a mulher de [segunda parte]

Marcelo Rubens Paiva

25 de agosto de 2011 | 23h18

A mulher de 32 anos se apaixona pelo filho que acaba de nascer; a coisa mais fofa do mundo. Tudo bem com o marido. Ele trabalha na empresa do pai. Conheceram-se quando tinham 23 anos. O seu primeiro namoro sério, com idas e vindas, interrupções e mal-entendidos. Casar é duro, ela descobre. Casamento é outra praia. De tombo e correntezas. Casamento é insistir num projeto contra o que as tentações conspiram.

A mulher de 33 anos está firme no trabalho, tem babá, uma infra legal e o marido que é dedicado, tão apaixonado pelo filho, que até dá um certo ciúme. Eles não têm aquela vida sexual de antigamente. Jogam gamão na casa de amigos. Não querem, de jeito nenhum, que o filho atrapalhe a rotina de um casal padrão.

A mulher de 34 anos se apaixona pelo novo filhinho, o segundo, que figura, que lindura, que fofura… O casal compra uma tevê de plasma enorme, com um som potente. Convidam amigos. Agora, ele cozinha, abre vinhos; fez até curso com um sommelier famoso e comprou aquela geladeirinha própria. Pensam em construir uma piscina nos fundos para as crianças. No Natal, ela dá um chapéu de chefe de cozinha com o nome dele grafado. Mas não ganha presentes. De ninguém.

A mulher de 36 se pergunta se é ainda apaixonada pelo marido bonzinho. Tem sonhado muito com outros homens, sonhos eróticos e proibidos, loucos e sem sentido, sonhos que nem uma sonhadora entende. Um sonho erótico pode perturbar mais do que uma noite de amor, porque não se escolhe o personagem. Através do Orkut, acha alguns casos do passado. Como o guitarrista que namorou, que atualmente é de uma igreja fundada por surfistas. Corresponde-se com ele. Chega a marcar um encontro numa livraria. Mas ela não vai.

A mulher de 37 anos tem uma rotina estafante: casa, trabalho, filhos, marido, academia, pais doentes, a construção da piscina, que nunca termina, e cursos de mitologia. Começa a ir sozinha aos cinemas às tardes, já que o marido vive de aeroporto em aeroporto. Numa tarde, assiste ao segundo filme do antigo namorado cineasta, o cara com quem ela teve mais afinidade, a última paixão antes de se casar. Ficou possessa quando se viu na personagem do filme. O enredo era sobre ela! Ele também não a esqueceu. Possessa e vaidosa. Na calçada, diante do pipoqueiro, liga para ele. Surpreendentemente, ele atende, é o mesmo número, tem ainda aquela voz rouca, que acelera o seu coração. Ele diz: “Vem pra cá agora!” Ao invés disso, ela compra pipoca e decide fazer terapia.

A mulher de 38 se apaixona pelo terapeuta, que, a informaram, é gay. Mas todos se apaixonam pelo terapeuta. Ainda mais por esse lacaniano gostoso e lindo de morrer. Também, por que foi escolher justo ele? Resolveram discutir esta maluquice numa sessão, quando, antes do ponto crítico, ouve a confissão que a abala: o terapeuta também está apaixonado por ela.

A mulher de 39 anos está apaixonada pelo amante lacaniano, com quem se encontra semanalmente, especialmente nos cinemas, em que se pegam por duas horas na última fileira comendo pipoca. Há um ano, ela não transa com o marido. Desconfia que o marido tem outra. Briga com o amante. Resolve se dedicar à família, à qualidade de vida, ao corpo: malha, corre, faz meditação, massagem e, vez por outra, um ebó para Iansã. Pára de comer pipoca.

A mulher de 40 anos, ao acordar numa tarde chuvosa, encontra o marido na sala com três malas, que diz: “Precisamos conversar”. E recebe a notícia de que ele está apaixonado por uma aeromoça de 24 anos da GOL e vai se mudar para o flat dela. Enquanto ele enumera os motivos, ela pensa: “Da GOL?! Por que não da British ou Air France?” E fala uma frase que causa no marido um ataque de risos: “Agora que acabou a reforma da piscina?”

A mulher de 41 anos liga para o terapeuta, ex-amante, sai com ele e diz que quer ter um filho. O cara, apesar de lacaniano maduro, dá um sumidão sem classe.

A mulher de 42 anos sai com as amigas para beber e dançar. Vai a lugares de gente jovem, recebe cantadas de moleques, sai com alguns deles: um escritor bissexual de 25 anos, um DJ dinamarquês todo tatuado, um judeu que toca salsa no piano de um bar cubano.

Aos 43 anos, tomando café nos Jardins, reencontra o ex-namorado, o cineasta, que está com o terceiro longa a caminho de Cannes. Tomam quatro cafés. Falam de todos os filmes que viram na década. Ele finalmente pergunta por que ela o largou. Ela sugere pedir a conta. Vão a um motel imediatamente. Vão para Cannes dois dias depois; ele faz parte do festival de cinema. Ela se diverte com o glamour da cidade, com toda a atenção que recebem e com o charme e gentilezas do ex. Mas detesta seu terceiro filme, que passa na mostra paralela. Detesta tanto, que volta na manhã seguinte para São Paulo.

O cineasta brasileiro de três longas sorri quando lê o bilhete entregue no hotel com um champanhe e flores da acompanhante pedindo desculpas, afirmando que aquele mundo não era dela, que ela ficou lisonjeada pelo convite, que a França é tudo, mas que voltava para a sua vida e filhos. Ele sabe que ela não gostou do filme. Sentiu isso na première e no jantar posterior. Ele nem pensou em fazer as malas, correr para o aeroporto. Não deixaria sua agente para trás, que montara uma agenda com encontros importantes, contratos, roteiristas, produtores e um café da manhã com Scarlett Johansson, que falou sem parar, enquanto ele se lembrava da ex.

Fim do festival. Ele pega o avião para o Brasil. Em São Paulo, dirige-se direto para a casa da mulher de 43 anos que tanto ama. Abre a porta um menino num skate, seguido por um menor vestido de Batman. Aparece a mãe que, ao vê-lo, sorri sem graça.

Ele entrega uma pilha de recortes de jornal.

Ela lê de relance.

São críticas em várias línguas arrasando com o filme.

Ela ri e apresenta os filhos.

O almoço está na mesa.

A mulher de 43 anos então pergunta por que o cineasta de três longas não se junta a eles.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: