a vida…

a vida…

Marcelo Rubens Paiva

04 de outubro de 2010 | 13h56

Acordar. Por que acorda?

Para trabalhar. Por que trabalha?

Para ganhar a vida. Para que dinheiro?

Sustentar.

O quê?

A casa, a luz que dá luz, a água que banha, o café da manhã, o jornal diário, o gás do café, o condomínio que garante um elevador que funciona, que o leva a uma vaga demarcada na garagem, onde um carro que dá a partida, pois tem uma bateria nova, combustível no tanque, injeção eletrônica calibrada e roda sobre quatro pneus novos se encontra.

E sustentar a segurança que o protege daqueles que queiram parte dos seus bens.

Que abre a guarita quando encosta o carro, acena e deseja bom-dia.

Para a rua vai, com o seguro do carro em dia, o que evita acidentes e gastos desnecessários do fruto do seu trabalho.

Trabalhar para pagar impostos e ter uma rua bem recapeada, faróis de trânsito que organizam a ida ao trabalho dos vizinhos e possibilita manter o patrimônio próprio e as vidas alheias.

Pintam faixas de pedestres, para os que não têm patrimônio suficiente possam atravessar as ruas e, com segurança, se dirigirem a uma estação de transporte público para, como ele, ganhar a vida.

Dá passagem para carros com sirenes ligadas. São policiais que garantem a segurança pública dos que trabalham ou não, baseados em códigos e leis que o Estado criou para que possamos, em ordem, trabalhar.

Uma ambulância também passa. Lá vai nosso imposto sendo utilizado para amainar dores, salvar vidas, dar à luz outro pequeno ser que, depois de educado e formado, estará conosco no mercado, para acordar e trabalhar, e talvez disputar a nossa vaga por um terço do salário, o fruto do trabalho.

Ou, se tudo der errado, e as más influências o levarem para os caminhos do crime, afanar partes do patrimônio alheio, burlando a segurança privada na guarita, que deu bom-dia minutos antes.

Até os que zelam pela segurança pública o trancarem numa instituição sustentada pelos impostos que são gerados pelo nosso trabalho, atividade exercida após o acordar.

Alguns preferem se exercitar antes da jornada de dez horas, com duas horas de almoço.

Pagam academias, porque acordamos, trabalhamos e temos dinheiro, e queremos manter a saúde em bom funcionamento, para acordarmos e trabalharmos.

No trabalho, ganhamos a vida. Em baias, salas envidraças, fábricas barulhentas, com apetrechos que garantam a segurança do trabalho, para que possamos trabalhar sem nenhum membro do corpo saudável decepado, e todo corpo possa operar com dedicação a máquina que gera produtos, faturamento e salários.

Se o corpo estiver intacto, o produto pode ser aperfeiçoado, o faturamento cresce, e quem sabe o salário aumenta, para quem sabe prepararmos melhor o corpo e a mente para o trabalho.

Almoçamos uma comida rica em nutrientes durante o intervalo de duas horas.

E podemos quem sabe convidar a nova estagiária e pagar a conta. O que a deixaria satisfeita. Demonstraríamos assim a nossa boa educação e gentileza, vocações que agradam seres trabalhadores do sexo oposto (ou do mesmo, dependendo da opção).

Após o trabalho, com um corpo saudável e bem alimentado, e a disposição para encarar horas de lazer, podemos convidar a colega de trabalho para um happyhour, onde outros trabalhadores aliviam tensões do trabalho jogando conversa fora e sorvendo líquidos alcoolizados dentro, que aliviam as tensões da jornada, estabelecem uma comunicação facilitada pela alteação do estado psíquico e furam bloqueios formais que são rígidos, estabelecidos por normas de relações trabalhistas e ambientes de tensão, que buscam aumentar o faturamento para, quem sabe, aumentarem os salários e as participações no lucro.

A substância alcoolizada desloca a timidez para longe.

Palavras de carinho e sedução são aplicadas, e de repente o casal, ele e a estagiária, colegas de trabalho, começa a expor detalhes de suas vidas pessoais, seus desejos e sonhos, suas carências e necessidades imediatas.

Ambos sabem que a alma precisa estar tão balanceada quanto os pneus e a injeção eletrônica do veículo que os aguarda. Para que possam tocar suas rotinas.

Os corpos exigem providências instintivas de satisfação do prazer eminente.

Pedem para ser acariciados, abraçados, consumidos, esgotados.

Após pagar a conta com fruto do seu salário e oferecer uma carona em seu carro bem regulado, com combustível e seguro pago, o casal se vê pelas ruas bem iluminadas, graças aos impostos pagos, param em faróis que garantam a segurança dos pedestres, escutam uma música romântica na rádio que foi empreendida após uma concessão pública através do Estado que sustentam pelo voto e impostos em dia, algo acontece: está estabelecido um contato olho no olho.

Aproximam seus rostos e se beijam ardentemente.

Sem oferecer riscos a outros trabalhadores que retornam a seus lares.

Então, ele a convida para conhecer o seu lar. Sugestão aceita de imediato.

Em silêncio, encostam na guarita do seu prédio, são saudados pelo porteiro com um boa-noite, seguido por um bom descanso.

Ele encosta na vaga demarcada pelo conselho de condôminos, interrompe o fluxo de combustível do motor, desliga o carro com injeção eletrônica bem regulada, leva-a de mãos dadas ao elevador com a revisão em dia, e sobem para o seu apê.

Exibe alguns bens obtidos graças ao fruto do seu trabalho, abre uma garrafa de vinho cara, resultado da dedicação e participação no faturamento da empresa.

Sorvem o líquido alcoolizado elogiando a safra e a uva que o originou.

Em minutos, estão na cama satisfazendo seus desejos de se tocarem, se consumirem, se possuírem.

Utilizam um invólucro de látex, que os protege de doenças indesejáveis e evita a proliferação da espécie, a criação de novos entes que um dia possam substituí-los no trabalho. Têm poderes para controlar a natalidade do Estado que constantemente se vê obrigado a investir em infraestrutura.

Mas nem entra a madrugada, e ela utiliza um aparelho celular para obter o serviço de um táxi.

Já?

Ela espera por minutos a chegada de uma unidade, despede-se com um beijo e diz:

“Preciso acordar cedo amanhã.”

Para quê?

Para ganhar a vida.

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