Amar

Amar

Marcelo Rubens Paiva

14 de maio de 2009 | 12h49

Com esses dias lindos que tem feito em São Paulo [outono é muito bom, não? dias para se reciclar. tomar decisões. se preparar para o inverno. ver as folhas caírem, para renascerem mais fortes], fico na fissura de sair andando pela cidade- que ganha outra luz, céus vermelhos-, sem risco de me molhar no final.

Fotografei este lambe-lambe que alguém espalhou por aí. Aliás, também andaram pichando a mesma frase em muros brancos.

Me lembrou os poetas marginais dos anos 70. Turma que deu em escritores e grafiteiros. E que buscava contestar pelas palavras, não pela força. Vários ditos ficaram famosos. Ironizavam dizeres políticos. Pouco a pouco tomou conta do espaço urbano. “Intervir” era o verbo.

Muitas das intervenções mexiam com a rotina de um pedestre. Provocavam debates. Um desses artistas, Tadeu Jungle, criou adesivos que distribuía, e colávamos onde bem entendêssemos:

PASSE A MÃO, PASSE O PÉ, PASSE BEM, PASSE ATÉ

FURE FILA, FAÇA FIGA
E FUJA DO FARO DA FERA

VOCÊ ESTÁ AQUI

Este último é o mais surpreendente, como um pensamento metafísico: independentemente da essência, você é o que é aqui e agora; independentemente das frustrações, você está agora aqui, olhe ao redor, viva a vida.

Colei-o no meu espelho, para todas as manhãs acordar concentrado.

O AMOR É IMPORTANTE? Eu sei disso. Quem não sabe? Imaginei o que levou alguém a sair pela cidade pregando. Será uma campanha de um site de relacionamentos ou do Movimento dos Sem-Namorado? Será uma campanha de uma marca de desodorante? De camisinha?

Ou um apaixonado se envolveu com uma pessoa titubeante, ou melhor, TRINCADA?

Muitas vezes, um cara [ou uma mina] vive uma história de amor que não se concretiza. E insiste, esperando convencer o outro lado. Se esforça para mostrar que merece uma chance. Às vezes, dura meses.

Quem já não viveu uma história dessa? Com a idade, aprende-se a distinguir quem vale a pena ser amando. A sacar onde tem história e onde tem ilusão.

Mas quem quer viver a vida com coerência?

Amar sem ser correspondido também é amar. Faz bem ser louco por uma paixão distante. Faz bem acordar e pensar nele [nela], imaginar o que estaria fazendo, sonhar secretamente, esperar um e-mail, um telefonema, um encontro. Até na ausência, há AMOR.

Porque amamos amar.

*

Ontem fui novamente ao PACAEMBU. Uma amiga perguntou, ao telefone, quando disse qual seria o meu programa noturno: “Tem show lá?” Minha resposta foi imediata: “Sim, de Ronaldo.”

Algo de novo acontece nos estádios brasileiros. Não vi um maloqueiro-sofredor na arquibancada central [laranja]. Virou programa de playboy. Claro. R$ 100 a arquibancada. R$ 150 a numerada. Apenas no trecho das GAVIÕES, ingresso a R$ 30, se via os torcedores de sempre. Porém, só cadastrados entram no gueto.

Muitas famílias, muitas mulheres, muita gente perfumada e educada. Nenhuma confusão. Europeízam o futebol brasileiro. Sai o torcedor folclórico, o desdentado do alambrado, o fanático bebum, a tia que não para de gritar. Agora, vendem pipoca e churros a R$ 4 e cerveja sem álcool.

Na hora do gol, chacoalhem os celulares; parodiando John Lennon.

A má notícia, para mim, é que na saída camelôs vendiam cópias piratas do filme FIEL– de que fiz o roteiro e ganho em cima da vendagem do DVD. Um deles me reconheceu e gritou: “E aqui está o autor do filme, pode comprar que ele autografa.”

Ufa. Votei ao Brasil de sempre.

*

Sim, ele bebe água. Registrei este flagrante.

*

Paula e Helena, duas atrizes e amigas escaladas em peças minhas. Fala a verdade. Não é animada a vida de autor-diretor? Amo essa vida.


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