a vida lá fora

a vida lá fora

Marcelo Rubens Paiva

10 de junho de 2010 | 00h37

Primeiro, queria informar que estamos com um problema para aprovar os comentários dos leitores.

Não sei o que está acontecendo.

Logo, logo, resolverei.

Sorry.

Depois, tem tanta coisa acontecendo por aí.

Resolvi aqui dar umas dicas.

Como:

1. O FALECIDO

falecido

Peça genial no TEATRO NEXT, de São Paulo.

De Antonio Rocco, que juntou duas cenas, Amor à Vista e O Falecido.

Na primeira, 2 noivos estão num cartório à espera de seus respectivos pares. O lugar está para fechar, e o Juiz de Paz pressiona, enquanto os noivos não aparecem.

No final, surpresa…

Na segunda, Hermelindo Saraiva, depois de uma bebedeira e dar vexame na festa de casamento de um amigo, acorda dentro de 1 caixão no próprio velório. Sem saber se está vivo ou morto, Hermelindo resolve jogar com amigos e parentes.

Com Antonio Destro, Lulu Pavarin, Luciana Caruso, Ivan Cápua e Mário Mathias

 

 

2. A peça MENINAS DA LOJA

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Primeiro texto do cartunista Caco Galhardo para teatro. No ESPAÇO PARLAPATÕES, aqui em São Paulo.

Belo texto. Bem amarrado, divertido, com personagens conflitantes: 4 mulheres que trabalham numa loja de sapatos.

Todas estão do lado de fora, fumando sem parar, porque a gerente esqueceu as chaves: 3 vendedoras bem diferentes, uma lésbica, que sempre toma pé da mesma mulher, uma doida baladeira, e uma de origem mais pobre.

Enquanto esperam pelo proprietário, trocam histórias, confissões e acusações. Uma delas confessa que trabalha na loja de sapatos porque ama pés.

Uma direção super caprichada da Fernanda D’Umbra.

Com Martha Nowill, Chris Couto, Cynthia Falabella e Mari Nogueira

 

3. A peça OLHE PARA TRÁS AGORA

 OLHE

No Teatro Vivo, São Paulo, peça dirigida por Ulysses Cruz, adaptação de  Look Back in Anger, do roteirista, dramaturgo e ator inglês John Osborne.

Com Sérgio Abreu, Karen Coelho, Thiago Mendonça e Maria Manoella.

Baseada em partes da vida de Osborne.

É a história de Jimmy Porter, um cara revoltado com a Inglaterra conservadora do pós-guerra, que se casou com uma burguesinha, Allison, e mantém um caso de amor com a melhor amiga dela, Helena.

Desabafa com o seu melhor amigo, Cliff, um operário.

 

4. O filme O ESCRITOR FANTASMA

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Polanski não é mole.

Como entende de cinema…

Consegue criar climas neste thriller de um fôlego só e com uma ironia sem tamanho: “filmado” na Inglaterra e nos EUA, onde o diretor não pode colocar os pés.

E que mexe com o orgulho ferido britânico, sempre à mercê das trapalhadas na política externa da ex-colônia. O que é motivo de deboche da Comunidade Europeia.

Escritores fantasmas [ghost writers] são aqueles anônimos que escrevem ou colaboram em livros de celebridades. Como Nirlando Beirão foi para GALISTEU, WASHINGTON OLIVETTO.

É o ganha-pão de muitos autores, como FERNANDO MORAES.

Ewan McGregor interpreta o escritor que tem a missão de escrever as memórias de um primeiro-ministro político britânico, agora escondido em uma ilha na Costa Leste americana, Adam Lang (o ex-007 Pierce Brosnan).

Que é acusado de ter envolvido o país na invasão do Iraque e feito corpo mole na tortura a prisioneiros.

Quem é herói e vilão?

Quem manipula o poder britânico?

Há meses detido pelas autoridades suíças pelo caso de pedofilia de 1977, Polanski deu da prisão os últimos retoques do filme e da sofisticada estação de esqui de Gstaad, seu atual local de confinamento.

A mesma situação em que se encontra o seu personagem.

Vale muito a pena.

 

5. O filme brasileiro EM TEU NOME

 EM TEU NOME

De PAULO NASCIMENTO, sobre a história real de Boni, um estudante de engenharia de origem humilde, que durante a ditadura adere à luta armada [VPR].

É preso, torturado e banido do país em 1971, ao ser trocado pelo embaixador suíço  no chamado Grupo dos 70.

No exílio no Chile, ao lado da companheira Cecília, passa a compreender a sociedade de outra maneira. Começa  a trabalhar e a conviver com o povo chileno, percebendo que “para mudar a realidade é preciso primeiro entendê-la”.

