a vida nada fácil

a vida nada fácil

Marcelo Rubens Paiva

15 Fevereiro 2013 | 13h17

 

Tem dias que até um cara como eu, que não tem a manha de assistir TV aberta, precisa passar uma noite diante dela, para se inteirar.

E fazer aquela observação antropológica de como anda o Brasil pelos olhos da Rede Globo, empresa que o interpreta como um mercado consumidor, um alvo, ou melhor, o nicho, com ajuda do seu poderoso e experiente departamento de pesquisa e décadas de produção de folhetins.

Emissora que cria tendências [dizem], cujas novelas ditam modas [dizem] e expõe o que se deve vestir, ouvir, ver, e como se pentear.

Duas constatações:

1. Não existem rugas na tela da TV.

Uma lente especial ou uma ilha de trucagem dá uma photoshopada na pele dos personagens, ou a Botoxlândia abriu uma filial no Projac?

2. Não existe cabelo ondulado.

Da moça do tempo, passando pelas novelas e BBB, os cabelos são lisos, parecem melecados por pastas milagrosas, têm luzes e brilho artificiais, incomuns.

Imagino cantar para uma global: “Encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora. E conta logo a tua mágoa toda pra mim…”

A cabeça grudaria no ombro. Os cabelos duros e empapados criariam um desconforto para ambos. Seria como usar uma vassoura de consolo. Um carinho nela poderia dar alergia à mão. Os produtos químicos poderiam manchar nossa camisa. Serão cancerígenos?

Melhor ficar no outro canto e a gente papeia. Não vai dar pra te dar carinho com esse cabelo, baby.

Mesmo a deusa CLEO PIRES, a perfeição em forma de morena, apareceu com um cabelo que parecia fibras óticas untadas por piche.

De repente vejo aquela menina passar, a que faz a prostituta escravizada, e me intriga, pois a conheço não sei da onde, de algum filme ou peça. Tenho minhas suspeitas. Parece a garota do filme do Cláudio Assis, FEBRE DO RATO. Mas tá recauchutada, visse.. Será a prima?

Tá linda, com a boca carnuda, os olhos de ressaca de Carnaval de Olinda, como cega pela luz forte do sol do Recife, de bermudinha sexy, mignonzinha…

 

 

Consulto meu amigo Google. É a própria, NANDA COSTA, refeita pelo departamento de recondicionamento e martelinho de ouro da Vênus Platinada.

 

 

Atriz de 26 anos de PARATY [sim, tem gente que nasce, cresce e se educa lá; não são apenas construções tombadas], que quando foi escalada para protagonizar a novela “Salve Jorge”, de Glória Perez, dividiu opiniões dentro da emissora- aprendi lendo uma coluna de meses atrás de Flávio Ricco.

“Existem, basicamente, dois lados dentro da emissora. Como crítica positiva, está o fato de Nanda ser uma escolha não previsível e de se tratar de uma cara nova. Seria uma tentativa de renovação. Do lado negativo, no entanto, setores apostam que era necessário um nome forte, bastante conhecido do grande público, na linha de frente da novela. O objetivo seria justamente o de atrair pessoas para assistir ao folhetim”, disse o colunista de TV.

Não sou a pessoa ideal para dar pitaco, mas parabéns Globo. Arriscaram e acertaram. Nunca vi um elenco tão bem selecionado para o papel.

Cafetina com cara de, prima com cara de, gigolô com cara de…

Se bem que, sintonizado na emissora, percebo que o elenco do reality que vem em seguida também se veste como as primas, cafetinas e cantores sertanejos.

Deve ser a tendência que o programa anterior aplica no vestuário do público.

Nanda está bem. A novela parece que não vai bem.

A lembrar que no ano passado GABRIELA exibia a prostituição de uma forma mais tolerável e até como força de equilíbrio de tensões sociais e políticas.

A velha prostituta amiga e conselheira, carinhosa, paciente e mítica [de FELLINI, GABRIEL GARCIA MARQUEZ e JORGE AMADO], foi trocada por uma escrava sexual.

Perdeu-se o romantismo da profissão mais antiga do mundo, a de vida nada fácil.

A personagem que se dava por vontade própria e pela grana agora é obrigada e chantageada.

Novos tempos…

 

 

+++

 

Se a PROSTITUTA é a profissão mais antiga do mundo, quem tinha dinheiro para pagá-la?

Alguém recebeu o soldo antes e pagou para afagar as mágoas com uma babilônica perfumada.

Pequenos paradoxos de uma história mal contada.