ainda dá tempo

ainda dá tempo

Marcelo Rubens Paiva

07 de agosto de 2009 | 16h27

“Ainda dá tempo para repartimos o último cigarro”, me disse uma garota, ontem à noite.
“É Cazuza?”, perguntei. Parece, não?
“Nada disso. É seu”, ela respondeu surpresa.

E ainda declamou todo o texto que escrevi em algum momento. Ficou decepcionada pelo fato de eu não me lembrar. Mas que lembra Cazuza, lembra.

Ora, há mais de 25 anos escrevendo. Livros, peças, crônicas. Treze anos publicando textos para a FOLHA DE S. PAULO, editoriais, colunas, resenhas, reportagens. Já são seis anos como colunista do ESTADÃO. Sem contar frilas fixos [tive uma coluna na VOGUE RG e na VIP] ou não. Mais esse blog, que começou neste ano. Mais frases ditas em entrevistas.

Complicado para um cara como eu, que não passou os anos 70 e 80 em vão, se lembrar de tudo o que produziu.

Então, contei pra garota. Acertei em alguns textos. Errei em muitos. Fiz trabalhos bons e péssimos. Ele me perguntou como eu deixava rolar os trabalhos péssimos. Porque um escritor nem sempre sabe identificar aquilo que é bom ou ruim. Faz parte do processo. Às vezes, é bom para alguns, ruim para outros.

Minha peça MAIS-QUE-IMPERFEITO não chegou a ser muito comentada. Fez temporada discreta. Considero um texto emocionalmente importante. Pois me fala de algo hibernado, dolorido.

Pessoas gostam de coisas em FELIZ ANO VELHO que considero tolas. Meu livro UA:BRARI [de 1990] passou desapercebido. Está fora de catálogo. Já encontrei alguns amigos que me falam que é o meu melhor livro. Livro semi-experimental, que escrevi todo ele entorpecido por THC e pela paixão por GUIMARÃES ROSA.

BLECAUTE é o livro preferido da molecada. Especialmente pelos meninos.

Algumas crônicas repercutem mais do que outras. Mas mesmo as que passam em branco, encontram leitores que se identificam. O feed back vem das saídas em noitadas, bares, supermercados, feiras, farmácias, metrô, viagens, livrarias, cafés, calçadas. É como sabemos como somos lidos. E nos mostra a diversidade humana.

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Ainda dava tempo para repartimos um último cigarro. Foi me dito ontem, perto da meia-noite, numa balada, antes de entrar em vigor a lei ANTIFUMO.

São Paulo estava diferente ontem à noite. Além do calor atípico, muita gente na calçada, fumando, papeando.

Desci a RUA AUGUSTA, e prostitutas estavam nas portas das boates, fumando- havia boatos de que a fiscalização percorria a rua. Algumas em trajes sumários. Outras, de roupão. Ou biquíni. Tranquilamente, e entediadas, fumando o seu cigarrinho.

Tadinhas. Fazem strip nos palquinhos, se exibem, xavecam, mas vão ter que fumar lá fora. Talvez a lei devesse abrir uma exceção. Stripers estão liberadas. Imagine fumar no frio naqueles trajes na calçada?

A lei pegou. Estava na cara que ia pegar. Pegou até em PARIS e BUENOS AIRES. É repressora, mas popular e saudável.

Morei na CALIFÓRNIA em 1994 e 95. Lá não se podia fumar em nenhum lugar. Nem na minha própria casa- se eu fosse pego, pagaria uma multa de US$ 700 e era despejado na hora.

Curiosamente, meus melhor amigos foram os fumantes. Pois a rotina de sair dos prédios públicos e fumar acaba gerando uma cumplicidade que alimenta amizades, papos, debates. Até hoje, me correspondo com aqueles que fumavam sob o sol de SAN FRANCISCO.

Para um fumante, nada demais sair do restaurante ou bar e fumar lá fora. Porém, lamenta-se o acúmulo de bitucas no chão. É preciso colocar cinzeiros para todos. Mas a lei proíbe, segundo me disse um segurança da RUA AUGUSTA. Proíbe?

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Evento importante amanhã: Sábado Resistente [08 de agosto de 2009, das 14h às 17h30] no Memorial da Resistência de São Paulo – Largo General Osório, 66 – Luz

Foto do convite [eu estava lá, já que não perdia uma manifestação, lógico]:

40 ANOS DA CRIAÇÃO DA OPERAÇÃO BANDEIRANTE. A REPRESSÃO CLANDESTINA TRANSFORMADA EM ROTINA

Um dos órgãos de repressão mais violentos da Ditadura Militar no Brasil foi a chamada Operação Bandeirante (OBAN), criada pelo II Exército em São Paulo, no mês de julho de 1969, que serviu de modelo para os DOI/Codis e centralizou o combate aos inimigos do regime. Instalado na Rua Tutóia, onde atualmente funciona o 36° Distrito Policial da cidade.

Perdia-se a batalha contra as organizações de luta armada, que assaltavam bancos a torto e direito, para arrecadar fundos para a revolução. Decidiu-se criar um órgão, com o apoio civil e financiamento de grandes empresários, para combatê-los com carta branca e métodos discutíveis: tortura, desaparecimento etc. Alistavam-se os delegados e investigadores mais “durões” da Polícia Civil e Militar.

Para debater sobre esta sinistra organização, sua história e influência durante “os anos de chumbo”, o Núcleo de Preservação da Memória Política do Fórum Permanente de Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo e o Memorial da Resistência de São Paulo convidam para as palestras de três estudiosos sobre o legado da OBAN nos dias de hoje.

Calcula-se que passaram pela OBAN mais de 10.000 prisioneiros. Lá foram mortos o jornalista WLADIMIR HERZOG e o operário SANTO DIAS. Os seus comandantes, hoje processados pelo Ministério Público Federal, foram os responsáveis por inúmeras mortes de combatentes sob torturas e execuções nas dependências deste organismo ou em vias públicas.

Estarei no evento, representando a família.

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Nesse fim de semana, voltou a peça Monólogo da Velha Apresentadora, texto de um dos mais criativos e instigantes escritores da nova safra, o amigo MARCELO MIRISOLA.

Elenco: Alberto Guzik e Chico Ribas
Direção: Josemir Kowalik

Aos sábados às 19horas e domingos às 18h30, no SATYROS 1, na PÇA ROOSEVEL.

Bora?

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Estreia MOSCOU, novo filme de Eduardo Coutinho, um dos maiores e mais ativos documentaristas brasileiros.

O filme segue o projeto que começou com “Jogo de Cena” (2007). Ele documenta os ensaios da peça “As Três Irmãs”, de Tchekhov, pelo grupo Galpão, dirigido por KIKE DIAS.

São cenas de bastidores, camarins, mesas de leituras, workshops, improvisações e ensaios. Porém, e é nisso que o filme pega, conta-se a história do clássico de Tchekhov nas entrelinhas.

Atores e personagens se confundem. O palco e os bastidores viram locações. Depoimentos dos personagens recontam a história.

Um filme diferente, que emociona e cria novas possibilidades para ambas as linguages, a teatral e a cinematográfica.

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