A vida – uma grande brincadeira

A vida – uma grande brincadeira

Marcelo Rubens Paiva

20 Julho 2015 | 21h16

jj 028

A vida

Quando nasceu meu filho, alguém disse: “É o filé-mignon da vida.”

Mas ela fica cada dia mais caótica. Dizem que só “melhora”.

O que será “melhorar”?

Talvez nos acostumemos. Tomara. Minha mãe teve cinco! Passei a perdoá-la no que classifico como baixa participação na aflição afetiva dos filhos.

Amanhece.

Passo a viver com meu duplo: o eu e um outro, o eu e o papai. Ele não acordou. Nem dou a descarga. Não escovo os dentes. Ando pela casa lentamente em silêncio. Dizem que audição é o sentido mais aprimorado de um bebê. Me acostumei a andar como um gato, sem esbarrar em nada. Telefones no mudo. Computadores com alto-falantes em 0%.

Pressa. É a chance de tomarmos o café da manhã sem precisarmos reparti-lo com o pequeno e curioso sujeitinho que vive conosco há um ano e meio e, se dermos sorte, lermos o jornal de cabo a rabo. Artigos longos ficam para “quem sabe…”

Não demora. O pequeno cidadão sente o deslocamento de ar da casa. Acorda. Não posso reclamar. O filho que dorme antes dos pais e acorda depois começa a falar sozinho no berço, a cantar. E torço para ele continuar se entretendo. Dizem que melhora a concentração.

Então escuto: “Pá?” Depois vem a primeira palavra que aprendeu, por culpa minha, que sussurrava direto no seu ouvido, torcendo para ser a primeira palavra a aprender (e não deu outra): “Papá?” Interessante como a forma de me chamar é uma pergunta: “Pá pá?”. Por que quer saber se estou pela redondeza. E se sofisticou: “Pai?” E virou: “Papaiiii?”

Eu deveria ter ensinado: “Mamã”. Calma, um segundo. Corro pela casa. Xícaras, pratos, talheres, copos, telefones, mouses e teclados nos fundos das mesas. Celular fora do campo de visão. Controles remotos na gaveta. Portas da cozinha e banheiros fechadas. Eu não sabia que bebês curtiam molhar a mão em privadas. Todas elas agora têm lacre. Todas as gavetas têm lacre. Checar se todas estão lacradas.

“Papaiii!?” Já vai. Checar protetores nas tomadas, carregadores, espuma nas portas. Guardar pilhas e moedas. A paciência dele se esgota. Então tá… Abro a porta: bom-dia.

O quarto escurinho tem aquele cheiro de leite com pomada e sabonete neutro. Ele está em pé no berço e fica felicíssimo. Me mostra seu brinquedo, um boneco Piu-Piu gigante, quem tenho que cumprimentar, com quem ele dorme, que na verdade foi da minha mulher.

Abro a cortina blecaute. A luz o cega. Sinto aquele bafo matinal. Como uma pequena criatura pode ter já um bafo tão potente? Tem remela, cabelos amassados, olhos inchados. Acorda como qualquer adulto. A diferença é que acorda sempre num colossal bom-humor, como se a vida fosse a melhor coisa do mundo, uma eterna brincadeira, a descoberta constante, que ele adora.

Acender, apagar a luz e ligar um ventilador dão a sensação de êxtase pelo poder e controle de forças invisíveis. Mamadeira, ele aponta. Comer é crucial. Ele anda pela casa sugando. Estou lendo jornal. Ele aparece ao meu lado, arranca-o numa velocidade incrível e volta à mamadeira. Peço meu jornal de volta. É uma negociação educada. Ele devolve e some.

Estar quieto demais não é salvação, é problema. Alguém vai logo checar. O que ele está aprontando? Estar quieto é aprontar. Está bebendo shampoo, desenrolando papel higiênico, tirando livros da estante ou esvaziando a lixeira. “Não pode!” Chora.  

Estou no teclado, ele reaparece, aperta o enter, some meu texto da tela. Ele volta a mamar e some. Toca o telefone. Atendo. Ele reaparecer, puxa o telefone, que cai no chão. “Não pode!” Caiu a linha.

Ele cai no chão. Bateu a cabeça. Chora. É uma média de quatro tombos por dia. Fala pela casa: “Bru bur u”. “Tá pê-pê-pê”. Faz variações da palavra “meme”. Então vem: “Papai te? Papa i Uh, dei ber ti… Umaba tuiu”

“Sei”, repondo, enquanto trabalho. “Ti tá… ti tá… ti tá…”, começa a série de repetições. Respondo: “Jura?” “Sério?” “Nossa…” Gargalha. E passa a empurrar coisas pela casa. Me bloqueia com móveis: uma barricada. Tento tomar um café. Ninguém se lembra onde está a bandeja com as cápsulas, várias vezes derrubada por ele.

Meu celular, bobeei, sumiu. Estava carregando. Ele descobre a minha carteira, desmonta e espalha os cartões de crédito pela casa. Como ele descobriu que aquilo é tão importante para mim? Claro. Viu papaiiii sacá-la várias vezes e comprar coisas com aqueles cartões. Se é importante para o papaiii, é para ele.

E bacana é brincar com as coisas importantes do papai. Sumiu com meu mouse. Bobeei. Fico sem trabalhar até encontra-lo. Outro dia, o encontraram na cesta de roupa suja. Com tudo que é importante para o papai, ele some.

Vai para a escola, e sinto saudades. Esbarro em brinquedos que começam a tocar sozinhos. Tem um que faz “uiii!”. Tomo um baita susto e vejo um troço amarelo piscando no formato de um mini andador que ri de mim. Sem querer atropelo um ursinho que diz “barriga”, “você é meu amigo”, e pede “me dá um abraço”. Na pia, tem uma zebra, uma girava e um leão, todos de plástico do mesmo tamanho e vesgos.

O moleque volta animado: “Êeeeeeeee”. E cai no chão. Bate a cabeça. Chora. Vem a jornada de caça aos gatos. O mais velho, paciente, aceita a aproximação. O mais novo, adotado, cuja infância não sabemos por qual inferno passou, não quer saber.

Momento do cadê, “achô”, cadê, “achô”, que dura uns 20 minutos. Pelo corredor, costuma correr e gritar: “Êeeeeeeee”. Às vezes vou junto gritando o “Ê”. Quando vão banhá-lo, ele vem peladinho se mostrar. Faz xixi no chão. Só eu e ele achamos graça. Ele dança sobre o xixi. Só eu e ele rimos. Mostramos o umbigo um para o outro, o barrigão, batemos no barrigão. Ele escorrega no xixi, cai e chora.

Anoitece. Tentamos ver os telejornais. Ele desliga a TV, ligamos, desliga, ligamos, ele a tira da tomada, desistimos. Há meses não vemos telejornais.

Começa a coçar os olhinhos. Vamos nanar? Ele faz não com a cabeça. Levo para o berço. Fico ao seu lado no escuro. Ele sussurra: “Pá-pá… pá-pá…” Deita, fala um pouquinho, canta baixinho e sussurra: “Pá-pá…” Amanhã tem mais. Não é apenas o filé-mignon.

É o rebanho todo.

Passo à noite com saudades.

Na manhã seguinte, fico esperando ele acordar, para recomeçarmos a viver. Para acha-la uma grande brincadeira.