a pedra no sapato do cinema

a pedra no sapato do cinema

Marcelo Rubens Paiva

04 de abril de 2012 | 12h39

 

HELENO, do Zé Henrique, é um baita filme.

Rodrigo Santoro é daqueles atores que tem algo a +.

Como se diz no futiba, é um ator “diferenciado”.

Além de bonito que dói.

Numa cena de improviso, com pacientes de sanatórios, fica evidente o quanto ele está concentrado, ao começar a improvisar com um não ator, que passa a chorar compulsivamente e pedir desculpas por recusar um cigarro.

Rodrigo está Heleno e conforta o personagem como o jogador faria.

O filme em P&B consegue traçar o emocional do protagonista com alma nas mãos.

Um jogador quase bipolar, atacado pela sífilis.

Porém, detecta-se alguns problemas de roteiro.

Sempre ele, o roteiro…

Esta pedra no sapato do cinema brasileiro.

A vida real de HELENO DE FREITAS é + interessante ainda.

Advogado, filho de cafeeiros ricos, descoberto jogando bola na praia, era muito craque- fazia 1 gol por partida.

Foi expulso do BOTAFOGO, VASCO e BOCA.

Supõe-se que teve 1 caso com EVA PERON.

Na COLÔMBIA, foi 1 grande herói, apelidado de EL JOGADOR.

GABRIEL GARCIA MARQUEZ escreveu sobre ele [até aparece de relance o artigo no filme].

Decadente, tentou jogar no SANTOS e FLAMENGO.

Mas quebrou o pau no treino com todos os jogadores na Gávea e foi expulso.

Na única vez em que jogou no MARACANÃ, pelo AMERIQUINHA de Trajano, Tim Maia e família Antunes, foi expulso ao quebrar um zagueiro no 1/2.

Alguns amigos reclamaram que tem pouco futebol no filme.

O que deve ser bem caro de filmar.

Ou foi opção do diretor?

Também causa estranhamento o elemento incorporado na trama que não aconteceu na vida real: a mulher de Heleno não trocou ele pelo melhor amigo.

Mas isso porque sou chato, rigoroso com meus amigos, meu cinema, meu País, torço pelo melhor.

O que interessa é que chorei no final.

E vi numa sala de shopping lotada, cujo público demorou para sair [ótimo sinal].

+++

Tentei ver o documentário sobre RAUL SEIXAS domingo.

O INÍCIO, O FIM, O MEIO.

Cheguei em cima da hora. Não consegui entrar.

Lotado.

A raiva virou logo satisfação.

Um documentário brasileiro lotando.

Me empanturrei de trash food na Praça de Alimentação duplamente feliz.

+++

 

 

E vi XINGU.

Filme dos amigos da O2 e do meu coleguinha de ECA e TV CULTURA, CAO HAMBURGUER.

Aliás, parênteses.

CAO era “O” cineasta do departamento da USP, que agora se chama Audiovisual.

Meu contemporâneo.

No entanto, ele me contou anos depois que nem era matriculado.

Nunca fez vestibular.

Circulava por lá como 1 aluno sem ser incomodado pela burocracia acadêmica.

Aluno bicão.

Que considerávamos 1 colega dos mais agitadores e talentosos.

Genial…

Outro ator que arrebenta, JOÃO MIGUEL.

Do BAHIA, BAHIA, BAHIA!

“Ator diferenciado…”

Também sempre concentrado, focado.

Ele, CAIO BLAT e FELIPE CAMARGO dão show, cercados por índios e não atores.

A história é incrível.

Chorei no final.

Na última cena, em que…

Opa, melhor não falar.

Minha mãe foi advogada dos índios, especialista em demarcação de terras.

Vivia na minha casa o ambiente de revolta e medo dos primeiros habitantes brasileiros, que viam suas terras tomadas por mineradoras, fazendeiros, pastos, grilagem etc.

A sorte deles é que o BANCO MUNDIAL só emprestava dinheiro a projetos brasileiros agrícolas, de hidroelétrica e mineração, com aval da minha mãe, que checava se os limites do território indígena eram respeitados.

Porém, lá vou eu, O CHATO.

Senti problemas no ROTEIRO.

Quem teve a infeliz ideia de introduzir vilões, como o fazendeiro?

No fim das utopias, eles não existem mais.

Somos todos agentes e vítimas de nossos infernos pessoais.

Somos ARQUÉTIPOS [diria Antunes Filho].

Existem vilões em FELLINI, ANTONIONI, KUBRICK, COPPOLA, TRUFFAUT, KIESLOWSKI?

