, um espelho de fora a fora não permitia a qualquer um deles a mínima desconcentração. Foi intensidade máxima.”

Claro que com música de Antonio Pinto, nosso ‘Oscar Nominated‘.