As garotas do colégio

As garotas do colégio

Marcelo Rubens Paiva

05 Fevereiro 2010 | 12h35

Já falei diversas vezes aqui das garotas do Colégio Andrews, do Rio, onde estudei dos 6 aos 12 anos.

E me pergunto sempre o que havia de mágico nelas, além de ciceronearem com carinho um paulistinha recém-chegado, tímido, sotaque italianado, e ainda sem uma identidade carioca.

Um, não, dois. Edu também chegara de São Paulo. 1 ano antes.

Pois elas nos adotaram, já que éramos vítimas da ira bairrista dos veteranos. Mostraram a lanchonete, os rituais, a usar o uniforme, a se esconder na hora do hino.

Roberta [primeira da esquerda] e Isabel [primeira da direita] dividiam mesas conosco, trabalhos, ajudavam nas aulas de música e nos defendiam dos pequenos vândalos.

O que fascina nesse tempo de escola é que as garotas são tão ou mais fortes que os garotos. É um mundo temporário de igual para igual, com pequenas amazonas.

Submissão feminina? Espere a gordinha aparecer no recreio e dar bofetadas em todos.

Na infância, vivemos uma utopia em que os gêneros se unem. Há correlação de forças. Um grupo não domina o outro na porrada. Garotos e garotas são uma coisa só. E tem garota que joga mais bola que muito marmanjo.

Até o sexo aparecer e estragar todo o equilíbrio. Sei lá, aos 12, 13, 14 anos? Então, Isabéis e Robertas se fecham e se apaixonam pelo garoto mais velho, mais esportista, mais rico, e os babacas paulistinhas se deprimem.

Ou se trancam e passam dias olhando o poster do pequeno astro, escutando músicas de pequenos astros, escrevendo no diário “eu amo rick martin” centenas de vezes.

Sexo é uma merda.

Paradoxalmente, afastam as pessoas, isolam as garotas, aterrorizam os garotos. Elas se trancam nos quartos. Nós, nos banheiros.

Tudo passa a ter sub texto. Interesse entra no vocabulário. Nossas amigas agora andam com os caras mais fortes, ameaçadores. Nem dá pra chegar perto.

Jogo, charme, vaidade, ego, insegurança, complexos surgem no universo das antes puras criaturas que só queriam dividir uma mesa com a garota bacana, fumar um cigarro escondido no recreio, fugir e rir da gordinha irada.

Então me mudei pra Santos e nem te conto.

Ah, as santistas… Já te falaram delas?


NÃO SOU O DA FLECHA