Os ganhadores dos 2 últimos Oscar, O ARTISTA e GUERRA AO TERROR, não têm vilão.

Nem os de Oscar estrangeiro,  SEPARAÇÃO e  SEGREDO DOS SEUS OLHOS,

O roteiro parece seguir regras e manuais dos livros de Syd Field [teórico q escreveu 4 livros sobre roteiros].

Os autores devem ter frequentado palestras e simpósios sobre roteiro.

Deveriam ter frequentado o CPT [Centro de Pesquisa Teatral] do SESC, que vale por mil cursinhos de roteiro.

Estou sendo sarcástico.

Prometi a mim mesmo que, neste ano, me controlarei mais [já que estou sem cigarros, remédios, nada].

Mas enquanto o cinema brasileiro não se livrar deste câncer chamado maniqueísmo…

A obrigatoriedade de um grande conflito aparecer a cada terço do filme força autores a manipularem a verdade em busca do tal ponto de virada.

Como na cena em que CAMARGO [o bem] discute com um MAJOR [o mal].

Militares e políticos são tratados como vilões.

Mania do cinema brasileiro de desenhar fronteiras entre o certo e errado.

Na verdade, e isso é até mais interessante, a relação entre os irmãos Villas-Bôas e os milicos foi dúbia durante a ditadura.

No começo, no meio e no fim.

Isto é dialética.

Quem viveu, se lembra.

Eles eram apolíticos, não se envolviam, não criaram problemas para os militares.

Diferentemente do que mostra o filme.

O que deixava a esquerda decepcionada.

Especialmente pq o PARQUE era um projeto do governo deposto em 64.

Os milicos tinham como projeto Brasil Grande reorganizar a AMAZÔNIA.

Índios e parques de um lado, estradas e mineradoras do outro.

Deixaram o XINGU em paz, deram grana e visibilidade.

Foi na construção da PERIMETRAL NORTE e da TRANSAMAZÔNICA que o massacre rolou.

Tenho um livro que fala sobre isso, UA:BRARI. Por isso conheço bem a história.

Pesquisei como um desgraçado. Fui umas dez vezes para a região.

Não peguei malária por pouco [1 amigo meu pegou].

Mas passei boas noites sentado num vaso sanitário no TAPAJÓS e em ALTAMIRA, na beira do Xingu, tomando soro.

Quase fui atacado por uma onça preta em CARAJÁS.

No filme, a operação de colocar os índios KREENS, não contatados, os TEMÍVEIS gigantes da floresta, dentro do parque, é o melhor conflito.

Não é desperdiçado.

Mas se perde muito tempo criando conflitos secundários, para uma artificial curva dramática.

Outra coisa, RONDON, o verdadeiro tutor dos irmãos, sumiu no filme.

Não se sabe por que eles foram escolhidos para liderar a marcha.

Bem, quem sou EU para falar?

Vá ver os FILMES citados.

Valem a pena e o ingresso.

Se emocione.

Vale a pena se emocionar.

+++

 

 

Lembrei-me que IRACEMA, UMA TRANSA AMAZÔNICA mal tinha roteiro.

O filme de Jorge Bodansky, que mistura documentário, como SEM DESTINO,  ainda é a maior obra sobre a região de tantos conflitos.

Meu coleguinha e crítico José Geraldo Couto escreveu no seu blog [http://blogdoims.uol.com.br/ims/roteiro-pra-que-roteiro/]:

“Roteiro? Pra que roteiro?”

Frase que Godard teria dito a Billy Wilder.

Criaram-se cursos, oficinas, laboratórios, hospitais, prontos-socorros de roteiros. Os manuais norte-americanos, como o do famigerado Syd Field, entraram em voga.

Nunca se falou tanto em “curva dramática”, “ponto de virada”, “trama secundária”, “jornada do herói” e coisas do tipo. Buscava-se “o bom roteiro” como quem busca a fórmula da felicidade eterna. O resultado disso, com as exceções de praxe, foi uma enxurrada de filmes corretos, bem feitinhos e insípidos, sem alma, sem vida, que na ânsia de agradar todo mundo acabam não agradando ninguém.

Concordo.

Me lembrei também do livro de LILIAN ROSS, O FILME, sobre os conflitos que JOHN HOUSTON teve com o estúdio, na preparação das filmagens e roteirização de A GLÓRIA DE UM COVARDE.

Algum produtor achava que seria útil para HOUSTON relatórios psicanalíticos do que era a COVARDIA.

Contratou especialistas da área.

Enviou para o diretor, que nem abriu o envelope e jogou no lixo.

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