a vez da retomédia – comédia da retomada

a vez da retomédia – comédia da retomada

Marcelo Rubens Paiva

10 de abril de 2013 | 12h19

 

 

A GLOBO FILMES troca de comando.

Sai o diretor-executivo Cadu Rodrigues. A boataria aposta no anúncio da substituição no final do mês.

Jorge Peregrino, ex-UIP e Paramount Universal América Latina, que começou no antigo Instituto Nacional do Cinema, passou pela Embrafilme, Concine e pela Globo Vídeo, é o nome aventado.

O deboche, uma tradição brasileira que vem de longe, inspirada ainda no Teatro de Revista, ganhou as telas, passou pela Chanchada, Oscarito, Mazzaropi, as Vedetes, Pornochanchada, Trapalhões, é retomado e faz sucesso graças ao Cadu.

Na onda da Retomada, movimento de renascimento do cinema nacional depois do fim da Embrafilme graças a leis de incentivo, que começou em 1995 com… uma comédia [Carlota Joaquina], vemos um boom das RECOMÉDIAS.

A RETOMÉDIA é um movimento que veio para ficar e dar lucro.

Produtores tradicionais de outros gêneros, como Mariza Leão, focam agora neste filão; Mariza, que começou produzindo o marido Sérgio Rezende [Lamarca, O Homem da Capa Preta], levou recentemente ao cinema mais de 8,3 milhões de pessoas com sua “franquia” De Perna$ Pro Ar.

Números atualizados:

2003 – Os Normais – O Filme [2,9 milhões de pessoas]

2003 – Lisbela e o Prisioneiro [3,1 milhões de pessoas]

2004 – Sexo, Amor e Traição [2,219 milhões de pessoas]

2006 – Se Eu Fosse Você [3,6 milhões de pessoas]

2009 – Mulher Invisível [2,523 milhões de pessoas]

2010 –  De Pernas Pro Ar [3,5 milhões de pessoas]

2010 – Se Eu Fosse Você 2 [6,1 milhões de pessoas]

2011 – CiladaCom [3 milhões de pessoas]

2012 – E Aí… Comeu? [2,5 milhões de pessoas]

2012 – Até que a Sorte Nos Separe [3,4 milhões de pessoas]

2012 – De Pernas Pro Ar 2 [4, 818 milhões], já é o segundo em renda de 2013, perdendo apenas para João e Maria.

 

Estes filmes estão no ranking dos 20 filmes brasileiros mais assistidos de 2000 pra cá [35 milhões de pessoas].

Não é fraco, não.

Todos com parceria GLOBO FILMES [que entrou ou com grana, com participação, divulgação, foram produzidos, coproduzidos].

Dados do ano passado [Filme B]:

 

 

Recentemente, Cadu entrou numa atraente polêmica com o diretor pernambucano Kléber Mendonça Filho, de O Som ao Redor.

Kléber tinha sugerido à FOLHA que qualquer filme com suporte da Globo Filmes faz sucesso de público: “Se meu vizinho lançar o vídeo do churrasco dele no esquema da Globo Filmes, ele fará 200 mil espectadores no primeiro final de semana.”

O ex-diretor-executivo da Globo Filmes provocou o cineasta independente pernambucano no site da VEJA:

“Desafio o cineasta Kléber Mendonça Filho a produzir e dirigir um filme e fazer 200 mil espectadores com todo apoio da Globo Filmes! Se fizer, nada do nosso trabalho será cobrado do filme dele. Se não fizer os 200 000 assume publicamente que, como diretor, ele é talvez um bom critico”.

Em resposta à provocação de Cadu Rodrigues, Kléber postou no FACE:

“Isso não me parece correto, pois o valor de um filme, ou de um artista, não deveria residir única e exclusivamente nos número$. Sobre ser crítico ou cineasta, atuei como ambos e meu discurso permanece o mesmo, e sempre foi colocado publicamente, e não apenas em mesas de bar: o sistema Globo Filmes faz mal à ideia de cultura no Brasil, atrofia o conceito de diversidade no cinema brasileiro e adestra um público cada vez mais dopado para reagir a um cinema institucional e morto.”

Não acho correto questionar o estímulo do público, julgar sua reação. Soa pretensioso. O público de Os Normais é intelectualmente mais manobrável que o de O Som Ao Redor?

A polêmica, que parece uma birra regionalista- afinal sempre tem um cineasta pernambucano envolvido-,  lembra as grandes discussões de Glauber sobre o papel do cinema e do Estado.

É atraente, pois nas entrelinhas está o repto levantado em 1922 no palco do Theatro Municipal de São Paulo: é possível fazer arte de bom nível pras massas?

Kléber foi mais longe: “Devolvo outro desafio: Que a Globo Filmes, com todo o seu alcance e poder de comunicação, com a competência dos que a fazem, invista em pelo menos três projetos por ano que tenham a pretensão de ir além, projetos que não sumam do radar da cultura depois de três ou quatro meses cumprindo a meta de atrair alguns milhões de espectadores que não sabem nem exatamente o porquê de terem ido ver aquilo.”

Esse desafio não entendi. Os 35 milhões citados não saberão por que foram ver o que viram, se esquecerão em meses do que viram, será digerido como um fast-movie?

Independente da polêmica, o filme de Kléber é dos melhores feitos no Brasil, surpreende, prende, é genial e ponto.

Não só os filmes, mas a cultura de PERNAMBUCO faz um bem danado ao país, revela talentos, questiona a linguagem, emociona, nos faz pensar.

E o legado de CADU não precisa de respaldo.

Questionou o mercado viciado em leis de inventivo, cuja maioria dos filmes não se paga.

Se levou a tela da TV para a tela do cinema, soube incentivar novos cômicos, uma nova geração de autores e atores, deu lucro, levou uma multidão aos cinemas e como capitalista fez jus ao cargo.

Parabéns Kléber, parabéns Cadu. Obrigado a ambos.

O cinema brasileiro vive um momento in$pirado e inspirador.

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