a torre da família bolha

a torre da família bolha

Marcelo Rubens Paiva

18 de novembro de 2013 | 12h07

A arqueologia procura ver nas habitações escavadas como eram nossos antepassados, como evoluímos, quais eram nossos costumes secretos. Cientistas de chapéu e colete de couro fuxicaram a intimidade de “antigos nós” sem pedir licença. Escreveram tratados e biografias não autorizadas, interpretaram nossa cerâmica, pintura rupestre, adorno. Até nossos lixos fuxicaram.

Paparazzi com autorização e financiamento do mundo acadêmico.

O que descobriram, além de que sabemos desenhar bisões?

A cidade representa a transição do homem neolítico para o agricultor. Uma cidade só era possível com comida e água abundante. No começo de tudo, o homem morava perto do trabalho. Construiu cidades próximo ao trabalho. As primeiras nasceram na Mesopotâmia, que tem a maior reserva de água doce do planeta.

Recentemente descobriu-se que o vilarejo mais antigo da humanidade, Göbekli Tepe, construído há 12 mil anos, fica na Turquia.

O arqueólogo alemão Klaus Schmidt começou a escavar em 1994. Primeiro achou um templo com pilares em forma de T.

 

 

Por que começamos a construir?

E por que na Turquia?

Porque foi onde houve a mutação de uma gramínea chamada trigo, que proporcionou a confecção do pão, fácil de armazenar e transportar. O homem começou a construir cercado por aquilo que o alimentava, trigo selvagem.

Como bem sabe todo português: a humanidade se desenvolveu graças aos padeiros.

Hoje, olhando os lançamentos imobiliários das cidades congestionadas e amedrontadas, se vê a união de casa, área com lazer de um clube e anexo comercial.

Não é perfeito?

O homem mora e trabalha cercado pelo mesmo muro neolítico. Se diverte, se exercita e se liberta do que há de ruim nas cidades. Cultura? Uma rede de distribuição de filmes, peças, óperas, eventos esportivos e shows está disponível por banda larga. Tem as redes sociais, para fazer novas amizades e realimentar as antigas. Tem ensino à distância, para se aprimorar.

Sair de casa? Pra quê?

Esquece calçadas, passeios a pé, comércio de rua, sorvete da esquina, banca de jornal, pipoqueiro, mamães com carinhos de bebê, parquinho, mesinha de damas dos aposentados, quadra em que um filho pode jogar e conhecer um garoto de outro bairro ou classe social.

Esquece as padarias.

Como o homem do neolítico, passamos a morar onde trabalhamos. Nas nossas bolhas. Em megas cavernas. Eventualmente, em nosso SUV, visitamos outra caverna gigante, templo de compras: o shopping.

Somos mais saudáveis e viveremos com mais segurança.

Mas a que preço?

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