a voz do anônimo

a voz do anônimo

Marcelo Rubens Paiva

03 de março de 2010 | 13h36

publicado no estadão de sábado:

Num espaço público, o anônimo vira estrela, se excede, confessa seu racismo, sexismo e todos os ismos empastelados pela modernidade: leitores que postam comentários em blogs e, através de emails falsos, não querem ser identificados.

É a praga que perturba a paz de muitos blogueiros.

 

ANNIMO~1

Fui alertado sobre eles, quando comecei o blog há um ano. Já que eu não os deletava, pouco a pouco contaminaram o ambiente, jogaram a sua ira contra mim, o veículo, os temas postados.

Blogueiros mais experientes me aconselhavam a eliminá-los na simples operação deletar. Mas, filho de quem sou, um democrata radical, que seguia os princípios de Voltaire (“posso não concordar com o que diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizer”), aprovava os insultos, alimentava polêmicas, respondia à altura.

Quando comentei o fechamento da festa Gambiarra por um fiscal frequentador, a ira foi contra os boêmios, arruaceiros que desgraçam o sono do trabalhador comum. Um leitor me perguntou: “Já fumou a sua macoínha hoje?” Foi o primeiro a ser deletado.

Críticas sobre meus livros e ideias nunca me incomodaram. Mas descobri o direitista radical, que não pode se expor publicamente- pois no Brasil somos todos moderninhos e sem preconceitos- e despejava a sua raiva contra aqueles que combateram a ditadura.

Fruto das aposentadorias incabíveis, ou das opções políticas de ex-combatentes, como Zé Dirceu, Genoino e a gangue do mensalão, que causou um estrago incalculável para a história do País, manchando a imagem de milhares de vítimas.

Até um comentário me convencer a expurgar de vez para a lixeira o ódio e a intolerância. “A ditadura fez um trabalho pela metade, matou apenas o seu pai”, escreveu um anônimo.

Falar do regime militar divide opiniões. Descobrem-se pelos blogs os muitos desinformados e uma nova geração que confunde fatos, personagens e períodos.

Ao narrar histórias sobre o desaparecimento político do meu pai, li aberrações como: “Meu pai nunca fez nada, ficou tranquilo em casa e está vivo. O seu deve ter aprontado.”

Os debates sobre a Lei da Anistia geraram posturas radicais. Muitos disseram que militares não poderiam ser punidos por combater terroristas assassinos e ladrões de bancos. Até um amigo italiano, Luigi Ghermandi, revoltado, dar um ponto final à confusão: “Ninguém que se opõe a uma ditadura é terrorista, que fique claro”.

A ignorância encontrou a sua voz através do anonimato de comentários em blogs. Revela a triste constatação de como nossa história está mal contada.

Tendências: