A paranoia do assédio

A paranoia do assédio

Marcelo Rubens Paiva

31 Julho 2018 | 12h42

 

Hoje, 22h, o Canal Brasil exibe um dos filmes mais instigantes do cinema brasileiro, apenas três meses depois do lançamento nos cinemas: Aos Teus Olhos.

O filme de Carol Jabor tem um título que fala por si: uma ação, um gesto, pode ser interpretado dependendo do olhar.

Um professor de natação é carinhoso com uma criança que tem dificuldades.

Aos olhos de um, é um professor atencioso e sensível.

Aos de outros, pode significar assédio.

A uns, pegar no colo e beijar uma criança é sinal de afeto. A outros, de pedofilia.

Cada um vê o que quer. Cada um vê o que seu desejo reprimido fantasia?

René Girard, grande filósofo francês, diz que a gente desgosta no outro o defeito que é nosso, carregamos: mimetismo (um organismo que imita outras espécies, para sobreviver).

Baseado na peça espanhola O Príncipe de Arquimedes (Josep Miró), um professor de natação, Rubens (Daniel de Oliveira), adorado pelas crianças, é vítima de um linchamento veloz que ocorre numa tarde, por uma rede social, quando uma mãe (Stella Rebelo) o vê dedicado demais ao filho.

Que a diz que foi beijado por ele.

Para nós, o público, não faz sentido: na primeira cena, Rubens acorda com sua namorada (Luisa Arraes), e desempenham uma tórrida transa.

E foi um beijo de parceria, de afeto.

Para o pai, um homofóbico reprimido (Marco Ricca), a notícia é um pesadelo.

Mas o filme é habilidoso para, com o tempo, jogar sementes de dúvidas em nós mesmos.

Para os que se habituaram a ver o ódio e a paranoia brotar como mato nas redes sociais, é um filme fundamental.