A química

A química

Marcelo Rubens Paiva

22 de junho de 2009 | 00h11

O Bailinho era uma festa que começou aos domingos para poucos amigos, geralmente atores que queriam se divertir depois das peças, num inferninho de Ipanema. Ideia do ator DJ e agitador Rodrigo Penna.

Como tem muita gente que gosta de ir aonde atores vão, o negócio cresceu, foi para o MAM, no Aterro do Flamengo. Bombou:

http://blog-do-bailinho.blogspot.com/

A festa Gambiarra, daqui de São Paulo, também começou pequena, nos salões de um hotel fechado do Anhangabaú. Atores pagam meia. É também aos domingos. Era. Agora, além do hotel, em que vão mais de 1.200 pessoas, colocaram 4 mil na The Week, numa sexta.

Aliás, o ator da minha peça, Alex Gruli, e a minha produtorazinha elétrica, Anna Ciça, são uns dos idealizadores. Me lembro de quando ela me falou da ideia há alguns anos. Eu disse: “Qual maluco vai se jogar numa festa na madrugada da segunda-feira?” Bem. Pencas de malucos se jogam. Malucos ou vagais? Ou frilas. Ou estudantes noturnos. Ou que dormem pouco.

O Bailinho se expandiu, faz festas em outras cidades, como um circo itinerante. A sua decoração lembra a de um arraial, por sinal.

Estiveram aqui na Casa das Caldeiras na última sexta. Não sei como nem por que apareci por lá. R$ 120 o ingresso. R$ 10 o maço de cigarros. R$ 15 a dose de uísque Ballantine’s 15 anos [informou a mocinha do bar]. Bem, até aí, pagam-se R$ 12 por uma dose de Rojo Label, o Red Label paraguaio, no bar mais mequetrefe da cidade.

Comigo, uma horda de jovens perfumados [2.000] cantando “deixa a vida me levar…” Bailinho? Virou um Bailaço.

E como balada + teatro parece ter uma química que rola, o STUDIO SP também inaugura as suas segundas-feiras de apoio ao teatro e cinema. Cede a casa para que produtores de espetáculos inéditos consigam grana para suas produções.

Inaugura nesta segunda com o grupo que monta BRUTAL, texto e direção do meu parceiro Mario Bortolotto. Estou dentro.

*

Me perguntaram aqui como será a venda de ingressos para a minha peça, A NOITE MAIS FRIA DO ANO [terças e quartas, 21h, no Espaço Parlapatões], nessa semana em que há a Festa do Teatro, com distribuição de ingressos gratuitos no Municipal, Centro Cultural e outros lugares.

Soube que os ingressos das peças mais conhecidas se esgotam, mas em torno de 10% não vão. Pessoas que pegam o ticket e desencanam. A nossa peça é das mais procuradas. Mas teremos então 10% da casa livre. Fonte segura: do próprio Hugo Possolo, idealizador da Festa e protagonista da minha peça.

Decidi então deixar entrar, sem cobrar, já que o espetáculo é comprado pela CCR, aqueles que chegarem em tempo de ocupar os lugares vagos. Justo?

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Minha crônica do último sábado no Caderno 2 foi sugestão de uma leitora que postou aqui um comentário. Não sei se ela assina o jornal. Então, essa é pra ela. Obrigado pela dica:

Acontece que…

O que acontece? Quando ainda estão no carro, voltando de um jantar com amigos, já aparecem os comentários: “Bebi muito”; “Deu um sono”; “Amanhã tenho um dia tão difícil…” E nem deu meia-noite. É o código. Hoje não rola. Como ontem, como antes…

Cruzam a garagem rapidamente, atacados pela corrente de vento gelado. Nem encaram o porteiro. No elevador, cada um num canto. Ele quem aperta o botão do andar. Sempre é ele quem aperta, ela reparou. Ele quem comanda. Gosta de. Ele quem dirige, atende o interfone, pega o jornal às manhãs, decide as férias, se está frio, se devem trocar de carro, de aparelhos de tevê, DVD, MP3.

Não estão nada bêbados. Poucas taças. Entram em casa e se separam. Cada um tem o seu ritual de dispersão, encerrar o dia, organizar, recolocar. Ela checa os emails e a ração para os gatos. Ele lista os afazeres da empregada, fica pouco tempo no banheiro, se joga na cama e liga a tevê.
Ela ainda toma um banho. Gasta alguns minutos se lambuzando com cremes. Checa cutículas indesejáveis, passeia os olhos pelo espelho de corpo inteiro: a frente e as costas, os cotovelos e as pernas. Seca o cabelo com um secador barulhento- o síndico irá reclamar um dia.