O golpe militar derruba Allende e transforma a vida o casal.

Com  Cecília e o filho Rodrigo (que nasceu no Chile), Boni  parte para a Argélia (onde nasce mais um filho – Luciano), onde está o grupo de MIGUEL ARRAES,  e depois para Paris,  onde  é escolhido presidente do Comitê Brasileiro da Luta pela Anistia.

Volta  ao Brasil, 9 anos depois de ter sido exilado, com outra visão do mundo.

É o primeiro filme a tratar da dura vida dos exilados brasileiros.

Contarei o final do filme, pois um olhar fala mais do que muitas teses e debates.

Um repórter pergunta a Boni ainda no aeroporto se valeu a pena.

O personagem real, João Carlos Bona Garcia, me contou na pré-estreia que sim, ele responderia ao repórter.

Mas o diretor decidiu mudar.

Não vou contar o que é dito.

Com Leonardo Machado (“3Efes”, “Valsa Para Bruno Stein”), Fernanda Moro (“Valsa Para Bruno Stein”), Silvia Buarque (“Vereda Tropical”), Marcos Paulo (“Se Eu Fosse Você 2”) e César Trancoso (“O Banheiro do Papa”).

E a gaúcha Júlia Feldens, personagem real da história, sobrinha de Bona.

Outro dado interessante do filme, que custou R$ 3 milhões e foi filmado na França, Marrocos, Chile e em Porto Alegre.

Foi todo patrocinado por apenas uma empresa, a NEO ENERGIA, que se entusiasmou tanto com a história, que decidiu bancar o filme sozinha.

 

 

E aqui vai algo para se pensar sobre a discussão em torno da validade da LEI DA ANISTIA, que proporcionou a volta dos exilados, mas também decidiu pelo perdão aos torturadores.

O texto de Fábio Konder Comparato

A TORTURA NO DIREITO INTERNACIONAL

O termo tortura designa qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentos agudos, físicos ou mentais, são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim de obter, dela ou de uma terceira pessoa, informações ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou uma terceira pessoa tenha cometido ou seja suspeita de ter cometido; de intimidar ou coagir esta pessoa ou outras pessoas; ou por qualquer motivo baseado em discriminação de qualquer natureza, quando tais dores ou sofrimentos são infligidos por um funcionários público ou outra pessoa no exercício de funções públicas, ou por sua instigação, ou com o seu consentimento ou aquiescência.”

Essa definição indica três objetivos determinados para o ato de tortura: a obtenção de informações ou confissões, o castigo e a intimidação ou coação de certas pessoas. Faltou, a meu ver, indicar um quarto objetivo, que assumiu notável importância no mundo contemporâneo, desde o início das chamadas “guerras revolucionárias” nos países do terceiro mundo, a partir do término da Segunda Guerra Mundial. É a montagem de um clima de terror generalizado pelas autoridades estatais, como forma de combate aos movimentos subversivos. Essa nova instrumentalização da tortura foi inventada pelos militares franceses durante a guerra da Argélia, de 1954 a 1962, e reproduzida a seguir em outras partes do mundo, notadamente no Brasil durante o regime de exceção instaurado pelo golpe militar de 1964.

Seja como for, a Convenção de 1984 adverte que a definição de tortura, por ela dada, representa um mínimo: outros diplomas normativos, nacionais ou internacionais, podem ampliá-la.

A mesma ampliação de limites e possibilidades é estabelecida em relação aos sujeitos ativos dos atos de tortura. A definição convencional abrange não apenas os executantes, mas também os mandantes e mesmo os simples instigadores, atuando oficialmente como agentes públicos, ou fazendo-se passar por tais.

No Estatuto do Tribunal Penal Internacional de 1998, porém, para a tipificação da tortura não se exige que o ato criminoso seja praticado por instigação ou com a aquiescência de um agente público ou outra pessoa no exercício de funções públicas.

Conclusão

Por todas essas razões, fica patente que a decisão tomada pelo nosso Supremo Tribunal Federal ao julgar a arguição de descumprimento de preceito fundamental nº 153, de que a lei de anistia de 1979 desconstituiu os crimes abjetos, notadamente a tortura, praticados pelos agentes públicos do regime militar contra opositores políticos, infringiu descaradamente o sistema internacional de direitos humanos.

Essa aberração jurídica não é insuscetível de perdão no tribunal da consciência.

 

Como já escrevi aqui e na minha coluna no CADERNO 2.

Não se esquece por decreto.

Dá vergonha…

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