A não inteligência humana

A não inteligência humana

Marcelo Rubens Paiva

04 de setembro de 2009 | 12h47

Deus fez a luz, o homem e a fofoca.

Cientistas creditam o sucesso da raça humana à fala. Descobriu-
se que os neandertalenses, mais fortes, peludos, assustadores e resistentes ao frio, perderam para nós, pois a sua laringe não tinha a mesma variação tonal que a nossa. A tagarelice humana, portanto, criou pirâmides, cidades, espaçonaves e até o funk carioca.

Porém, só há poucas décadas duvidou-se da nossa inteligência, não por culpa de análises das letras do dito funk. Basta testemunhar a ocupação desordenada e o caos climático, resultado do progresso, do lixo, do combustível fóssil e do peido do rebanho que nos alimenta.

Se olharmos com atenção, vêm de muito tempo as demonstrações
de que a raça humana parece esperta, mas não é tanto assim.

Qual foi o primeiro povo que deu um salto no estágio inicial da civilização? Bem, todos sabem: os egípcios. Foram seres notáveis, que criaram as primeiras cidades, a língua escrita, os
primeiros deuses, grandes monumentos, e que dominaram a astronomia, a matemática, a agricultura e montaram um exército imbatível por milênios.

Os egípcios acreditavam na vida após a morte. O espírito precisaria de um corpo para ressuscitar. Portanto, quem tinha poder e grana era embalsamado.

Funerais grandiosos duravam dias. Tumbas e pirâmides foram construídas
para os faraós. Quando morriam, levavam o rei ao seu sarcófago, com toda pompa e o o seu tesouro – utensílios, móveis, comida, bebida, até barcos. E a múmia era bem preservada, com técnicas sofisticadas e milenares de embalsamento.

Assim, no retorno à vida, o faraó teria um corpo e a sua riqueza de volta.

No entanto, construíam pirâmides em cima, com corredores labirínticos, e lacravam as tumbas, para evitarem os saqueadores.

Ora, ninguém se perguntou se, caso realmente o faraó voltasse
do reino dos mortos – e incorporasse aquele corpo, comesse e bebesse aquelas oferendas, ficasse feliz ao ver a sua riqueza intacta –,como sairia daquele muquifo abafado, claustrofóbico e escuro? Conseguiria remover aquele pedregulho que colocaram sobre o sarcófago? E para
achar a saída da câmara? Como remover aquela montanha de
pedras que formavam uma pirâmide literalmente faraônica?

Bem, para não ficarem com a fama de os megalomaníacos mais burros do planeta, os egípcios desencanaram das pirâmides. Passaram a enterrar seus faraós em tumbas discretas e subterrâneas.

No entanto, chamaram o lugar de Vale dos Reis, o que despertou a atenção dos mais espertos ladrões de tumbas e gatunos
da redondeza, que deram um sumiço nas múmias em que os mortos reencarnariam.

A alma de algum Ramsés pode até ter voltado à Terra. Mas, ao chegar, seu corpo mais parecia um amontoado de gaze suja.
Se ao menos se chamasse Vale Do Que Não Tem Aonde Cair
Morto

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Os gregos também não primavam assim pela sua dita inteligência platônica. Sim, fundaram a democracia, desenvolveram a filosofia e o teatro, toleravam a união civil entre seres do mesmo sexo.

No entanto, algum espertalhão resolveu construir um cofre, o Parthenon, bem no alto, bem chamativo, e guardar
lá toda a riqueza do Estado.

Ora, a riqueza era vigiada pelo cidadão grego. E, lógico, pelos
povos vizinho, que em pouco tempo, digamos alguns séculos, invadiram aquele pedaço cheio de bêbados, que ficavam filosofando, assistindo a peças cabeçudas e infindáveis, e passaram a mão no tesouro.

Sem contar que cultuamos uma estátua de Afrodite, Vênus
de Milo
, representante da beleza e do amor sexual, que não
tem braços.

Os romanos, bem, os romanos…

Seu império durou um pouco mais, mas claro que seus dias estavam contados, já que os senadores davam expediente enrolados em lençóis, e os soldados lutavam de saia e sandálias, e não davam a mínima para
os índices de colesterol e triglicérides, já que abusava de uma dieta
rica em carboidratos.

Os chineses, caramba, como eram burros. Inventaram a pólvora, o papel, a pipa, o macarrão e se esqueceram de patentear. Só agora correm atrás do tempo perdido e resolveram piratear tudo o resto.

Os astecas construíram a sua capital num vulcão, em cima
de um pântano. E entregaram o império de graça para um espanhol a cavalo e com um chapéu ridículo, Hernán Cortez, pois acreditavam que ele fosse um deus.

Os incas construíram cidades de difícil acesso, que nem
mesmo eles as encontravam. Só em 1911, um professor de Yale achou Machu Picchu. Os espanhóis nem mandavam mais.

Nos tempos mais recentes, os franceses quase dominaram
toda a Europa. Mas discutam tanto entre si sobre o sentido da existência, que a neve das estepes russas os atolou.

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Bem, nós, os brasileiros, não chegamos a
constituir um império, nem temos muita relevânciana história da humanidade; apesar do sucesso de Paulo Coelho, Cidade de Deus, futebol e Nasci Para Ser Sexy.

Para começar, aos nos descobrirem, achavam que estavam em outro lugar e passaram a chamar brasileiros de índios. Em seguida, nossa independência foi proclamada pelo próprio rei, que depois se tornou rei da corte e da ex-colônia ao mesmo tempo. E se mandou, nos deixando uma criança como
seu substituto.

A república foi proclamada por generais, num golpe de estado, que em anos se transformou numa ditadura. Sem contar que criaram um hino que ninguém entende, nem sabe cantar, além de uma bandeira que até dá para
desenhar o losango e o círculo, mas vai colocar as estrelinhas no lugar
certo.

Fora que os outros povos não acertam o nome da nossa capital nem a pau.

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Muitos objetos corriqueiros demonstram a nossa deficiente capacidade intelectual. A bebida mais cultuada e popular do mundo, o vinho, é a mais difícil de abrir.

Não há uma garrafa de leite ou iogurte que, ao ser aberta, não lambuze nossa roupa. Não existe coisa mais complicadado que dar um laço num sapato. Porque inventamos algo que pode dar nó.

Computador dá dor nas costas, tendinite e vista cansada.

Pacote de camisinha parece que foi inventado para não ser aberto. Pastas de dentes vêm com tampas que são perdidas em dias. Chaves e chaveiros foram criados para serem perdidos. Pão mofa. Casamento acaba. Filho um dia nega os pais. E tudo o que é bom engorda.

Somos assim inteligentes?

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