Entra no quarto. Ele dorme com o controle remoto na mão. Ela desliga apertando o botão da própria tevê, desliga o abajur, vai para o seu lado da cama e se deita no escuro. Coloca um travesseiro entre as pernas. Escuta um caminhão ao longe. Amanhã tem feira. A criança do vizinho chora, e um alarme dispara.

Um está e costas para o outro. Dorme? Não, porque ele ainda diz: “Boa noite”. Ela responde com um grunhido simpático, fica ainda um bom tempo de olhos abertos. E se pergunta: O que acontece?

Acontece que, estranhamente, ela precisa de colo. Que ela não sente mais aquele frisson quando cruza a garagem do prédio. Porque não o provoca mais no elevador, ignorando a câmera, desabotoando a camisa dele, esfregando o joelho nele, apalpando-o, assim que ele aperta o botão.

Acontece que eles não se beijam mais quando entram em casa, não escutam uma música no escuro, que ela não senta no colo dele diante do computador, nem tomam banhos juntos. Acontece que ela não olha mais para o espelho para checar o que irá mostrar daqui a pouco, nem planeja como entrar no quarto, para se oferecer enrolada numa toalha, engatinhar pela cama, roçar o nariz na perna dele, lamber do umbigo até a boca, deitar sobre ele como um cobertor, morder o seu pescoço, sua nuca, seu ombro.

Acontece que ela não apagaria aquela tevê, nem a luz, nem a noite. E ele nem diria boa noite, mas bem-vinda. E depois de tudo, sim, dormiriam pesadamente; nenhum alarme, criança ou caminhão seriam notados.

Acontece que ela acordaria, e ele estaria ainda na cama. Acontece que ele não comenta mais a cor da sua calcinha, do seu esmalte, dos seus olhos. Acontece que ele não a elogia mais, não surpreende, não desafia, nem provoca, não confunde as palavras, nem engasga quando ela aparece de toalha, não corre mais atrás dela, não a acorda em cima dela, como uma manta, não abraça como uma toalha, não abriga como água quente.

Acontece que ele já saiu, quando ela se levantou da cama de manhã. Nenhum post está fixado, com algum carinho escrito. Nem rascunho de bilhete existe. Ele não irá mandar um torpedo do trabalho, nem um email.

Acontece que há tempos não repartem um cigarro, não se perdem por uma estrada de terra, não discutem se o que veem é um disco voador ou um satélite espião russo. Acontece que ele não a espia mais pelo buraco da fechadura, não tira fotos dela se enxugando no espelho, não dá sustos quando ela tem soluços, não beija os seus pés, não conta as suas pintinhas, não canta em voz alta pela casa, não a acorda lambendo a orelha dela.

Acontece que há muito não saem os dois sozinhos, e entram num filme sem saber o que a crítica achou. Sem lerem os créditos, sentados na última fileira, se tocando, se beijando. Acontece que eles não repartem mais a pipoca, o refrigerante zero, o drops. Acontece que o diferente virou eventual, a rotina, habitual. Que todo desconhecido já se revelou, que a surpresa é predita, que o consumado é fato, o previsível, farto, e o pressuposto, preposto.

O que acontece é que ela sente falta de ser notada e elogiada dentro de casa. De ter calafrios. De sentir a pele esquentar. Acontece que ultimamente ela se veste para ninguém. Que ela nem liga mais rádio do carro. Que não a comove o xaveco no elevador do escritório. Que só troca emails de trabalho. Que ela almoça massa, se entope de pão e ainda se delicia com sorvete com caldas. E agora costuma pedir chantilly no café.
O que acontece com ela, que nem tinge mais o cabelo, falta à natação, não corre com as amigas, não compra sapatos, não troca a lente dos óculos riscada, não recebe mensagens românticas pelo celular?

Acontece que o incêndio se acomodou. Ela não se pergunta se é assim que tem que ser. Acontece. É cíclico, ouviu dizer. Pode ser que melhore. Por que perder o fôlego toda vez que o encontra? Já passou. Viva outra fase. Afaste essa vaidade. Não seja carente. Encare os fatos. A vida é assim. É?

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