acontece que ele é baiano

acontece que ele é baiano

Marcelo Rubens Paiva

12 de abril de 2010 | 15h10

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A primeira viagem longa e sem a família que fiz foi pra Bahia, lógico. Fruto da paixão por Jorge Amado e tropicalistas.

Com a turma do colégio, todos “de menor”.

Pegamos um busão até Porto Seguro, o começo do Brasil.

Falaram de uma vila, Arraial da Ajuda, em que só se ia a pé pela praia e nem tinha luz elétrica. Havia uma fonte de água milagrosa e praias desertas. É, nego, eu tenho idade… Passamos dois dias lá, dormimos na praia.

De Trancoso ninguém tinha ouvido falar ainda.

Depois, Itabuna e Ilhéus, conhecer o ar, o mar e os personagens de Amado.

Depois, Salvador, onde nos hospedamos numa república de estudantes e tinha o melhor e mais autêntico Carnaval do Brasil.

A Bahia passou a ser uma visita obrigatória na minha vida.

Bahia de Dorival, Tom Zé, Raul Seixas, Glauber, Gil, Caetano, João Gilberto, João Ubaldo, Novos Baianos, Cor do Som, Gal Fatal, Marcelo Nova e Camisa de Vênus…

Na década de 90, eu ia pelo menos 3 vezes por ano. Receber uns passes no GANTOIS, levado pela minha amiga TERECO, ouvir os conselhos de Xangô, comer bem, ver a transformação da cidade, me esbaldar no Trapiche, Dada e com as muitas baianas de acarajé.

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EU E TERECO

Cheguei a ensaiar uma peça lá só com atores baianos. O jovem e desconhecido LÁZARO RAMOS estava no elenco.

Fiz amigos. Como o jornalista Hagamenon Brito, roqueiro, cítico de música, polêmico, irônia afiada, quem cunhou o termo “axé music”.

Pouco a pouco, fui perdendo o interesse pela Bahia. Especialmente pela cultura que vinha de lá. E pelo que os paulistas endinheirados estavam fazendo com aquele paraíso que hipnotizou Vaz de Caminha.

Trancoso ainda é deslumbrante. Mas o transfomaram no parque de lazer da elite. Caraíva foi tomada. Itacaré. Basta uma vila de pescadores, para estarmos lá, a paulistada [me incluo, pois passei o réveillon de 2007 lá e esvaziei a carteira] e a gringaiada, com grana, seduzindo, alugando, comprando, criando empreendimentos, campos de golfe, resorts em ilhas antes desertas, pistas para seus jatinhos.

Já me perguntei por que Pernambuco oferece o que há de melhor na nova música brasileira, revoluciona [NAÇÃO ZUMBI, MUNDO LIVRE, OTTO, EDDIE, MOMBOJÓ, INSTITUTO, JUNIO BARRETO,  3 NA MASSA, LIRINHA etc. etc. etc], e da Bahia hoje em dia ecoa apenas a voz estridente e insuportável de Ivete Sangalo e Cláudia Leite!

Por isso mesmo, explicam os meus amigos que entendem: a indú$$$tria do Carnaval sufocou a cultura baiana.

E na orla, em que passam os trios elétricos, só tem camarotes.

Adianta ROBÉRIO SANTANA, baixista do CAMISA, queimar ABADÁS? Tomara que sim.

queima de abada

Meu amigo HAGAMENON escreveu um desabafo na sua coluna do CORREIO DA BAHIA, na semana passada, comovente. Que reproduzo aqui na íntegra. Saravá…

 

“Acontece que sou baiano, também

     

Eu moro em Salvador, onde os homens mijam em via pública sem nenhum pudor. Como se fossem cachorros que levantam a perna em qualquer poste, não se importando com quem passa. Tem cachorro branco, cachorro negro, cachorro pardo… cachorro de toda cor, variedade e tamanho. Certamente, também tem cachorro exibicionista, cachorro voyeur, cachorro dos quintos dos infernos. O cheiro de mijo e a sujeira são referências seculares da Cidade da Bahia. Bonito, massa.

Será que, se tivesse a praticidade da anatomia masculina, a mulher baiana também mijaria na rua, numa boa? Talvez. O povo baiano é muito folgado. Pronto, falei. Mal te conhece, quer saber o número do teu RG, CPF, se você já comeu a vizinha – ou o vizinho – do lado e o que tem em sua mesa. Na fila do Elevador Lacerda ou em um banco, é melhor evitar dar bom-dia, ou a pessoa te conta toda a vida. Ela faz um talk show.

O soteropolitano se considera o rei da cocada preta, mesmo que sua capital tenha uma orla favelada, um nível de barulho enlouquecedor, uma axé music de gosto mais que duvidoso, uma pobreza social que seus shoppings centers não conseguem ocultar, um sol que se esconde a maior parte dos 365 dias do ano e que ele sofra de complexo de inferioridade disfarçado de excesso de autoestima.

De manhã, o dono da banca de revistas da minha rua, no Rio Vermelho, me oferece as publicações que eu gosto e diz: o senhor tem razão. De quê, pergunto. De achar que Salvador virou um balneário tropical de terceira categoria. A mão de obra e o atendimento são ruins, não melhoram, a cidade está parecendo o Rio  em violência e o trânsito piorou muito. Sabia que todo mundo aqui na rua agora desembolsa R$ 30 para ter segurança particular?

Os problemas do trânsito de Salvador me fazem duvidar do ditado “baiano burro nasce morto”. Falta vontade política para melhorar o sistema de transporte público de Salvador e uma mudança de mentalidade do soteropolitano, para quem, desde que o samba é samba, andar de ônibus (minimetrô superfaturado? quando mesmo?) é coisa de pobre, é humilhante. Como nos últimos anos ficou fácil comprar carro, a Paralela caminha rápido para ser nossa Marginal Tietê.

Eu moro em Salvador, tida como a cidade de maior população black fora do continente africano, onde  matanças contra jovens negros pobres são constantes, sem que a sociedade realmente proteste, faça alguma coisa séria. Ah, os adolescentes são bandidos, merecem morrer? São mesmo? Isso é coisa de guerra de traficantes? Polícia boa é aquela que mata? Quem liga para essa gente feia, senão suas mães negras chorosas?  

Ora, direis, esse sujeito nasceu onde? Aqui, meu caro, neste bonito e histórico cu do mundo. Se digito essas observações em um Sábado de Aleluia é porque sou baiano também e escolhi Salvador para malhar este ano. Ora, direis, esse infeliz está mais jururu do que um caramujo. Não, são apenas constatações.  Queres que eu mude para Reykjavik? Não mudo. Salvador é tão minha quanto de Bell Marques, Nizan Guanaes, Claudia Leitte e sua.

Só quero viver em paz na cidade que escolhi para morar e ver minhas crianças crescerem. Não quero ser como João Ubaldo Ribeiro, que reside no Rio e passa férias numa Itaparica que ele guarda na memória. O melhor lugar do Brasil tem que ser aqui e agora. Ainda dá tempo.

Deve existir um homem feliz em Salvador.”