bandeirantes assassinos

bandeirantes assassinos

Marcelo Rubens Paiva

04 de outubro de 2013 | 14h38

 

Curioso como nós, branquelos, vindos da Europa, ficamos irritados com o ato de vandalismo e depredação cometido contra a linda escultura Victor Brecheret, inaugurada em 1953, no aniversário de 399 anos de São Paulo, em homenagem às Bandeiras.

Movimento que buscou ouro, pedras, varreu aldeias, decapitou índios e os escravizou.

Com 240 blocos de granito de 50 toneladas, nela estão representadas 29 figuras humanas, entre bandeirantes, índios, mamelucos e negros.

Manifestantes atiraram tinta vermelha na obra, ao final de um ato de indígenas, que protestavam contra a PEC 215– que transfere a demarcação das terras indígenas da União para o Congresso Nacional.

No Ibirapuera. O que índios faziam no Ibirapuera?

Vieram pela Tamoios ou Anhanguera? Subiram a Pacaembu ou o Anhangabaú?

Evitaram a Bandeirantes, lógico, porque não são bobos. São espertos, esses nativos.

Manifestantes ainda escreveram “bandeirantes assassinos”.

Que ingratos. Trouxemos progressos a primitivos que não conheciam Jesus, cigarro com filtro, nem roupas de baixo.

Viviam com os balangandãs soltos, à merce de predadores.

A limpeza do Monumento às Bandeiras, pichado, custará R$ 12 mil só em solventes.

Pena que Raposo Tavares não estava entre nós, para dar um jeito nesses penetras silvícolas.

Nem Anchieta, para catequizá-los.

Ou Borba Gato, que nem se move.

“Meu pai orgulhava-se da solidez dessa obra. Ele costumava brincar que, mesmo que caísse uma bomba atômica em São Paulo, ela permaneceria intacta”, disse o engenheiro Victor Brecheret Filho, de 71 anos, ao Estado, filho do escultor.

Sobre a pichação, Brecheret Filho disse estar “espantado”, “chocado” e “horrorizado”. “Estamos vivendo um período de pré-barbárie. Até pouco tempo atrás, o vandalismo não atingia locais que as pessoas foram educadas a respeitar”, comentou. “ Agora, nada mais é respeitado. A convivência harmônica está acabando.”

Ninguém acredita que o protesto tenha sido contra Brecheret, escultor genial, que nos enche de orgulho.

O repórter Bruno Paes Manso identificou um dos pichadores, que na entrevista pediu para ser chamado de Bakunin e explicou:

“Aquele monumento representa os bandeirantes e muita gente não sabe quem foram eles. Os bandeirantes foram, na verdade, grandes estupradores e assassinos de índios. Aquele monumento representa toda uma era de opressão e segregação aos índios. Todos os esses monumentos representam símbolos da opressão. A maioria não sabe, está rolando agora uma emenda constitucional, a PEC 215, que pretende acabar com a demarcação indígena. A gente abraçou essa causa, nós do Pixo Manifesto Escrito. Porque a nossa cultura indígena é das poucas coisas que nos restam. Fomos civilizados por uma civilização ocidental que chegou aqui e destruiu nossa cultura. Fazendeiros e ruralistas continuam assassinado os índios e ainda querem mais.”

Enquanto aguardam um pedido de desculpas, reparações e estátuas em homenagem a eles, resta aos verdadeiros donos dessas terras o protesto.

[fotos de Felipe Rau e Daniel Teixeira]

 

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