a presidente no teatro!?

a presidente no teatro!?

Marcelo Rubens Paiva

03 Abril 2011 | 18h55

“Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando legítima defesa – e qual defesa seria mais lógica? – logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenho estado em Paris.”

Assim começa a peça que a presidente DILMA ROUSSEFF, surpreendendo a todos, foi sem o carro oficial da presidência neste sábado no belíssimo prédio do CCBB de Brasília.

Aliás, onde ela se reuniu para organizar a transição.

Apareceu no meio da plateia discreta e com poucos seguranças, para ver o grande ator Chico Diaz interpretar o texto-monólogo A Lua Vem da Ásia, do escritor mineiro Walter Campos de Carvalho.

Na saída, descontraída, falou à reportagem do Estado e frequentadores do local:

“Vocês deveriam ver essa peça.”

Quando um sujeito elogiou, dizendo que ela estava “linda”, a presidente respondeu:

“Achou?”

Surpreendeu porque seu antecessor, apesar de décadas de convivo com a classe teatral que militava de graça para o PT, fazia campanha e aparecia nos programas eleitorais, nunca ia ao teatro.

Ainda se lembram do ator PAULO BETTI se queixando em off que LULA não ia ao teatro, o que estremeceu por um período as relações entre o histórico petista e o partido?

BETTI falava por toda a classe.

E escreveu em 2010 na sua coluna:

Amigos, talvez vocês se lembrem que antes da eleição de 2002 falei que o Lula não ia ao teatro e que isso me deixava meio chateado, etc. Muita coisa aconteceu depois disso, ele era candidato estava na frente das pesquisas, disseram que eu tinha me bandeado para o PSDB, até fui ver como era lá,conheci pessoas muito legais no PSDB, mas voltei para o PT que ajudei a construir, e como era previsível naquele momento,  Lula se elegeu, se reelegeu e agora disputa a eleição apoiando Dilma e provavelmente vai ganhar de novo.

DILMA escolheu um dos maiores atores brasileiros narrar Campos de Carvalho, que já foi montado no teatro pelo ADERBAL FREIRE [O Púcaro Búlgaro] e pelos PARLAPATÕES [Vaca de Nariz Sutil].

Autor que passou anos obscuro, e que imprime uma obra verborrágica e genial, com pinceladas de humor inspirado em imagens surreais, um dos herdeiros de MACHADO mais ilustres, que colaborou com o PASQUIM e com o ESTADÃO [entre 1969 e 1978] e morreu em 1998.

E tem as obras reunidas numa edição da JOSÉ OLYMPIO, com prefácio de JORGE AMADO, e costuma dar uma voz confessional, confundindo autor com narrador:

“Fui obrigado a interromper estas lucubrações, para tomar um prato de sapo que me trouxe a gentil senhora gerente do hotel – de qualquer forma uma senhora respeitável e vesga, que às vezes me toma a temperatura pelo simples prazer de me ser agradável”, escreveu.

“Conversa vai, conversa vem, quando demos por nós já éramos 15 a falar ao mesmo tempo e sobre os mais variados assuntos, o que motivou a interferência de um dos garçons do hotel, que nos pediu silêncio.”

A Lua Vem da Ásia é a história de um aparente alienado, num mundo envolto em guerras e sob as leis do absurdo.

Que em princípio parece estar num hotel de luxo, depois num campo de concentração, para se revelar nas últimas páginas que está mesmo num hospício, rindo da própria loucura.

E DILMA gostou.

Quieta, discreta, sem aparecer muito, rompe com erros da política externa passada, não toma decisões polêmicas, governa com um estilo notório: O bom presidente é aquele invisível.

Já tem um índice de aprovação inicial [de começo de governo] maior do que o de LULA, recordista anterior.

Será que esta lua-de-mel acaba?