Bacurau versus Vida Invisível

Bacurau versus Vida Invisível

Marcelo Rubens Paiva

14 de novembro de 2019 | 12h22

A indicação para representar o Brasil no Oscar gera uma polêmica infrutífera, mas divertida: por que Vida Invisível, e não Bacurau, no Oscar?

Começou na imprensa. Como os dois estão agora nas telas, ela se entende para o bar.

Anna Muylaert presidiu a comissão com Amir Labaki, Ilda Santiago, Walter Carvalho e outros da Academia Brasileira de Cinema que decidiu pelo filme de Karim Ainouz, numa votação apertada.

Já ouvi até um exibidor ironizar: é a guerra fria entre Ceará e Pernambuco. Terras de Karim e Kleber Mendonça, os diretores.

O veterano crítico e professor de cinema, Inácio Araujo, é um defensor quase militante de Bacurau. Cita Glauber Rocha e entra em réplicas e tréplicas no jornal (Folha de S. Paulo).

Num surto nacionalista, chamou o colunista e colega, Demétrio Magnoli, de “direita civilizada”.

“… Bacurau é um filme sobre resistência e de resistência. Contra entrega do Brasil a estrangeiros (assassinos ou não), contra o neorracismo, contra a supremacia suposta das pessoas do Sudeste sobre as do Nordeste, pela vontade de viver contra a vontade de matar. É um filme direto, feito para ser compreendido por qualquer pessoa. É um cinema que busca se aproximar do público. De um público que aplaude a violência reativa ali representada, talvez porque a esquerda (e os democratas em geral) se sintam tão indefesos, tão incapazes de articular uma resposta à cotidiana barbárie instalada no país”, escreveu.

Outro crítico, Pedro Butcher, entrou no debate, e gostei de como começou: “E cá estamos nós de novo, discutindo o Oscar como se fosse uma coisa séria. Mas o pior é que é —especialmente nas circunstâncias atuais.”

É?

Virou obsessão nacional ganhar um. Especialmente porque a Argentina fez 7 x 0 – os hermanos ganharam com A História Oficial, O Segredo dos Seus Olhos, mais dois com o músico e produtor Gustavo Santaolalla e os roteiristas de Birdman, os argentinos Nicolás Giacobone e Armando Bó.

Glauber ignorava Hollywood e Oscar. Se recusava a dirigir produções “amé-ricanas”. No auto-exílio, foi para Itália, França, Cuba, Congo, não para LA.

Quanto contei para o roteirista Guilherme Arriaga que fiz faculdade de Radio e TV (hoje Audiovisual) na melhor universidade brasileira (USP), e que meu curso de roteiro durava quatro meses, ele quase caiu para trás. Em qualquer faculdade, o curso de roteiro costuma ser dois anos.

A falta de um Oscar enaltece nossos complexos.

Vamos ser felizes. Temos uma indústria forte, que precisa e pode ser sustentável: nossa BROLYWOOD.

E um mercado de 210 milhões de brasileiros, mais latinos e países de língua portuguesa.

E mais. Quem é obcecado pelo Oscar quer ganhar com um filme cujo bandido é um grupo de americanos invasores, e o ápice é quando um brasileiro estoura a cabeça do gringo? Tá doido?

Concordo com Butcher: “Dois elementos, a meu ver, tornavam as chances de Bacurau mais remotas: a violência gráfica (basta checar a lista dos indicados para ver a ausência de filmes violentos na categoria) e, sobretudo, a crítica aberta aos modos de dominação americanos. O liberalismo de Hollywood tem limites muito claros, e o mais gritante deles é o olho torto em relação a posicionamentos críticos explícitos às políticas do país.”

Como diria Caetano: “Viva Cacilda Becker!”