Alerta contra o fascismo

Alerta contra o fascismo

Marcelo Rubens Paiva

24 Setembro 2018 | 18h45

 

Quer entender como é possível o fascismo voltar?

Originalmente, ele surgiu depois da Revolução Industrial, em que a luz elétrica, telefone, automóvel, navio a vapor deixaram milhões de trabalhadores manuais e fazendeiros sem emprego.

“Fissuras foram abertas na estrutura da sociedade que um século não será capaz de apagar”, escreveu Churchill. Muita gente não conseguia arrumar trabalho.

Hoje, a automação nas fábricas com robôs e no campo em que máquinas plantam, irrigam, colhem e empacotam, a Tecnologia da Informação que fecha comércio de rua, editoras, redimensiona o serviço de transporte, conteúdo, laser, até bancário, muitos deles auto regulamentados, enriquecem poucos, e colocam milhões nas ruas.

A Revolução Tecnológica, como a Industrial, é um campo fértil para o fascismo e criou uma fissura enorme entre pobres e ricos, cidade e campo.

Aqui e acolá, partidos de extrema-direita inspirados no fascismo têm feito a diferença em coligações democráticas (Itália, Alemanha e, agora, Suécia), e tomou o poder com Donald Trump, o turco Recip Erdogan e o húngaro Viktor Orbán.

Como o Nazista fez na Alemanha em 1936.

No livro Fascismo um Alerta, número 1 da lista de mais vendidos do New York Times, lançado no Brasil pela Planeta, Madeleine Albright nos alerta para a iminência do fascismo nos tempos de hoje

Acadêmica e primeira mulher a assumir o cargo de Secretária de Estado nos EUA, ela fala por experiência própria; sua família fugiu da Tchecoslováquia, quando tropas nazistas a invadiram em 1939.

Só uma década depois soube que seus avós, tios e primos foram mortos em campos de concentração.

Exilou-se nos Estados Unidos em 1948, quando tropas soviéticas invadiram a Tchecoslováquia. Montou grupos de estudo na escola sobre Tito, o socialismo, e Gandhi, virou professora PhD pela Universidade de Columbia, e foi embaixadora dos EUA na ONU.

“Talvez o fascismo deva ser visto menos como ideologia política e mais como forma de se tomar e controlar o poder”, escreveu.

E aponta como operam líderes fascistas: estabelecem uma ligação emocional com as massas, como a figura central de um culto, emerge sentimentos arraigados e repulsivos.

Desacreditam o Judiciário e a democracia.

A energia do fascismo é alimentada por homens e mulheres abalados por uma batalha perdida, como a de uma guerra ou a das drogas e violência urbana, empregos perdidos, a humilhação de que seu país vai de mal a pior.

“Quanto mais dolorosa for a origem da mágoa, mais fácil é para um líder fascista ganhar seguidores ao oferecer a expectativa de renovação ou prometer restitui-lhes o que perdera.”

Os mais eficientes orquestram encontros de massa com música solene, retórica incendiária, aplausos ruidosos e saudações com braços e mãos.

O opositor é ridicularizado.

Fascistas tentem a ser agressivos, militaristas. Para assegurar o futuro, transformam escolar em seminários, para os verdadeiros fiéis, ela diz. Temem o estrangeiro, fecham as fronteiras.

“Uma outra característica é a reversão do contrato social. Em vez de cidadãos darem o poder ao Estado em troca de proteção de seus direitos, o poder emana do líder, e as pessoas não têm direitos. Sob o fascismo, a missão do cidadão é servir; o trabalho dos governantes, ditar regras.”

Albright não fala de um candidato que propõe fechar as fronteiras para imigrantes, militarizar a sociedade e as escolas, faz gesto de uma arma com as mãos, é chamado de mito pelos seguidores, duvida das urnas eletrônicas, da democracia, quer acabar com bolsas e não tem paciência com o contraditório.

A ex-Secretária de Estado cita Trump. “Se pensarmos no fascismo como uma ferida do passado que estava quase sarada, colocar Trump na Casa Branca foi como arrancar o curativo e cutucar a cicatriz”.

“O fascismo não é a ausência de humanidade, mas sim parte dela. Até pessoas que se envolveram com tais movimentos por ambição, cobiça ou ódio provavelmente não tinham noção dos reais motivos ou negavam-nos para si mesmas.”

“A meu ver, um fascista é alguém com profunda identificação com um determinado grupo ou nação em cujo nome se predispõe a falar, que não dá a mínima para os direitos de outros e está disposto a usar os meios que forem necessários – inclusive a violência – para atingir suas metas. A se julgar por esse prisma, um fascista provavelmente será um tirano, mas um tirano não necessariamente será um fascista.”

E atesta: a democracia está hoje sob ataque e recuando.