Água de beber

Água de beber

Marcelo Rubens Paiva

30 de outubro de 2014 | 12h15

Escrevi este texto em abril no Estadão. Ficou terrivelmente mais atual:

A água da piscina do condomínio começou a baixar um azulejo por semana. A moradora do bloco B, zelosa pela condição física, a única que nadava todas as noites, foi a primeira notar. Avisou o porteiro, que avisou o chefe do turno, que reportou ao zelador. Vazamento?

O síndico, sedentário que não zelava pela condição física, demorou para chamar o técnico terceirizado. Que disse, numa inspeção cuidadosa, que o fenômeno ocorria na vizinhança. Fenômeno? Sugeriu checarem as imagens gravadas pelas câmeras espalhadas.

Na administração do prédio, num monitor sem cor nem definição, técnico terceirizado, zelador e síndico sedentário viram a moradora do bloco B entrar na piscina e nadar. Elogiaram a disposição e o bom condicionamento. Adiantaram as imagens. Viram que, no meio da madrugada, pessoas encapuzadas apareciam correndo e, com baldes, retiravam às pressas água da piscina. Adultos e crianças. Subtraíam água do bem coletivo de uso compartilhado pela massa condominial. Quem?

Pelo mesmo monitor, viu-se que naquele horário ninguém atravessou o esquema de monitoramento do perímetro condominial (portaria gaiola, ou clausura, com sistema de “intertravamento”, portaria blindada, cercas eletrificadas, grades duplas, alarmes e sensores a laser). Não tinha outra: moradores dos blocos A, B e C, independentemente do condicionamento físico, surrupiavam noite após noite água da piscina.

Numa reunião marcada com urgência na Associação de Síndicos de Condomínios Comerciais e Residenciais, descobriu-se que o fenômeno era epidêmico. Condôminos roubavam água das piscinas dos próprios condomínios. E residências com piscinas eram invadidas por ladrões de água. Sugestão: redobrar a vigilância, cobrir piscinas com lonas e grades, até a crise abastecimento do Estado passar.

O boato se espalhou. Esgotou-se o estoque de baldes e afins. A notícia de que a água estava com os dias contados foi a mais comentada em redes sociais por dias. Clubes e academias de natação foram invadidos por gangues organizadas que, com SUVs adaptados com caixas d’água de polietileno e fibra de vidro nas carrocerias, com capacidade de armazenarem até 5 mil litros, chegavam armados de bastões, agrediam fisioterapeutas, professores, pacientes e clientes com ou sem tendinites e dores nos meniscos, e sugavam a água dos reservatórios que encontrassem. Clorada e salinizada.

Pessoas estocavam água potável ou não em casa, no quintal, na varanda, no armário, no cofre. A Força de Segurança Federal foi chamada para cercar o sistema público de tratamento de água e esgoto, que podia ser tomado pelo novo movimento sem-água, braço radical do sem-terra e sem-teto, que acampou nos portões da companhia mista de capital aberto de saneamento básico do Estado.

Postos de gasolina viram o estoque de água mineral de suas lojas de conveniência se esgotar. Passaram a vender a água estocada de seus lava-rápidos. O negócio era uma mina de ouro. A clientela não parava. Esvaziaram os tanques de gasolina e passaram a vender água pelas bombas de gasolina aditivada, comum e etanol. O preço, lógico, foi reajustado.

Filas de clientes com galões se formaram. Caminhões tanques, que antes transportavam gasolina, diesel e álcool, traziam água de rios distantes. Como sempre, as agências reguladoras, criadas para fiscalizar a prestação de serviços públicos praticados pela iniciativa privada, como  a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis e a Agência Nacional de Águas, vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, que coordena a gestão dos recursos hídricos no país e regula o acesso à água, foram as últimas a se darem conta da crise.

Uma comissão mista, acoplada a uma força tarefa, foi criada tarde demais, quando já não se vendia mais combustível na maioria dos postos da cidade, e a população obstinada agia anarquicamente e se organizava em milícias em busca de água.

De bairro em bairro, as torneiras secaram. Famílias armadas paravam carros no farol e anunciavam o assalto. Enquanto as vítimas se preparavam para entregar bolsas, correntes, relógios e celulares, num gesto rápido e aparentemente bem treinado, o líder da gangue abria o capô por dentro, mantendo as vítimas sob a mira de um revólver, enquanto, numa operação bem orquestrada, sua família retirava água dos reservatórios do carro assaltado, incluindo a do radiador.

O Estado de Emergência mudou para o Estado de Calamidade Pública do dia para a noite. Aviões não mais posavam nem decolavam, já que não havia combustível nem água nos aeroportos. As linhas telefônicas ficaram congestionadas, com pessoas em busca do que beber. A internet caiu: a expressão “água potável” foi a mais digitada em sites de busca, superando “Justin Bieber”, “dieta de Hollywood” e “como adquirir barriga tanquinho”.

Carros como o Fusca, com motor refrigerado a ar, foram valorizados. Mas a enorme quantidade de veículos sem combustível e com motor fundido (sem água no radiador) parada no meio do caminho congestionou ruas, alamedas, avenidas, túneis, artérias rodoviárias das cidades e estradas. O trânsito travou de vez.

Carroceiros trocaram seus instrumentos de trabalho por apartamentos. Uma bicicleta passou a valer mais do que um SUV. Um pangaré passou a valer mais que uma Ferrari 550 Maranello V-12 com 485 cavalos de potência.

A moradora do Bloco B, sem condição física, já que estava há dias sem nadar, decidiu não encarar a jornada a que a população se propôs: rumar para o norte em comboios.

Viu da sua janela a procissão de farrapos humanos imundos e sedentos abandonando a cidade em busca de água. Carroças, bicicletas, carrinhos de supermercado, skates, tudo que tivesse rodas servia para a grande migração. Viu o porteiro e o chefe do turno ajudarem a empurrar o carrinho de lixo com pertences do síndico e do zelador, que partiam com a grande massa que, ao longe, lembrava migração de gnus na África.

Poucos ficaram, esperando que autoridades competentes e incompetentes conseguissem resolver o problema.

Até acabar a luz.

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